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Antártica e o aquecimento global

Postado em 5 de setembro de 2008

Nessa entrevista exclusiva o pesquisador dr. Alberto W. Setzer fala sobre Antártica, aquecimento global e as características de sua alimentação durante o período de estudo, confira:

Entrevista com dr. Alberto W. Setzer, pesquisador titular do CPTEC/INPE-Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCT) integram as missões do Programa Antártico Brasileiro, PROANTAR, ao lado de colegas de muitas universidades do País, e participaram, de novembro de 2006 a fevereiro de 2007, da 25ª Operação Antártica. Esta última Operação foi particularmente importante por coincidir com o Ano Polar Internacional, um evento científico que ocorre a cada 50 anos para gerar avanços significativos na pesquisa polar.

A equipe de 14 pesquisadores do INPE participou de pesquisas na área de Ciências da Atmosfera, e estava dividida em três projetos: “Geoespaço – Novos Diagnósticos de Anomalias no Meio Geoespacial e seus Efeitos na Atmosfera Terrestre na Região Polar e no Continente Sul Americano”; “Ozônio e Radiação UV – Estudos da radiação ultravioleta solar, UV-A e UV-B, na Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz e na região de Punta Arenas, Chile”; e “Meteorologia – Monitoramento Meteorológico na Antártica”.

Este último, coordenado pelo pesquisador Alberto W. Setzer, veterano de 22 expedições, foi realizado na Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz e deu continuidade aos registros meteorológicos do Programa Antártico Brasileiro, Proantar, permitindo o desenvolvimento de pesquisas regionais e suas interações com o Brasil.

As equipes em trabalho de campo, sob condições ambientais desfavoráveis, mantinham uma rotina minuciosamente estudada para minimizar os riscos de periculosidade ocasionados pelos fortes ventos, baixas temperaturas e isolamento. Para falar um pouco mais sobre estas condições, as conclusões dos estudos e, especialmente, as características de sua alimentação durante o período de estudo, o pesquisador concedeu ao Nutritotal uma entrevista exclusiva. Confira!

1. Como é a alimentação na base brasileira na Antártica?
O que se tem na base brasileira na Antártica em termos de clima é similar ao que há em países frios no inverno, como na América do Norte e algumas regiões da Europa e Ásia. A grande diferença é o isolamento. Passamos alguns meses sem frutas e vegetais frescos, e sem uma série de alimentos que estamos acostumados a ingerir.

2. Quais as principais diferenças e dificuldades com a dieta seguida lá?
A dieta é um pouco diferente, um pouco mais forte nas gorduras e calorias, que são uma tendência, eu diria quase que espontânea, em locais com baixas temperaturas. Por isso, é comum as pessoas engordarem durante a estadia lá, ou ao menos se preocuparem com o aumento de peso, sendo obrigadas a fechar um pouco mais a boca.

3. A suplementação é necessária?
Não. Particularmente na estação antártica brasileira a alimentação é bem balanceada e dentro dos limites especificados por nutricionistas. É claro que às vezes não há alimentos frescos, mas temos peixes, carne, cereais, legumes congelados. Há uma variedade suficiente e os alimentos disponíveis acabam por compensar os que não se consegue no local.

4. Em termos de catástrofes climáticas, será possível a nutrição humana?
O ser humano sempre se adaptou, essa é a nossa história há cerca de dois milhões de anos. Foi nossa grande capacidade de adaptação que nos permitiu evoluir como sociedade e eu acredito que isso vá se manter. O homem é capaz de se adaptar a variações climáticas, como já vem fazendo desde seu surgimento. Enfrentando mais ou menos dificuldades, prosseguiremos. Com toda a certeza não será a falta de alimentos que nos impedirá.

5. O senhor acredita em um iminente degelo catastrófico?
De fato, eu não acredito que vá ocorrer um degelo catastrófico nas próximas décadas. A questão da Antártica é bastante complicada. É lá que está toda a água congelada que poderia ocasionar o aumento dos níveis do mar, mas não estamos observando isso. O continente Antártica possui quilômetros de espessura de gelo que continuam do mesmo jeito que estavam há anos.

6. E as temperaturas, já é possível perceber uma variação?
Muito pelo contrário do que muitos imaginam, o continente está até esfriando ao invés de esquentar. O que estamos vendo derreter são as placas de gelo que ficam sobre oceanos, tanto no Ártico como na Antártica. Estas placas de gelo já estão no oceano, logo o processo é semelhante ao do derretimento de cubos de gelos dentro de um copo de água, no qual apesar do derretimento, o nível do liquido é mantido. Para que o nível dos mares suba é necessário que os grandes campos de gelo da Antártica sejam derretidos e isto não está acontecendo.

7. Então não é preciso alarde quanto a uma catástrofe próxima?
Existe com certeza um grande exagero da mídia. Sem dúvida há casos alarmantes com relação à sobrevivência de espécies em alguns locais, que vêm sendo atingidos por variações climáticas. Mas essas questões, principalmente na Antártica, ainda são restritas e não de cunho planetário.

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