fbpx

HORMÔNIO DE CRESCIMENTO E GLUTAMINA X SÍNTESE PROTÉICA O hormônio de crescimento e glutamina parenteral aumentam a síntese protéica?

Postado em 20 de fevereiro de 2002

Effect of growth hormone on muscle and liver protein synthesis in septic rats receiving glutamine-enriched parenteral nutrition. O’Leary MJ, Ferguson CN, Rennie M, Hinds CJ, Coakley JH, Preedy VR. Crit Care Med 2002; 30(5): 1099-105.

OBJETIVO: examinar os efeitos do hormônio do crescimento humano recombinante (HChr) nos níveis plasmáticos de glutamina, concentrações de glutamina muscular e hepática e taxa de síntese protéica em ratos com sepse. Investigar se a possibilidade de administração de glutamina suplementar pode reduzir os efeitos adversos do HChr. TIPO DE ESTUDO: prospectivo. MÉTODO: foram estudados 78 ratos Wistar machos com sepse induzida por ligadura e punção do ceco foram divididos em seis grupos. Os animais receberam infusão venosa durante seis horas, com início após 18h do trauma. As soluções continham: 1) cloreto de sódio a 0,9%; 2) nutrição parenteral (NP) padrão sem glutamina ou 3) NP isocalórica, isonitrogenada com glutamina. Os grupos NP receberam 400 µg de HChr ou volume equivalente de cloreto de sódio a 0,9% divididos em doses subcutâneas ou intravenosas. Os ratos foram sacrificados no final do período de infusão. Outro grupo não foi operado, nem recebeu infusão e, também, foi sacrificado após 24 horas. As concentrações de glutamina foram mensuradas por fluorimetria. A síntese protéica muscular e hepática foi mensurada por meio de técnica cinética com L-[4H] fenilalanina. RESULTADOS: glutamina plasmática aumentou após ligadura, exceto nos ratos que receberam solução salina, glutamina e HChr. A glutamina muscular sofreu redução após ligadura e punção do ceco e foi significativamente menor no grupo que recebeu NP padrão com HChr contra o grupo que recebeu solução salina. A glutamina hepática aumentou no grupo que recebeu solução salina e NP padrão com HChr. Nutrição parenteral com ou sem glutamina, aumentou a síntese protéica muscular e, com administração de HChr, a tendência foi de tornar esse aumento ainda mais evidente. NP, glutamina e HChr não apresentaram efeito no aumento da síntese protéica do fígado característica da sepse. CONCLUSÕES: na sepse, aumento da síntese protéica muscular com administração de NP e HChr não foi associado com aumento dos níveis de glutamina muscular. Administração de HChr não resultou em redução dos níveis de glutamina do fígado ou taxas de síntese protéica hepática. NP com glutamina foi mais eficaz que NP padrão no aumento da síntese protéica muscular.

Growth hormone together with glutamine-containing total parenteral nutrition maintains muscle glutamine levels in a less negative nitrogen balance after surgical trauma. Hammarqvist F, Sandgren A, Andersson K, Essen P, McNurlan MA, Garlick PJ, Wernerman J. Surgery 2001; 129(5): 576-86.

OBJETIVO: estudar os efeitos da combinação do hormônio de crescimento (GH) e glutamina no aumento da síntese protéica muscular e balanço nitrogenado. TIPO DE ESTUDO: clínico, randomizado e controlado. MÉTODO: foram estudados 16 pacientes submetidos a cirurgia abdominal que receberam nutrição parenteral (NP) contendo glutamina (GLN) ou GLN e GH durante três dias de pós-operatório. Foram mensurados a concentração de aminoácidos e síntese protéica muscular e balanço nitrogenado. RESULTADOS: NP com GLN e HC reduziu significativamente a perda de nitrogênio quando comparado com NP apenas com GLN. NP com GLN e HC manteve os níveis de glutamina muscular no pré-operatório quando comparado com o declínio de 47,5% +/- 6,3% do grupo NP com GLN. Foi observada redução similar na taxa de síntese de proteína muscular no pós-operatório em ambos grupos. CONCLUSÕES: GH e GLN apresentaram efeito aditivo no metabolismo de aminoácidos muscular e evitando redução das concentrações de GLN no músculo esquelético e diminuindo a perda do nitrogênio total corporal. No entanto a melhora das concentrações de aminoácidos musculares e da perda de nitrogênio não foram associados com diferença, entre os grupos, na síntese de proteínas musculares no pós-operatório.

Combination of recombinant human growth hormone and glutamine-enriched total parenteral nutrition to surgical patients: effects on circulating amino acids. Kolstad O, Jenssen TG, Ingebretsen OC, Vinnars E, Revhaug A. Clin Nutr 2001; 20(6): 503-10.

