Aminoácidos em Atividades Físicas e Esporte: Quando, Como, Quanto?

Postado em 25 de outubro de 2013

O consumo de aminoácidos por atletas recreacionais e profissionais tem crescido constantemente. Dessa forma, faz-se de grande importância reconhecer os reais efeitos da suplementação em diferentes condições e modalidades.

Somente com a alimentação pode haver uma deficiência protéica na dieta da população fisicamente ativa e em atletas conduz ao aumento da incidência de infecções, posto que diversos aspectos da função imunológica, como produção de citocinas, imunoglobulinas e proteínas de fase aguda, dependem da disponibilidade de aminoácidos (1,2). Adicionalmente, há atividades, como as de ultra-endurance, nas quais há marcado aumento da oxidação de aminoácidos (3). Por fim, no exercício de força, o requerimento protéico pode estar aumentado frente à necessidade de recuperação do músculo e ao processo de hipertrofia resultante do treinamento (4).

Por isso, muitas vezes há dificuldade de se obter, através da dieta, toda a proteína necessária. Pode ocorrer ainda, dificuldades impostas por algumas modalidades, como provas de aventura, nas quais é impossível realizar refeições adequadas. Assim, a suplementação aparece como uma alternativa interessante (5).

Todavia, ainda que o requerimento protéico seja atingido, a suplementação com diferentes aminoácidos está relacionada a efeitos específicos. Além disso, está claro que para atender às necessidades individuais considerando idade, gênero, modalidade, carga de esforço e grau de treinamento deve-se escolher cuidadosamente o suplemento.

Para atletas de força, a suplementação com β-alanina tem sido preconizada, induzindo tamponamento no músculo e maior resistência à fadiga (6). Esse aminoácido é precursor da carnosina (β-alanil-L-histidina), que é um potente regulador do pH intracelular e cuja concentração é menor no sexo feminino e em indivíduos vegetarianos e está reduzida com o envelhecimento, sugerindo-se então, a suplementação com até 800 mg/dia de β-alanina, em indivíduos fisicamente ativos nesses grupos (7).

A suplementação com creatina (20-25 g/dia por 5-7 dias) demonstra aumento do desempenho esportivo em atividades de força, ciclismo e de sprinting, com concomitante aumento da massa e força muscular (8). Embora se tenha aventado que a suplementação estaria associada ao risco aumentado de comprometimento da função renal, em indivíduos saudáveis não há aparentemente efeitos deletérios (9). Recentemente, a suplementação foi testada (12 g/dia creatina monohidratada por 15 dias) em atletas de endurance (10), tendo induzido pequena melhora no desempenho.

Os resultados mais consistentes e promissores dizem respeito à suplementação com aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) oferecidos em dose de 85 mg/kg com a mistura de valina, leucina e isoleucina, respectivamente com 45, 30 e 25% em solução. Desses, notadamente a leucina aparece como o aminoácido mais eficiente em promover adaptações que resultam em melhor desempenho esportivo. Assim, a leucina e seu metabólito, o β-hidroximetil-β-hidroxibutirato (HMB) induzem comprovadamente a um: 1. balanço nitrogenado positivo, 2. redução na proteólise da musculatura esquelética (mecanismos associados à redução de várias vias de atrofia muscular), 3. incremento da síntese protéica (mediado por efeitos na via da proteína mTOR, e alteração da secreção de hormônio do crescimento – GH e IGF-1, entre outros mecanismos), 4. redução da dor muscular (todos esses efeitos, exacerbados em atletas idosos), 5. aumento da capacidade oxidativa do músculo, 6. além de possivelmente modular beneficamente a função do sistema imunológico e melhoram a recuperação. Tais propriedades têm sido sistematicamente estudadas em diversas atividades e graus de esforço. A dose de HMB preconizado é de 38 mg/kg por 2 semanas antes da prova (11-13).

Nos atletas que têm uma carga de treinos e provas intensas, principalmente em eventos de endurance de longa duração, estimula-se a suplementação com glutamina (5 g/h durante o período de recuperação), uma vez que esse é considerado um aminoácido condicionalmente essencial à função de linfócitos e macrófagos, cuja concentração pode estar diminuída em função do esforço nesses atletas, conduzindo a uma maior incidência de infecções do trato aéreo superior (14).

