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Fernanda Baeza Scagliusi, coordenadora da equipe de nutricionistas do Ambulim

Postado em 23 de fevereiro de 2006

Entrevista da coordenadora da equipe de nutricionistas do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo, Fernanda Baeza Scagliusi, a equipe do Nutritotal, em 16-02-06.

Nutritotal – Como as pacientes se comportam quando questionadas a respeito dos sites “pró-anna” e “pró-mia”? Elas confessam ou mencionam espontaneamente que os acessam?
Fernanda – Muitas pacientes contam que acessam esses sites, quando se sentem à vontade para tanto. Certamente, se a paciente ainda não está familiarizada com a equipe, ela relutará em contar.

N – Qual a porcentagem, aproximada, de pacientes que usam esses sites?
F – Não saberia um número. Muitas pacientes, creio que a maioria, utilizam a internet para lidar com o transtorno alimentar, mas nem sempre por meio desses sites. Precisamos ter cuidado para não rotular qualquer uso da internet ligado ao transtorno alimentar como “pró-anna” ou “mia”. A maioria das pacientes possui blogs nos quais escrevem sobre suas vidas e seus transtornos alimentares. Esses blogs podem ser lidos por qualquer um e geralmente são freqüentados por outras pessoas com transtornos alimentares, que deixam mensagens de apoio (tanto de apoio à doença quanto de apoio à recuperação). Tais blogs não são, portanto, necessariamente “pró-anna” ou “mia”.

N – Por que os pacientes se sentem mais à vontade com a ajuda oferecida pelas “amigas dos sites” do que com os profissionais da saúde?
F – Porque a colega do site não irá julgá-la e nem tentará mudar o comportamento da paciente. O profissional de saúde, por sua vez, trabalha para promover uma mudança de comportamento. Muitas vezes, o profissional tem que desafiar e confrontar uma crença do paciente, o que é sempre dolorido para o paciente, e nunca isto é feito por uma colega de site. Além disso, há uma identificação entre duas pessoas que têm o mesmo tipo de problema; elas sabem o que a outra sente, pensa e faz. Um profissional de saúde sempre terá o “olho” de quem está de fora, por mais empático que ele seja. As trocas nesses sites fazem com que a paciente sinta que adquiriu um grupo, que pertence a uma comunidade, ainda que seja uma comunidade não-saudável.

N – O que os profissionais da saúde podem fazer a respeito desses sites pró-anorexia?
F – Em primeiro lugar, acolher as pacientes que criam e/ou usam tais sites, em vez de tratá-las como “criminosas”. Nós devemos tentar entender por que uma paciente cria/usa sites desse tipo. Será que esta paciente sempre se sentiu excluída socialmente e no site ela se sente pertencente a um grupo? Será que esta paciente tem um fraco senso de identidade e no site ela consegue se identificar? Se uma dessas questões for verdadeira, a necessidade da paciente (inclusão, identidade) deve ser trabalhada e não o comportamento em si (usar ou não o site). Em segundo lugar, podemos questionar as práticas que são apresentadas neste site. Podemos, por exemplo, fornecer evidências científicas da ineficiência da dieta do abacaxi ou dos laxantes.

N – Como manter o bom tratamento frente aos aconselhamentos inadequados desses sites, como o uso de laxantes para emagrecer e de medicamentos como os moduladores do apetite?
F – A resposta a essa pergunta está ligada à resposta anterior. Refuto a idéia de que os conselhos dos sites são algo externo à doença. Eles são parte da doença e devem ser tratados. Toda vez que um profissional entrar em um “braço de ferro” com uma paciente para provar que ele é o “certo”, e não o site, os dois lados (profissional e paciente) sairão perdendo. O paciente poderá deixar de confiar no profissional, de se sentir à vontade com ele. Acredito que o profissional deva entender por que o paciente usa estes sites, trabalhar esses motivos e fornecer informações científicas sobre os conselhos dos sites, mas de maneira colaborativa e não impositiva. Também acho que é inútil reclamarmos que o site aconselha o uso de anfetaminas se não reclamarmos, frente às autoridades competentes, que é muito fácil comprar anfetaminas! Não podemos colocar o site como único “vilão” de um sistema que está completamente comprometido.

N – O que os pacientes que já passaram por essa experiência relatam a respeito dos sites?
F – Os relatos são diversos. Vários pacientes dizem que, à medida em que seus recursos psicológicos foram aumentando, o site perdeu o sentido. Outros pacientes ainda não chegaram nesse ponto e vivem uma “vida paralela” nestes sites. Tive uma paciente com quem era quase impossível conversar durante a consulta, pois ela era extremamente quieta e retraída. Na escola, seu comportamento também é assim e ela sempre foi uma pessoa excluída. No Orkut, por sua vez, ela é extremamente articulada e popular, ao falar do seu sofrimento.

