fbpx


GLUTAMINA X ESTADO CATABÓLICO Qual o real papel da suplementação de glutamina em estados catabólicos?

Postado em 7 de maio de 2002

Effects of glutamine-supplemented total parenteral nutrition on cytokine production and T cell population is septic rats. Yeh SL, Yeh CL, Lin MT, Lo PN, Chen WJ. JPEN J Parenter Enteral Nutr 2001; 25(5): 269-74.

Ratos machos Wistar foram divididos em 2 grupos e receberam solução de nutrição parenteral total (NPT) isonitrogenada e isocalórica de 270 kcal/kg de peso corpóreo; as soluções eram idênticas na composição de nutrientes, exceto no conteúdo de aminoácidos: um grupo recebeu 2% glutamina (GLN) enquanto o outro grupo recebeu glicina (Gly). NPT foi mantida por 5 dias, após o qual foi induzida sepse por ligadura cecal e punctura (CLP). Os ratos foram sacrificados 2, 4, 6 e 24 horas após CLP. O grupo que recebeu GLN teve menor perda de nitrogênio do que o grupo que recebeu Gly. No entanto, não houve diferença na produção de mediadores inflamatórios (IL-1, IL-2, IL-6, IFN-gama) e a razão CD4+/CD8+ foi maior no grupo GLN apenas 4 horas após CLP, não sendo observada nenhuma diferença 24 horas após CLP. Em conclusão, a administração prévia de GLN em ratos sépticos teve um efeito benéfico em diminuir o balanço nitrogenado negativo, mas não reduziu a produção sistêmica de mediadores inflamatórios e sua influência em melhorar a imunidade celular não ficou claramente evidente.

The impact of alanyl-glutamine on clinical safety, nitrogen balance, intestinal permeability, and clinical outcome in postoperative patients: a randomized, double-blind, controlled study of 120 patients. Jian ZM, Cao JD, Zhu XG, Zhao WX, Yu JC, Ma EL, Wang XR, Zhu MW, Shu H, Liu YW. JPEN J Parenter Enteral Nutr 1999; 23(5 Suppl): S62-6.

Estudo randomizado, duplo-cego e controlado, no qual 120 pacientes submetidos a grandes cirurgias abdominais foram divididos em dois grupos. Ambos receberam NPT isonitrogenada (0,20 g/kg/dia) e isocalórica (30 kcal/kg/dia), mas o grupo de estudo recebeu alanil-glutamina (Ala-Gln) 0,50 g/kg/dia. Os grupos de pacientes eram semelhantes antes da operação. Foram monitorados variáveis bioquímicas plasmáticas, perfil de aminoácidos plasmático, balanço nitrogenado, permeabilidade intestinal (razão lactulose/manitol [razão L/M]), dias de internação hospitalar e taxa de infecção. A razão L/M aumentou significativamente mais no grupo controle do que no grupo Ala-Gln e a perda de nitrogênio cumulativa em seis dias foi muito menor no grupo Ala-Gln. O grupo Ala-Gln permaneceu internado em média quatro dias a menos do que o grupo controle. Em conclusão, a administração parenteral de alanil-glutamina em pacientes em pós-operatório de cirurgia abdominal manteve a permeabilidade intestinal, diminuiu a perda de nitrogênio e possibilitou uma alta mais precoce.

Glutamine supplementation for prevention of morbidity in preterm infants (Cochrane Review). Tubman TR, Thompson SW. Cochrane Database Syst Rev 2001; 4:CD001457.

Revisão sistemática da literatura para determinar os efeitos da suplementação de glutamina na morbidade e ganho de peso em recém-nascidos pré-termo. Foram selecionados estudos randomizados e controlados comparando suplementação de glutamina com não-suplementação em neonatos pré-termo em qualquer tempo, desde o nascimento até a alta hospitalar. Não foram encontradas diferenças significativas entre neonatos que receberam suplementação com glutamina e neonatos sem suplementação quanto a taxa de hemoculturas positivas, tempo até a nutrição enteral completa, taxa de ganho de peso e dias de internação hospitalar. Em conclusão, não há dados de estudos randomizados que suportem o uso de suplementação de glutamina em neonatos pré-termos.

COMENTÁRIOS

Glutamina é um aminoácido não-essencial que poderia ser reclassificado como condicionalmente essencial no estado catabólico, pois o gasto corpóreo de glutamina nestes casos excede sua síntese e níveis plasmáticos baixos de glutamina estão associados com pior resultado clínico. Em estados catabólicos, vários aminoácidos são mobilizados do tecido muscular para suprir as necessidades do organismo. Glutamina é o principal aminoácido a ter esta função, agindo como o principal combustível respiratório em células de divisão rápida, como linfócitos, hepatócitos e células da mucosa intestinal.

Foi proposto que glutamina seria essencial na manutenção da morfologia e função intestinais na ausência de nutrientes no lúmen do intestino. No entanto, não está claro se glutamina é necessária para a manutenção destas funções em humanos durante NPT. Os artigos acima revistos mostram que, enquanto glutamina pode ser benéfica para algumas funções, como reduzir o balanço nitrogenado negativo que ocorre na sepse, pode não ter efeito em outras funções, como aumentar a imunidade celular ou diminuir a produção de mediadores inflamatórios.

Enquanto no grupo de pacientes submetidos a cirurgia abdominal, estudado por Jian et al., a suplementação com glutamina mostrou benefícios ao diminuir o tempo de internação, no esudo do Instituto Cochrane com neonatos pré-termo não houve diferença significativa nos resultados clínicos com a administração de glutamina. Podemos então concluir que pode ser temerário extrapolar dados de estudos com glutamina realizados em animais para humanos, ou mesmo extrapolar dados de estudos realizados com um certo grupo de pacientes para outro grupo. Recomenda-se a utilização de glutamina apenas nas condições em que exista comprovado benefício, obtido através de estudos randomizados, duplo-cego e controlados.

Por: Dr. Mauricio S. Galizia
Médico, graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP

Assine nossa newsletter: