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Fome oculta: um alerta para a falta de micronutrientes e sais minerais

Postado em 26 de fevereiro de 2008

Em entrevista exclusiva, o pediatra e nutrólogo dr. Mauro Fisberg, professor do Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da Universidade Federal de São Paulo, esclarece os principais aspectos da fome oculta e suas características no Brasil. Confira!

O que é fome oculta?
A chamada fome oculta é a carência nutricional de micronutrientes e/ou sais minerais, como vitaminas, ferro, zinco, cobre, selênio ou molibdênio. Ao contrário da desnutrição, que atinge especialmente a população carente, a fome oculta está presente em qualquer população, de qualquer faixa etária ou classe social.

Como os profissionais de saúde podem identificar a fome oculta?
A principal característica da doença é a dificuldade de diagnóstico e a ausência de sinais específicos em grande parte dos casos. Ela não é visível clinicamente como a desnutrição e pode ter diferentes causas, com distintas formas de tratamento.

Há um perfil de indivíduos mais suscetíveis?
É difícil estabelecer este perfil, pois embora a má alimentação seja a causa mais freqüente, nem sempre ocorre por falta de recursos econômicos, como é o caso da desnutrição. Modismos, costumes religiosos ou padrão social podem levar à carência, assim como absorção inadequada de alimentos fontes de nutrientes, conseqüência de alterações intestinal, genética ou do trato gastrintestinal, bem como de diarréia crônica, tuberculose ou outras doenças.

Quais as principais deficiências nutricionais encontradas no Brasil?
A deficiência mais comum da fome oculta não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, é a anemia. A anemia carencial por deficiência de ferro é uma doença multicêntrica, que afeta praticamente todos os povos do planeta, em todos os níveis sociais, atingindo mais de 50% das crianças pequenas nos países em desenvolvimento, como o Brasil. As carências de outros metais e vitaminas são menos freqüentes, mas nem por isso menos importantes. Deficiência de zinco, metal que entra em quase todo o nosso metabolismo, interfere no crescimento, no sistema imunológico, e prejudica a memória. A falta de cálcio pela reduzida ingestão de leite e derivados, leva a osteopenia, osteoporose e mortalidade aumentada.

Quais atitudes devem ser tomadas para a prevenção dessa deficiência?
Alimentação adequada desde o princípio da vida é a melhor forma de prevenção da fome oculta. É claro que antecedentes familiares e pré-natais influenciam, mas a dieta equilibrada, incluindo alimentação prolongada de leite materno, previne grande parte dos casos. A prevenção é de suma importância, visto que nem toda fome oculta é diagnosticável em fase funcional. Embora já existam exames laboratoriais capazes de detectar algumas deficiências, a carência de complexo B, por exemplo, só é diagnosticada a partir do aparecimento de sinais clínicos.

Como tratá-la?
Uma vez diagnosticado o problema, o tratamento varia conforme o caso. Em muitos deles, a reeducação alimentar é suficiente. Suplementos e outras vitaminas também podem ser indicados para garantir a ingestão necessária. Hoje em dia, no entanto, a suplementação também vem sendo adotada rotineiramente, de maneira preventiva. O ferro, por exemplo, é indicado para a criança em desmame até o segundo ano de vida, seja sob a forma de vitamina, alimentos enriquecidos ou remédios.

Que outros casos de suplementação preventiva vem sendo adotados?
No primeiro ano de vida dos lactentes também são indicadas doses extras de vitamina A e D. Gestantes e lactantes requerem ainda cuidados especiais, pois só a alimentação quase nunca é suficiente. Ferro, vitaminas, acido fólico são algumas das carências mais freqüentes. Atletas, vítimas da correria do dia-a-dia das grandes cidades, tabagistas e mulheres que fazem uso de anticoncepcionais são vítimas freqüentes do problema e devem procurar orientação para prevenir ou corrigir possíveis deficiências.

Há políticas de saúde pública eficientes no combate a fome oculta?
Políticas públicas de saúde vêm conseguindo extinguir, ou pelo menos reduzir drasticamente, alguns problemas. É o caso da carência por iodo, que no Brasil praticamente inexiste em função da suplementação do sal, vendido em todo o território nacional sob a forma iodada. Outra política pública eficiente no país é a recente fortificação da farinha com ferro. Também na farinha vem sendo adicionado ácido fólico, como forma de prevenção de malformações do sistema nervoso central do feto no início da gestação.

O que ainda pode melhorar, na opinião do senhor?
Ainda falta muito nesta área. Um exemplo é a carência de vitamina A, que provoca milhares de novos casos de cegueira em todo o mundo anualmente, inclusive no Brasil. Por sua ação no sistema auto-imune, é também de suma importância para a prevenção de doenças infecciosas, diarréia e doenças respiratórias.

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