OBJETIVO: avaliar os efeitos aditivos do hormônio de crescimento recombinante (HCr) e glutamina (GLN) em aminoácidos plasmáticos no período pós-operatório. MÉTODO: 31 pacientes do sexo feminino submetido a colecistectomia laparoscópica foram randomizadas em 3 grupos. Grupo I (n = 10) recebeu 13 UI/m de HCr no período da manhã do dia da cirurgia até o terceiro dia de pós-operatório, além de receber GLN livre na nutrição parenteral total (NPT) nos dois primeiros dias de pós-operatório. Grupo II (n = 11) recebeu HCr como o grupo I e NPT suplementada com GLN (7g de GLN/m(2)/dia). Grupo III (n = 10) recebeu NPT suplementada com GLN como o grupo II e placebo. Foram determinados as concentrações plasmáticas de aminoácidos e o balanço nitrogenado. RESULTADOS: concentração plasmática de vários aminoácidos estava reduzida no terceiro dia de pós-operatório dos grupos que receberam HCr quando comparado com o período pré-operatório, sendo que esta redução não foi observada no grupo III. No grupo II as diferenças arterio-venosas de aminoácidos tenderam a ser atenuar, enquanto que nos pacientes do grupo III ocorreu aumento da diferença artério-venosa . O balanço nitrogenado cumulativo foi significativamente melhor nos grupos tratados com HCr quando comparado com o grupo III. CONCLUSÕES: tratamento com hormônio de crescimento e glutamina apresentou efeitos aditivos no balanço AV de aminoácidos no período pós-operatório, apesar de que o balanço nitrogenado não melhorou quando foi adicionado glutamina ao tratamento com HCr.

COMENTÁRIOS

O uso de fatores de crescimento associado à oferta de aminoácidos, notadamente glutamina tem sido preconizado como alternativa para aumentar a síntese protéica em condições de estresse potencializando os efeitos isolados de ambas substâncias.

Os trabalhos originais de Wilmore em pacientes com síndrome do intestino curto (SIC) tratados por três meses com hormônio do crescimento (GH) e glutamina (Gln) apontaram maior acréscimo de nitrogênio corpóreo, à custa de aumento de massa magra. Byrne do mesmo grupo de Boston, publicou trabalhos indicando que com esse tratamento seria possível retirar pacientes de SIC de nutrição parenteral (NP) prolongada.

No entanto surgiram outros trabalhos que não conseguiram reproduzir os bons resultados clínicos descritos anteriormente. A edição atual de Newsletter Nutritotal traz as últimas contribuições para este tema.

O trabalho experimental de O’Leary e col., em ratos sépticos estuda a cinética da síntese protéica muscular e hepática em animais que recebem NP, GH recombinante e solução de Gln. Os autores observaram que a síntese hepática não se modificou em nenhum grupo, embora houvesse aumenta da síntese protéica muscular com a oferta de GH recombinante e Gln. Comprova também a importância de Gln como aminoácido transportador de nitrogênio (N) para o fígado em condições de estresse metabólico.

De seu lado o famoso grupo sueco de estudos metabólicos de Hammarqvist e col., descrevem em pacientes em pós-operatório que a adição de GH e Gln em NP, por 3 dias, foi capaz de aditivamente reduzir a perda de N urinário e da concentração muscular de Gln. Não houve entretanto, modificação da síntese protéica muscular com esta intervenção metabólica.

Por fim Kolstad e seus colaboradores estudaram o efeito de GH recombinante e Gln em pacientes submetidas a intervenção cirúrgica de pequeno/médio porte. Observaram a diferença artério-venosa do
aminoacidograma e o balanço nitrogenado. Nos pacientes sem GH houve maior diferença de aminoácidos, em particular com a adição de Gln, mas não aconteceu redução do balanço nitrogenado negativo neste período.

Observa-se que nos três trabalhos aqui apresentados foram descritos efeitos metabólicos relativos à cinética e ao interfluxo orgânico de aminoácidos. GH está relacionado à aumento de síntese protéica, inibição de neoglicogênese e lipólise. No entanto os efeitos metabólicos deflagrados pela resposta metabólica ao trauma, aparentemente não podem ser anulados, pelo menos em curto prazo, pelo uso de GH recombinante. A oferta de Gln, que é o aminoácido de maior circulação plasmática, pode reduzir a redução de sua concentração muscular, mas não necessariamente aumentar a síntese muscular protéica. Em condições de sepse a prioridade metabólica é a síntese de proteínas hepáticas (proteínas de fase aguda), mas não se demonstrou experimentalmente efeito suplementar com o uso de GH e Gln.

Estes resultados não suportam o uso clínico rotineiro de GH nas condições pós-operatórias e de paciente critico sendo que novas pesquisas devem ser desenvolvidas em nível de biologia molecular para compreender qual a interferência do binômio GH e Gln sobre a expressão de genes inflamatórios.

Por: Dr. Dan L. Waitzberg
Professor Associado do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP e Diretor do Grupo de Nutrição Humana – GANEP

Leia também