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ARGININA X FUNÇÃO IMUNOMODULADORA A função imunomoduladora da arginina tem mecanismos de ação mais complexos do que parecem à primeira vista?

Postado em 1 de junho de 2002

Arginine deficiency-induced hyperammonemia in a home total parenteral nutrition-dependent patient: a case report. Kapila S, Saba M, Lin CH, Bawle EV. JPEN J Parenter Enteral Nutr 2001; 25(5): 286-8.

Relato de caso de um paciente com síndrome do intestino curto (SIC), dependente de nutrição parenteral total (NPT) domiciliar e com função renal normal que desenvolveu encefalopatia hiperamoninêmica devido a falta de arginina na composição da NPT. O paciente foi tratado com sucesso por meio de hemodiálise e infusão endovenosa de arginina. A composição da NPT foi ajustada para conter a necessidade diária de arginina. Ochoa JB, Strange J, Kearney P, Gellin G, Endean E, Fitzpatrick E. Effects of L-arginine on the proliferation of T lymphocyte subpopulations. JPEN J Parenter Enteral Nutr 2001, 25(1):23-9. Foram obtidos linfócitos de baços de ratos, sendo induzida sua proliferação com anti-CD3 na presença de diferentes concentrações de L-arginina (de 0 a 1.000 µmol/l). Foi utilizada citometria de fluxo para avaliar os efeitos da L-arginina nas subpopulações de linfócitos, e a produção de IL-2 foi mensurada através do método ELISA e expressão gênica pela reação de polimerase em cadeia (PCR). Concentração de L-arginina maior do que 100 µmol/l aumentou significativamente a proliferação de linfócitos e sua presença foi essencial para a maturação adequada dos linfócitos T (CD3+). Proliferação de linfócitos T “helper” (CD4+) não foi dependente de L-arginina, mas a de linfócitos T citotóxicos (CD8+) foi dose-dependente. Entre os linfócitos CD8+, aqueles CD8+/CD45RA negativos (de memória) mostraram maior proliferação com a adição de L-arginina. Adição de L-arginina aumentou modestamente a produção de IL-2, mas não modificou a expressão de receptores de IL-2 (IL-2R). Em conclusão, observa-se que os efeitos da L-arginina na proliferação estimulada de linfócitos T variam de acordo com a subpopulação estudada; tais efeitos podem se dever a aumento da produção de IL-2.

Addition of tyrosyl-arginine to parenteral nutrition is anabolic in unstressed rats. Kee AJ, Smith RC. Nutrition 2000; 16(5): 361-7.

Ratos foram divididos em quatro grupos: 1) NPT (1,20 MJ/kg/dia; 1,22 gN/kg/dia); 2) NPT e tirosil-arginina (TyrArg) (2,6 mmol/kg/dia); 3) NPT e Arg (2,6 mmol/kg/dia); 4) controle, alimentado com ração. Foram monitorados taxa de ganho de peso, conteúdo de água, lípides e proteína corpóreos após 14 dias de NPT. O ganho de peso e o conteúdo corpóreo de lípides foi significativamente maior no grupo TyrArg do que no grupo NPT. A diferença de ganho de peso, água corpórea, lípides e proteínas entre os grupos TyrArg e Arg não foi significativa. A proporção de proteína no intestino delgado, cólon e músculo gastrocnêmio foi maior nos grupos TyrArg e Arg do que no grupo NPT. Em conclusão, arginina possui efeitos anabólicos tecido-específicos em ratos sem estresse.

COMENTÁRIOS

A arginina é foco de atenção recente, devido ao seu postulado papel de imunomoduladora em pacientes críticos. Sabe-se que, em estudos tanto em animais como em humanos, a suplementação com arginina resulta em melhora da resposta celular, inibição da diminuição na função das células T induzida pelo trauma e em maior taxa de fagocitose. O estudo de Ochoa et al. revisto, que tenta desvendar com maior profundidade as alterações que a suplementação com arginina causa nos linfócitos T, expõe a complexidade deste mecanismo ao mostrar que diferentes subpopulações de linfócitos T respondem diferentemente à adição de arginina. Este fato deveria ser levado em conta em futuras pesquisas com o uso de arginina.

A arginina, além de imunomoduladora, é também metabólito intermediário do ciclo da uréia e reduz significativamente a amônia sangüínea. Tal fato, se esquecido, pode levar a encefalopatia por hiperamonemia, como demonstra o relato de caso de Kapila et al. Assim, é oportuno sempre lembrar que a arginina é também um componente que deve ser suprido em paciente em uso exclusivo de nutrição parenteral.

Por último, o estudo de Kee et al. mostra que, mesmo em animais sem estresse, a suplementação de arginina pode ter efeitos anabólicos em determinados tecidos. Tais achados nos mostram que a arginina desempenha papel fundamental no metabolismo em diversas situações clínicas. No entanto, seus mecanismos de ação podem ser mais complexos do que possa parecer à primeira vista e o interesse dos pesquisadores em estudar este componente deve crescer ainda mais num futuro próximo. Uma maior elucidação dos mecanismos envolvidos depende, portanto, de estudos futuros.

Por: Dr. Mauricio S. Galizia
Médico, graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP

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