fbpx


ASPEN divulga novas diretrizes sobre nutrição enteral e câncer

Postado em 12 de fevereiro de 2010

Em entrevista exclusiva, especialistas comentam as novas diretrizes

Divulgadas recentemente pela ASPEN (Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral), as diretrizes sobre nutrição enteral e câncer trazem novidades com relação às da própria ASPEN e da ESPEN (Sociedade Européia de Nutrição Parenteral e Enteral), que datam, respectivamente, de 2006 e 2007.

De acordo com dr. Dan L. Waitzberg, professor-associado do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o documento é de suma importância para o país, pois ao contrário do que acontece em diversas localidades, o Brasil dispõe de todas as alternativas necessárias para o bom atendimento nutricional no doente hospitalizado, ambulatorial e domiciliar.

“O sistema de saúde público do Brasil já contempla o reembolso para a rede pública de terapia de nutrição parenteral e enteral, desde que a entidade hospitalar disponha de uma equipe multiprofissional de terapia nutricional devidamente cadastrada junto a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”.

O especialista alerta, no entanto, que o sistema não prevê, ainda, o reembolso de terapia nutricional em nível ambulatorial e domiciliar.

A terapia de nutrição parenteral e enteral, explica ele, é especialmente indicada para o paciente com câncer que se apresenta desnutrido para o seu tratamento cirúrgico, ou para outras modalidades. “Nestes casos, a terapia nutricional que pode influenciar favoravelmente o tratamento, reduzindo as complicações e a mortalidade”.

Ainda para comentar o novo documento, confira a entrevista exclusiva com a nutricionista e professora de educação física Graziela Ravacci, pesquisadora Científica do LIM 35 da Faculdade de Medicina da USP e doutoranda do Departamento de Radiologia na mesma instituição.

1. Por que ainda são tantas as mudanças na abordagem destes temas? 
Porque estes guidelines (diretrizes) são orientações baseadas no avanço da ciência e pesquisas na área da nutrição, opiniões de especialistas e prática da Terapia Nutricional. Têm como objetivo orientar profissionais da saúde quanto à segurança e efetividade do uso da Terapia Nutricional, bem como seus riscos. Assim, apresentam diversos itens relacionados à aplicabilidade clínica da Terapia Nutricional, com níveis de recomendação classificados de acordo com estudos científicos

2. Houve alguma mudança com relação à composição da dieta enteral? Qual? 
Sim, houve o acréscimo de nutrientes imunomoduladores como a arginina, os ácidos nucléicos e os ácidos graxos ômega-3.

3. A partir das mudanças sugeridas nestes documentos para a dieta imunomoduladora, quais as principais mudanças sugeridas pela ASPEN?
Passam a ser considerados essenciais nestas formulações os ácidos graxos ômega-3 (n-3) e as fórmulas imunomoduladoras, contendo a combinação de arginina e ácidos nucléicos (RNA) e ômega-3.

Eles são importantes, por exemplo, em pacientes com câncer, que frequentemente apresentam uma condição conhecida como Síndrome da Caquexia do Câncer. Essa condição é caracterizada principalmente por perda de peso involuntária devido a alterações no metabolismo do paciente com grande participação do sistema imunológico à favor do aumento de mediadores pró-inflamatórios. Ácidos graxos n-3 favorecem a síntese de prostaglandinas e leucotrienos da série ímpar e inibem a atividade da enzima COX-2. Por essa razão, n-3 são considerados importantes agentes anti-inflamatórios com capacidade de estabilizar ou reduzir a taxa de perda de peso de pacientes que apresentam a síndrome da Caquexia do Câncer. As fórmulas imunomoduladoras também parecem benéficas para pacientes com câncer e são recomendadas para pacientes desnutridos por período de 5 a 7 dias antes da cirurgia gastrintestinal ou de cabeça e pescoço.

4. Há orientação sobre a quantidade de água a ser usada?
A água é necessária para reconstituição da nutrição enteral, bem como para diluir medicamentos e manter a hidratação dos pacientes. Entretanto, a presença de alterações na barreira gastrintestinal pode ser um risco. A exposição a produtos não-estéreis, incluindo água, pode ser fator de risco para desenvolvimento de infecções. Além disso, não é aconselhada a utilização da água para preparação ou administração de medicamentos, mas sim, soluções salinas.

5. Existe uma regra básica para o tempo de duração no uso da dieta? Se não, quais as variáveis?
O suporte nutricional perioperatório pode ser benéfico em pacientes com câncer que apresentam desnutrição moderada ou grave se administrado por 7 a 14 dias antes da cirurgia, desde que isso não provoque alterações ou atraso na cirurgia.

6. Como associar o uso de medicação com a dieta enteral 
Não administrar o medicamento diretamente à formula enteral e não misturar medicamentos na sonda enteral. Essa ação pode aumentar riscos de incompatibilidade química, obstrução da sonda e resposta alterada ao medicamento. Deve-se, portanto, diluí-los apropriadamente antes da administração. Cada medicamento deve ser administrado separadamente. As cápsulas podem ser diluídas com água estéril.

7. Quais os cuidados antes e após a administração do medicamento nestes casos?
Antes de administrar o medicamento, pare a sonda e limpe com pelo menos 15 ml de água. Dilua o medicamento (sólido ou liquido) como apropriado e administre usando uma seringa de aproximadamente 30 ml. Lave a sonda novamente com pelo menos 15 ml de água. A diluição deve ser menor em pacientes pediátricos (mínimo 50:50 volume) e a lavagem deve ser feita com pelo menos 5 ml quando há restrição para fluidos. Reiniciar a alimentação assim que possível para evitar comprometimento do estado nutricional. Intervalos maiores que 30 minutos devem acontecer somente se houver possibilidade de alteração na biodisponibilidade do medicamento. É indicada a participação do farmacêutico na decisão sobre administração de medicamentos junto com a nutrição enteral.

8. Em que casos o suporte nutricional é indicado para pacientes em tratamento quimioterápico?
O suporte nutricional não deve ser utilizado rotineiramente como adjuvante à quimioterapia e/ou radioterapia pélvica, abdominal ou de cabeça e pescoço. No entanto, a terapia nutricional pode ser benéfica quando o paciente desnutrido em tratamento anticâncer é incapaz de ingerir ou absorver os nutrientes adequados por período de tempo prolongado.

9. Como e por quem deve ser feito o monitoramento?
Pela equipe multidisciplinar, especialmente pelos técnicos de enfermagem e enfermeiros.

10. Antigamente, a dieta no pré-operatório era indicada apenas a pacientes desnutridos, agora deve ser feita independentemente do estado nutricional. Quem poderia ser prejudicado com isso, segundo as orientações anteriores, e quais os principais benefícios que estes pacientes terão a partir de agora?
De acordo com os guidelines publicados pela ASPEN, os pacientes que mais se beneficiam do suporte nutricional continuam sendo os desnutridos, especialmente naqueles submetidos a cirurgias de grande porte.

Confira nos arquivos abaixo algumas das principais alterações propostas pela ASPEN e os respectivos níveis de recomendação e evidências para a terapia nutricional:

Assine nossa newsletter: