O que é e como funciona a dieta Low FODMAPs

Postado em 25 de dezembro de 2019 | Autor: Cristiane Verotti

Conheça o que entra e o que sai do cardápio desse plano alimentar que pode ajudar a melhorar os sintomas da síndrome do intestino irritável

Cristiane Verotti

Cristiane Verotti* é nutricionista

A síndrome do intestino irritável (SII) é uma condição crônica com alta prevalência em crianças e adultos em todo o mundo. Seus sintomas foram identificados em 8% a 25% dos pequenos, com base em grandes estudos com crianças em idade escolar e comunitária, e em até 66% nos adultos.

A doença está ligada ao desconforto ou dor abdominal associada à defecação por pelo menos dois meses antes do diagnóstico. Fatores como angústia, ansiedade, depressão, raiva e impulsividade em crianças influenciam essa hipersensibilidade, mas alguns pacientes atribuem os sintomas a determinados alimentos.

Entre as causas que podem influenciar nos sintomas da SII ou a evolução da doença,  a alimentação foi uma dos mais extensivamente estudadas, com aproximadamente 60% dos pacientes diagnosticados alegando que certos alimentos influenciam em seus sintomas.

Restrições alimentares

Certos alimentos podem gerar sintomas gastrointestinais, como diarreia, inchaço abdominal, desconforto e flatulência, e essa foi a razão pela qual os pacientes com SII foram aconselhados a restringir sua ingestão. Na lista dos mais comuns, pode-se citar o leite e outros produtos lácteos, alguns legumes e leguminosas, vegetais crucíferos, algumas frutas (maçãs, cerejas) e grãos (trigo, centeio).

Nesse sentido, os componentes mais incriminados são os carboidratos de cadeia curta altamente fermentáveis, que são absorvidos lentamente ou não digeridos no intestino delgado. Estes foram nomeados em 2005 pelo grupo Monash como oligossacarídeos fermentáveis, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis, ou abreviados pela sigla FODMAP em um artigo sobre a ligação entre a dieta ocidental (rica em FODMAPs) e o estilo de vida em pacientes com doença de Crohn.

Portanto, a dieta Low FODMAPs traz a sigla das letras iniciais dos carboidratos altamente fermentativos: oligossacarídeos (trigo, centeio, diversas frutas, legumes e leguminosas), dissacarídeos (lactose do leite e derivados), monossacarídeos (frutose das frutas e mel) e polióis (presente em algumas frutas e adoçantes).

“De difícil digestão e rápida fermentação, os alimentos FODMAPs formam gases que distendem o abdômen. Além disso, puxam água para o intestino, que fica ainda mais inchado”

Processo de adaptação da dieta Low FODMAPs

Desde 2005, vários estudos foram publicados sobre a eficácia de uma dieta Low FODMAPs em comparação com uma dieta tradicional na melhora dos sintomas de SII em adultos. Mas ainda restam várias perguntas sobre esse tratamento dietético, e, portanto, são necessários mais estudos controlados e randomizados para estabelecer claramente a dieta com baixo índice de FODMAP como o método de terapia de primeira linha.

Por se tratar de uma dieta muito restritiva, é essencial o acompanhamento de um nutricionista para evitar carências nutricionais e avaliar necessidade de suplementação. As fibras devem ser também avaliadas, e nesse sentido, verificar a necessidade de simbióticos ou probióticos para também evitar a disbiose, ou seja, o desequilíbrio da flora intestinal.

Podem ser retirados por até oito semanas os itens com maior potencial fermentativo (leguminosas, cebola, alho, leites e derivados, os ricos em glúten e maçã), mas não todos de uma vez.

Mas, de uma maneira geral, a dieta Low FODMAPs envolve três fases: uma dieta estrita e baixa em FODMAP nas primeiras 2 a 6 semanas, seguida de uma fase de reintrodução nas 6 a 8 semanas seguintes, depois a fase da dieta individualizada, o que implica o consumo de alimentos bem tolerados por períodos mais longos de tempo.

A dieta Low FODMAPs é eficaz no tratamento dos sintomas abdominais na maioria das crianças e adultos diagnosticados com SII. Ainda existem muitas lacunas a serem preenchidas em relação à implementação da dieta na prática clínica, os efeitos a longo prazo relacionados ao estado nutricional, uma quantificação detalhada do FODMAP nos rótulos e listas detalhadas de alimentos, juntamente com o impacto sobre o estado nutricional na qualidade de vida e na saúde.

Fique de olho na lista de alimentos liberados e restritos na dieta Low FODMAPs:

Alto teor de FODMAPs

  • Vegetais: cebola, alho, aspargo, alcachofra, ervilha, beterraba, couve, aipo, milho, couve-flor
  • Frutas: maçã, pera, manga, melancia, pêssego, ameixa, abacate
  • Leite e derivados: leite de vaca, iogurte, queijo fresco, ricota, creme de leite, sorvete
  • Proteínas: feijão, grão-de-bico, soja
  • Pães e cereais: trigo ou centeio e massas
  • Industrializados:com xarope de milho, glicose, sacarose e adoçantes como xilitol, manitol e sorbitol
  • Oleaginosas: castanha-de-caju, pistache

Baixo teor de FODMAPs

  • Vegetais: alface, abobrinha, berinjela, espinafre, cenoura, pepino, ervas aromáticas
  • Frutas: tomate, banana, laranja, tangerina, uva, melão, kiwi, morango, framboesa, maracujá, abacaxi
  • Leite e derivados: leite de vaca, iogurte e queijo, todos sem lactose, queijos duros e leite de amêndoas
  • Proteínas: carne, peixe, frango, tofu
  • Pães e cereais: massas sem glúten, aveia, arroz, quinoa
  • Industrializados: biscoito sem glúten, bolacha de arroz
  • Oleaginosas: amêndoas e sementes de abóbora

*Cristiane Verotti é nutricionista especializada em nutrição clínica e esportiva. Mestre pelo departamento de gastroenterologia da FMUSP. Membro titular da BRASPEN.

Referências bibliográficas

Fodor I, Man SC, Dumitrascu DL. Low fermentable oligosaccharides, disaccharides, monosaccharides, and polyols diet in children. World J Clin Cases, 2019.

Brandt LJ, Chey WD, Foxx-Orenstein AE, Schiller LR, Schoenfeld PS, Spiegel BM, Talley NJ, Quigley EM. An evidence- based position statement on the management of irritable bowel syndrome. Am J Gastroenterol 2009

Gibson PR. History of the low FODMAP diet. J Gastroenterol Hepatol 2017

Gibson PR, Shepherd SJ. Personal view: food for thought–western lifestyle and susceptibility to Crohn’s disease. The FODMAP hypothesis. Aliment Pharmacol Ther 2005.

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