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O Intestino Como Regulador da Resposta Sistêmica ao Trauma

Postado em 25 de maio de 2009 | Autor: Maria Isabel Toulson Davisson Correia

Objetivo: Discutir o papel do intestino na resposta sistêmica ao trauma

Discussão: O trato gastrointestinal tem papel importante na homeostasia corporal. Desde a porção do esfíncter esofageano inferior até o anus há camada de células com funções importantes na digestão, na absorção, na regulação hidroeletrolítica, na sinalização endócrina, assim como na excreção de subprodutos. No intestino delgado, estas células (enterócitos) formam vilosidades e microvilosidades aumentando a área absortiva. Esta área da mucosa intestinal é muito vulnerável a agressões e, pequenos insultos podem gerar quebra da barreira intestinal, ativando uma série de fenômenos que impactarão na resposta inflamatória. Assim, é fundamental evitar a lesão, prevenindo a passagem de agentes infecciosos e moléculas tóxicas do lúmen para a corrente sanguínea. O intestino também secreta imunoglobulinas, muco, defensinas e outros agentes antimicrobianos que em conjunto com as vilosidades atuam como mecanismo de defesa conhecido como função da barreira.

A barreira epitelial é formada por camada lipídica dos enterócitos. Esta apresenta boa solubilidade para compostos lipídicos, contudo oferece obstáculo a produtos hidrosolúveis. Neste sentido, o enterócito executa a dupla função: absortiva e barreira. Contudo, nas junções entre as células epiteliais há grande potencial para passagem de solutos. Esta não é regulada por sistemas ou canais de transporte da membrana. Assim, existe uma série de junções intercelulares que contribuem para este processo, das quais as ocludinas, proteínas da família das claudinas, fazem parte. As ocludinas têm papel importante na gênese da inflamação. Tem sido demonstrado que as ocludinas são afetadas por toxinas bacterianas, o que gera aumento da permeabilidade das junções na presença de infecções. A importância da barreira intestinal foi demonstrada há alguns anos quando extratos de bactérias foram injetadas diretamente na parede colónica de ratos, o que iniciou processo inflamatório imediato, com reações granulomatosas locais muito similar à doença de Crohn, assim como processo inflamatório sistêmico.

A resposta inflamatória e imunológica, por si só, é fenômeno fisiológico após qualquer injúria, numa tentativa do organismo recuperar a homeostasia e culminar com a cicatrização do tecido lesado. Contudo, quando exacerbada, está associada a alta morbimortalidade. Neste sentido, o intestino desempenha papel importante na modulação da resposta. Situações de trauma e choque estimulam cascata de eventos intestinais tais como a superprodução de citocinas intestinais, o que diretamente impacta no aumento da permeabilidade intestinal e, conseqüente translocação de bactérias ou toxinas.

Em humanos, o aumento da permeabilidade intestinal foi observado em pacientes com diabetes tipo 1, há mais de 20 anos atrás. Este incremento não está relacionado com a presença de hiperglicemia, já que no diabetes tipo 2 esse fenômeno não ocorre. Na doença de Crohn há aumento da permeabilidade intestinal, mesmo quando os pacientes encontram-se em remissão clínica da doença. Na doença hepática grave, tanto a permeabilidade intestinal como os níveis de toxinas estão aumentados, o que justifica a grande produção de citocinas destes indivíduos, caracterizando o estado inflamatório crônico característico desta enfermidade. O mesmo ocorre em pacientes com insuficiência cardíaca e caquexia que apresentam aumento da permeabilidade intestinal. Neste caso, parece que a diminuição do débito cardíaco contribui para a diminuição da perfusão intestinal, impactando diretamente na função da barreira e perpetuando o cíclo vicioso da inflamação crônica e aumento da permeabilidade intestinal. Pacientes portadores do vírus HIV apresentam também aumento da permeabilidade intestinal e diminuição da função dos enterócitos, com concomitantes níveis elevados de lipopolissacárides, o que sugere a ocorrência de translocação bacteriana. Na presença de câncer, o mecanismo associado ao estado de caquexia de alguns pacientes parece ser similar aos fenômenos descritos anteriormente, ou seja, estado inflamatório relacionado ao aumento da permeabilidade intestinal.

Conclusão – Há evidências suficientes, tanto aquelas advindas de estudos experimentais como de clínicos, associando o aumento da permeabilidade intestinal com o incremento da resposta inflamatória e esta, por sua vez, estimulando o aumento da permeabilidade.

Referências

1. Pirlich M NK, Lochs H, Bauditz J. Role of intestinal function in cachexia. Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care 2006;9:603–606

2. Arrieta M, Bistritz L, Meddings J. Gut. Alterations in intestinal permeability 2006;55:1512-20.

3. Mrsny R, Brown G, Gerner-Smidt C, et al. A Key Claudin Extracellular Loop Domain is Critical for Epithelial Barrier Integrity. Am J Pathol. 2008;172:905-15.

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