Finalmente, salienta-se que o momento da suplementação com qualquer aminoácido ou combinação de aminoácidos é também determinante da eficácia do efeito e o profissional de saúde deve estar atento a esse aspecto (15).

Marilia Seelaender
Professora Associada, Chefe do Grupo de Metabolismo e Câncer, Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo. Graduação: Biologia, USP; Mestrado: Fisiologia, USP; Doutorado: Fisiologia Humana, USP; Pós Doutorados: Metabolismo (Universidade de Oxford, Inglaterra); Bioquímica da Nutrição (Universidade de Potsdam, Alemanha); Metabolismo do Câncer (Universidade de Barcelona, Espanha); Livre-Docência: Biologia Celular, USP

Referências Bibliográficas:

1. Gleeson M. Can nutrition limit exercise-induced immunodepression? Nutr Rev. 2006;64(3):119-31.

2. Walsh, NP. In: Immune Function in sports and Exercise. Advances in Sport and Exercise series. Gleeson M (ed). Churchil Livingstone Elsevier: Edinburgh, UK, 2005; pp.161-181.

3. Burke, L & Deakin, V. Clinical Sports Nutrition, 4th ed. Sydney (NSW): McGraw-Hill, 2010.

4. Vieillevoye S, Poortmans JR, Duchateau J, Carpentier A. Effects of a combined essential amino acids/carbohydrate supplementation on muscle mass, architecture and maximal strength following heavy-load training. Eur J Appl Physiol. 2010;110(3):479-88.

5. Ranchordas MK. Nutrition for adventure racing. Sports Med. 2012;42(11):915-27.

6. Hoffman JR, Emerson NS, Stout JR. β-Alanine supplementation. Curr Sports Med Rep. 2012 Jul-Aug;11(4):189-95.

7. Harris RC, Wise JA, Price KA, Kim HJ, Kim CK, Sale C. Determinants of muscle carnosine content. Amino Acids. 2012 Jul;43(1):5-12.

8. Gualano B, Roschel H, Lancha-Jr AH, Brightbill CE, Rawson ES. In sickness and in health: the widespread application of creatine supplementation. Amino Acids. 2012 Aug;43(2):519-29.

9. Kim HJ, Kim CK, Carpentier A, Poortmans JR. Studies on the safety of creatine supplementation. Amino Acids. 2011 May;40(5):1409-18.

10. Tang FC, Chan CC, Kuo PL. Contribution of creatine to protein homeostasis in athletes after endurance and sprint running. Eur J Nutr. 2013 Feb 8. [Epub ahead of print]

11. Deutz NE, Pereira SL, Hays NP, Oliver JS, Edens NK, Evans CM, Wolfe RR. Effect of β-hydroxy-β-methylbutyrate (HMB) on lean body mass during 10 days of bed rest in older adults. Clin Nutr. 2013 Mar 4. doi:pii: S0261-5614(13)00075-7. 10.1016/j.clnu.2013.02.011. [Epub ahead of print]

12. Borgenvik M, Apró W, Blomstrand E. Intake of branched-chain amino acids influences the levels of MAFbx mRNA and MuRF-1 total protein in resting and exercising human muscle. Am J Physiol Endocrinol Metab. 2012 Mar 1;302(5):E510-21.

13. Wilson JM, Fitschen PJ, Campbell B, Wilson GJ, Zanchi N, Taylor L, et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: beta-hydroxy-beta-methylbutyrate (HMB). J Int Soc Sports Nutr. 2013 Feb 2;10(1):6.

14. Gleeson M. Dosing and efficacy of glutamine supplementation in human exercise and sport training. J Nutr. 2008 Oct;1
38(10):2045S-2049S.

15. Kerksick C, Harvey T, Stout J, Campbell B, Wilborn C, Kreider R, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: nutrient timing. J Int Soc Sports Nutr. 2008 Oct 3;5:17.

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