fbpx

Necessidades de aminoácidos especiais em crianças

Postado em 25 de maio de 2009 | Autor: Mário Cícero Falcão

Departamento de Pediatria

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

As proteínas foram os primeiros nutrientes considerados essenciais para o organismo por possuírem nitrogênio em sua estrutura. Elas são formadas por múltiplas combinações de aminoácidos e desempenham funções estruturais, reguladoras, de defesa e de transporte nos fluidos biológicos.

Na raça humana nove aminoácidos são essenciais, ou seja, devem ser fornecidos pela dieta, pois o organismo é incapaz de sintetizá-los. Sua deficiência ocasiona alterações na síntese protéica e em processos bioquímicos e fisiológicos; na criança provoca balanço nitrogenado negativo e graves alterações no crescimento e desenvolvimento cerebral. São eles: treonina, triptofano, histidina, lisina, leucina, isoleucina, metionina, valina e fenilalanina.

Os aminoácidos não essenciais são igualmente importantes na estrutura protéica; no entanto, caso haja deficiência em sua ingestão, eles podem ser sintetizados em nível celular a partir de aminoácidos essenciais.

Em recém-nascidos, principalmente prematuros e em lactentes jovens existe uma terceira classe de aminoácidos, os condicionalmente essenciais, ou seja, que podem ser considerados essenciais em determinados estados fisiológicos de desenvolvimento e determinada condição clínica. É o caso da taurina, arginina, cisteína, cistina e possivelmente da tirosina.

Importância da taurina

A taurina é um aminoácido que ocorre de forma natural no organismo e na nossa alimentação através da ingestão de proteínas animais. A taurina difere da maioria dos aminoácidos, pois não se incorpora às proteínas, existindo em sua forma livre na maioria dos tecidos animais, sendo mais abundante no músculo, plaquetas e no sistema nervoso em desenvolvimento.

A taurina é um aminoácido não essencial, pois ela pode ser produzida em nosso organismo através da cisteína. Entretanto, no recém-nascido e no lactente jovem esta conversão não é adequada e ela é considerada como um aminoácido condicionalmente essencial, ou seja, é necessária a sua oferta através da dieta, visto que nas situações onde os lactentes são alimentados com dieta láctea sem taurina (leite de vaca integral), os níveis plasmáticos de taurina declinam significativamente. Uma deficiência também pode ocorrer em pacientes recebendo nutrição parenteral por períodos prolongados.

A taurina é um neurotransmissor, um regulador de sódio e água intracelular e um estabilizador das membranas celulares. A taurina também participa de processos de desintoxicação celular e está envolvida na produção e atividade da secreção biliar por ser precursora do ácido taurocólico que entra na composição de ácidos biliares.

A taurina melhora a força de contração do músculo cardíaco, prevenindo o desenvolvimento de miocardiopatias. Este aminoácido também melhora o desempenho das células da retina e as protege dos efeitos agressivos da luz ultravioleta e de substâncias tóxicas, com os radicais livres, visto que a deficiência de taurina leva a uma degeneração dos fotorreceptores, medida através de eletroretinograma.

Atualmente, existe a recomendação de se adicionar taurina na solução de aminoácidos em recém-nascidos, principalmente prematuros e em lactentes jovens.

Importância da glutamina

A glutamina é um dos aminoácidos mais abundantes no organismo e dentre o seu papel destacam-se:

• prover componentes estruturais das proteínas;

• promover a transferência de nitrogênio entre os tecidos:

• substrato para a produção de amônia;

• precursora de bases nitrogenadas (purina e pirimidina);

• combustível para enterócitos e linfócitos.

A glutamina é classificada como um aminoácido não essencial, no entanto, em pacientes críticos, seus estoques são depletados rapidamente e a sua biossíntese não é capaz de restaurá-los, tornando-se, então, um aminoácido condicionalmente essencial.

A criança gravemente doente se encontra em alto risco nutricional e está sujeita a apresentar uma depleção de glutamina. Como, geralmente, elas necessitam de suporte nutricional intravenoso, vários estudos foram conduzidos para se detectar um desfecho positivo com a suplementação de glutamina, tanto por via parenteral como enteral. Este desfecho positivo seria uma proteção contra a sepse e uma maior tolerância ao incremento da dieta enteral, resultando em menor morbi-mortalidade e menor tempo de internação hospitalar. Entretanto, as metanálises referentes a este desfecho ainda são questionáveis.

Importância da carnitina

A carnitina, um aminoácido não essencial com seis carbonos em sua molécula, auxilia a entrada dos lipídios na mitocôndria para promover a beta-oxidação lipídica, liberando, assim, substrato energético.

Deficiência de carnitina, revelada por baixas concentrações séricas deste aminoácido, pode ser observada em crianças recebendo nutrição parenteral total por tempo prolongado. Além dessa situação, esta deficiência também pode estar presente em: recém-nascidos de baixo peso, desnutrição grave e sepse.

Prematuros e crianças com baixo peso ao nascer são particularmente susceptíveis a apresentar deficiência de carnitina, por terem baixos estoques ao nascer e pela grande dependência da oxidação de ácidos graxos para gerar energia.Entretanto, a suplementação de carnitina, apesar de não mostrar efeitos colaterais, não apresentou resultados positivos na geração de energia, fazendo com que esta suplementação não tenha o seu uso rotineiro.

Papel da cisteína

A cisteína é componente, um aminoácido condicionalmente essencial em recém-nascidos e lactentes, participa da síntese da glutationa, o maior antioxidante endógeno presente no nosso organismo. A glutationa é um tripeptídeo, sintetizado a partir da cisteína, do ácido glutâmico e da glicina. A quantidade de cisteína presente no corpo humano é fator limitante para a síntese da glutationa.

A glutationa, além de ser um antioxidante, também participa da reciclagem das vitaminas antioxidantes e é elemento fundamental na síntese da enzima glutationa peroxidase, que protege a membrana celular contra os radicais livres.

Crianças gravemente doentes apresentam um alto estresse oxidativo e o uso de antioxidantes pode ter um efeito benéfico nessa condição.

Referências:

1.Te Braake FW, Schierbeek H, de Groof K, Vermes A, Longini M, Buonocore G, van Goudoever JB. Glutathione synthesis rates after amino acid administration directly after birth in preterm infants. Am J Clin Nutr 2008; 88:333-9.

2.Thomas B, Gruca LL, Bennett C, Parimi PS, Hanson RW, Kalhan SC. Metabolism of methionine in the newborn infant: response to the parenteral and enteral administration of nutrients. Pediatr Res 2008; 64:381-6.

3.Falcão MC, Tannuri U. Nutrition for the pediatric surgical patient: approach in the peri-operative period. Rev Hosp Clin Fac Med Sao Paulo 2002; 57:299-308.

Leia também