N – Qual o maior prejuízo que esses sites podem trazer?
F – Quero reafirmar minha visão de que o uso/criação desses sites é mais um sintoma da doença e não a sua causa. Assim, não considero que o principal prejuízo seja o aprendizado de técnicas perigosas de emagrecimento, pois estas são muito mais aprendidas na família e na mídia convencional. Creio que o principal prejuízo esteja exemplificado na resposta da pergunta anterior, sobre a paciente que adquiriu uma vida paralela e virtual por causa da doença. Ela se tornou “alguém”, pelo menos na internet, por causa da doença. Como ela vai querer/poder abrir mão da doença dessa forma, se a vivência da doença na internet deu a ela tudo que ela jamais teve: a sensação de ser pertencente, a inclusão social, a identidade?

N – O prejuízo do uso desses sites é maior no caso da anorexia ou para a bulimia?
F – Creio que pode existir prejuízo para os dois casos. Entretanto, de forma geral, a pessoa com anorexia nervosa tende a sentir mais “orgulho” de seus sintomas, já que ela “consegue” fazer uma restrição alimentar intensa durante maior parte do tempo e manter um peso muito baixo. Por isso, o comportamento anoréxico é elogiado nesses sites e isso pode servir de reforço para a doença.

N – Na sua opinião, algum organismo oficial deveria interferir na publicação desse material na internet?
F – Gostaria de me deter um pouco mais nessa questão. Eu não acho que algum organismo oficial deveria interferir nesta questão e gostaria de explicar detalhadamente o porquê. Temos uma tendência de olhar para esses sites e ver algo “doentio, ilógico e até louco”. Nós pensamos: como alguém pode aconselhar estas barbaridades? Eu também pensava assim, até o dia que entrei num desses sites e vi o seguinte: havia uma tabela de classificação das faixas de índice de massa corporal (IMC). A tabela dizia algo assim: “IMC de 25 a 29,9: sua baleia, você merece morrer”; “IMC de 20 a 24,9: sua porca gorda, feche essa boca!”, “IMC de 18,5 a 19,9: você acha que está magra, não está não, pode malhar mais”; “IMC de 16 a 18,4: você está quase chegando lá”, “IMC menor que 16: você está perfeita”. Eu estava horrorizada até este momento da leitura, como o leitor deve estar agora. Até que eu segui lendo: havia uma lista de todas as celebridades que consideramos “gordinhas”; todas tinham IMC entre 20 e 24,9. Havia também uma lista com os valores de IMC das modelos mais famosas. Todas tinham IMC até, no máximo, 18 kg/m2. Foi aí que eu entendi que esses sites não são algo alheio a nós; esses sites são uma reflexão aumentada e “escancarada” (portanto, mais honesta) da nossa sociedade. Irei citar mais dois exemplos. Em academias e consultórios de nutrição, muitos nutricionistas prescrevem dietas hipocalóricas para pacientes com IMC normal, alegando que elas não têm excesso de peso, mas têm uma “barriguinha” ou uma “gordurinha” que querem/podem perder. A frase “IMC de 20 a 24,9: sua porca gorda, feche essa boca!” é apenas um reflexo, exagerado e exponenciado, disso. Um outro exemplo seria uma frase dita por uma famosa, bela e magérrima atriz em 2004: “Eu me mataria se fosse gorda como a Marilyn Monrore”. É ou não é parecido com “IMC de 25 a 29,9: sua baleia, você merece morrer”? Acredito que nós nos indignamos tanto com estes sites porque eles fazem com que seja visto, de forma brutal, o que a nossa sociedade pensa. Nós agimos com indignação porque é mais fácil recriminá-los do que criticar e mudar nossos valores sociais e culturais. Por isso, acho que a saída não é censurar tais sites e sim mudar a sociedade.

N – Suas opiniões refletem a visão de toda a equipe do Ambulim?
F – Sou nutricionista no Ambulim e coordeno a equipe de nutricionistas do ambulatório da bulimia nervosa. As minhas respostas refletem as minhas opiniões pessoais e podem não refletir a opinião de todas as nutricionistas do Ambulim. Portanto, caso os leitores do Nutritotal queiram conhecer outras opiniões, devem enviar mensagens para o portal para que os outros integrantes (Marle Alvarenga, Maria Aparecida Larino e Patricia Belluzo) respondam.

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