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Distúrbios psicológicos e obesidade

Postado em 17 de abril de 2009

Mais do que uma doença, a obesidade pode ser consequência, ou muitas vezes a causa de problemas psicológicos variados

A obesidade já é considerada uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como por médicos e demais profissionais da área da saúde. O acúmulo de tecido gorduroso no organismo pode ser diagnosticado de diversas formas, que revelam os riscos e prejuízos à saúde.

Para esclarecer melhor este tema e explicar os riscos que estes pacientes correm também no âmbito emocional, entrevistamos o psiquiatra Arthur Kaufman, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Programa de Atendimento ao Obeso (Prato) do Instituto de Psiquiatra do Hospital das Clínicas. Confira:

 

1. Qual a relação entre obesidade e distúrbios psicológicos?
Existem duas relações principais: uma de quem já tem excesso de peso corporal e tem distúrbios psicológicos por isso; e outra de quem não tem excesso de peso mas, devido a distúrbios psicológicos, fica com o peso excessivo. Quem já está acima do peso ideal, tem distúrbios porque se sente fora do padrão, rejeitado, principalmente se for adolescente ou criança, porque é discriminado, ridicularizado, muitas vezes recebe apelidos e é chamado de gordinho. Já no segundo caso, o indivíduo fica acima do peso por algum distúrbio psicológico, como uma ansiedade compulsiva, que o leva a comer. O problema é que nestes casos, o paciente não vai comer uma salada, porém massas, doces e outros alimentos extremamente calóricos.

2. Quais os principais indícios de que o paciente obeso precisa de acompanhamento psicológico?
Basicamente quando ele está deprimido, ou se retrai e não sai de casa de jeito nenhum, rejeitando convites de amigos. Com meninas é mais comum. As amigas chamam para sair e ela fica em casa, achando que todos vão ficar reparando. Ou não vai à praia porque acha que todas as pessoas vão parar para olhar suas “gordurinhas”.

3. Como a psicoterapia pode ajudar o paciente obeso e quais os benefícios no processo de emagrecimento?
Trabalho com a psicodinâmica e afirmo que todas as psicoterapias funcionam desde que o profissional seja competente e tenha um bom relacionamento com o paciente, pois este necessita se sentir à vontade para falar sobre seu problema sem se sentir julgado ou condenado.

4. É possível afirmar que o insucesso no emagrecimento, e também o famoso ‘efeito sanfona’, podem ser resultado inclusive da falta de acompanhamento psicológico?
Sim, é possível. A falta de acompanhamento psicológico é um dos principais responsáveis pelo efeito sanfona. Deve haver, é claro, cuidado redobrado com a alimentação e também com a atividade física logo após atingir o peso ideal.

5. Em um tratamento multidisciplinar para a obesidade, que profissionais podem ser requisitados?
Sugerimos um psicoterapeuta, que normalmente é médico psiquiatra ou psicólogo; uma nutricionista e um professor de educação física.

6. Medos, frustrações, problemas no convívio social ou o mau exemplo de pais e familiares podem levar a criança à obesidade? Em que proporção o senhor acredita que isto aconteça?
Nem tanto os medos, frustrações ou problemas no convívio social, mas o mau exemplo dado pelos pais e familiares, principalmente na área da alimentação. É só você entrar em um restaurante qualquer, hoje em dia, e você observa o que os pais fazem com os filhos. Não só comem alimentos prejudiciais à saúde na frente das crianças, mas incentivam-nas a comer. Um dia eu estava em um shopping e vi um pai sair de um fast food com uma caixa de nuggets e refrigerante. O filho, no carrinho, era praticamente um bebê, mas ainda assim recebeu deste pai batatas fritas, nuggets e refrigerante. Os pais são os principais responsáveis pelo excesso de peso dessas crianças. Se a criança não tiver nenhuma doença que a faça engordar e, no geral, não tem, quem a está tornando gorda são os pais que, em primeiro lugar, acham que qualquer desconforto deve ser resolvido com comida. Há ainda os que premiam quando a criança come, ou a castigam quando não come.

7. Que sugestão o senhor daria a esses pais?
Eu sugiro o filme Super Size Me (A dieta do palhaço), que conta a história de um homem que fez uma aposta com os amigos e passou um mês se alimentando exclusivamente no Mc Donald’s. Paralelamente ele realizou diversos exames laboratoriais para monitorar os efeitos desta dieta em sua saúde. Até que o médico que o acompanhava alertou: Ou você para com isso, ou você morre.

8. Há particularidades no tratamento psicológico para a obesidade infantil? A partir de que idade ele pode ser indicado?
Deve-se fazer o acompanhamento dos pais juntamente, pois não dá para tratar a obesidade infantil sem orientar os pais. Quando houver antecedentes de obesidade ou diabetes na família, deve-se, inicialmente, indicar aos pais um acompanhamento nutricional para que saibam o que devem priorizar e/ou evitar na alimentação das crianças, antes de pensar em qualquer tratamento psicológico. Só é indicado o tratamento psicológico infantil se a criança já for gordinha ou tiver uma fome fora do comum.

9. Nos casos em que há indicação de cirurgia bariátrica, como deve ser o acompanhamento psicológico? Quanto tempo antes do procedimento o acompanhamento deve começar e por quanto tempo deve se estender?
Cada caso tem sua particularidade. A indicação é que qualquer pessoa que será submetida à cirurgia bariátrica comece um tratamento psicológico e continue no pós-operatório, pois não é fácil. Normalmente, são pessoas que comiam a qualquer sinal de nervosismo, mas agora não podem fazê-lo porque passam mal, ficam como se estivessem entupidas. Esse acompanhamento deve ser começado assim que o paciente resolver que vai fazer a cirurgia e deve continuar após a cirurgia pelo tempo necessário à sua total recuperação.

10. Por que este acompanhamento se faz tão necessário?
Por que a pessoa deve aprender outras formas de descarregar suas ansiedades sem ser comendo. Enquanto ela continuar descarregando na comida, não conseguirá se libertar da compulsão.

11. Quais os riscos de abandonar o tratamento após a cirurgia, ao primeiro sinal de emagrecimento?
Muita gente desiste por não querer gastar dinheiro, ou por achar que não há necessidade. Os riscos são de voltar a apresentar os mesmos distúrbios psicológicos, medos, complexos e frustrações, que novamente serão descontados na comida, fazendo com que o paciente engorde novamente e se retraia em função do sobrepeso.

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