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HC inclui triagem na rotina do ambulatório

Postado em 15 de dezembro de 2006 | Autor: Fernanda Danelon

Quem chega hoje ao ambulatório do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) tem que responder a um questionário sobre sua alimentação. Desde outubro, os 4 mil pacientes atendidos diariamente no Instituto Central, o maior centro do complexo HC-FMUSP, passam por uma triagem nutricional. A iniciativa tem como objetivo avaliar os índices de risco nutricional no maior hospital da América Latina. A decisão de se passar a realizar triagem nutricional de rotina em todos os pacientes do ambulatório é inédita em hospitais públicos universitários do Brasil. O hospital espera, com a medida, poder atuar para reduzir os índices de desnutrição hospitalar, melhorando o atendimento e reduzindo os custos.

A triagem nutricional foi incluída na admissão dos doentes após a constatação de elevados índices de desnutrição em pacientes internados, como decorrência da própria doença e/ou condições socioeconômicas. Os números alarmantes sensibilizaram a direção do hospital, que realizou, em 10 de outubro, a “Campanha para Triagem Nutricional no ICHC”. Nesse dia, foram avaliados 562 pacientes internados e pôde-se constatar que quase a metade deles (49,2%) está em risco nutricional.

O Dia “D”

A incidência da desnutrição nos hospitais públicos já havia sido identificada pelo Ibranutri (Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional Hospitalar), que apontou 48,1% de desnutridos entre os 4 mil doentes internados avaliados. Posteriormente, o Elan (Estudo de Nutrição na América Latina), organizado pela Felanpe (Federação Latino Americana de Nutrição Enteral e Parenteral) estendeu a pesquisa para 13 países latinoamericanos e encontrou 50,2% de pacientes internados com desnutrição. “Diante desses resultados, consideramos essencial aperfeiçoar a metodologia e introduzir indicadores dos riscos de desnutrição no ICHC”, conta Maria Carolina Gonçalves Dias, nutricionista-chefe do HC-FMUSP. “A desnutrição tem preço alto para o hospital. Ela dobra o tempo de internação e aumenta o consumo de antibióticos”, completa Dr. Waldemir Rezende, diretor-executivo do Instituto Central.

Para realizar a campanha, foram treinados 60 profissionais das equipes de enfermagem, nutrição, farmácia e nutrologia. No dia “D”, a equipe percorreu as enfermarias do Instituto Central e aplicou o questionário de triagem nutricional em todos os pacientes internados (952), exceto os de idade inferior a 18 anos; gestantes (42); pacientes em cirurgia (109) e sem condições de responder (11). Assim, foram avaliados 59% dos pacientes internados naquele dia. Deste total (562), 277 estavam em risco nutricional. Ou seja, 49,2% dos pacientes avaliados dentro do critério de inclusão apresentaram algum déficit nutricional.

A técnica utilizada para realizar a triagem nutricional foi adaptada de método proposto por Kondrup et. al. 2003 (NRS 2002), na qual, através de um questionário, verificam-se as alterações do indice de massa corpórea (IMC) — < 20,5 kg/m2 —, perda de peso não-intencional nos últimos três meses, redução na ingestão alimentar e fator estresse da doença. Esse método de triagem nutricional é o proposto desde 2002 pela Espen (European Society for Parenteral and Enteral Nutrition).

Serviço Pioneiro

A decisão do ICHC de se incluir a triagem nutricional em todos os pacientes do ambulatório é inédita no serviço público de caráter universitário do país. Para se implantar a avaliação na rotina do hospital, foi preciso orientar todos os funcionários da atenção direta (enfermagem, serviço social, médicos, intensivistas, infectologistas-CCIH, fisioterapeutas, fonoaudiologistas, residentes, estagiários etc.); além de sensibilizar aqueles da atenção indireta (escriturários, oficiais administrativos, administradores de área), incluindo-se pacientes e familiares.  “A vigilância para esse problema de saúde pública deverá contribuir para a melhora dos indicadores de assistência médica, como redução na média de permanência e menores índices de infecção hospitalar; aumentando a eficiência do sistema, reduzindo os custos da internação e permitindo economia de recursos para investimentos em melhores condições de trabalho, equipamentos etc.”, observa Dr. Rezende.  

O treinamento das equipes foi realizado pelas nutricionistas do HC, com apoio do nutrologista Prof. Dr. Dan Waitzberg, coordenador clínico da Equipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional (EMTN) do hospital.  Na fase atual, já no ato da matrícula, os pacientes são encaminhados para as respectivas nutricionistas dos ambulatórios nos quais serão tratados. Os casos mais graves são imediatamente incluídos no Programa de Nutrição Enteral, principalmente quando se trata de pré-operatório. Além disso, a avaliação nutricional já está sendo implantada também na unidade de internação.

Para 2007, a direção do ICHC espera estabelecer parcerias com secretarias de saúde e, eventualmente, Organizações Não Governamentais (ONGs). Assim, será possível proporcionar melhores condições de alimentação, com orientação nutricional compatível à realidade do paciente e até fornecimento de cestas básicas, suplementos nutricionais ou polivitamínicos, muitas vezes disponíveis em Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Para isso, a seção de arquivo médico do hospital está identificando os pacientes pelo local de residência, fazendo um mapeamento da desnutrição entre os pacientes do ICHC para definir essas possíveis parcerias.

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