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NUTRIÇÃO ENTERAL PRECOCE X RECÉM-NASCIDOS DE MUITO BAIXO PESO A nutrição enteral precoce traz benefícios para o recém-nascidos de muito baixo peso?

Postado em 24 de outubro de 2002

Newsletter Nutritotal Nutrição Enteral XXI

NUTRIÇÃO ENTERAL PRECOCE X RECÉM-NASCIDOS DE MUITO BAIXO PESO

A nutrição enteral precoce traz benefícios para o recém-nascidos de muito baixo peso?

 

The significance of gastric residuals in the early enteral feeding advancement of extremely low birth weight infants. Mihatsch WA, von Schoenaich P, Fahnenstich H, Dehne N, Ebbecke H, Plath C, von Stockhausen HB, Muche R, Franz A, Pohlandt F. Pediatrics 2002;109(3):516-7.

OBJETIVO: avaliar se o volume gástrico residual médio e resíduos gástricos de cor verdes são preditores significativos de intolerância alimentar em recém-nascidos com muito baixo peso (ou seja, com menos de 1.000 g). DESENHO: 99 recém-nascidos de muito baixo peso foram alimentados de acordo com um protocolo padronizado (dias 3 a 14). Às 48 horas de vida, iniciou-se a administração de leite (12 ml/kg/d, 12 refeições por dia). Resíduos gástricos verdes foram avaliados antes de cada refeição e volume gástrico residual de até 2 ou 3 ml em recém-nascidos com peso menor ou igual a 750 g foi tolerado. Em casos de volume residual aumentado, as refeições eram diminuídas ou suspensas. A cor do resíduo gástrico foi classificada como clara, leitosa, verde-clara, verde-leitosa, manchada de sangue ou hemorrágica. Análise regressiva múltipla foi usada para estudar o efeito do volume residual gástrico médio e a cor do resíduo no volume da dieta no dia 14. RESULTADOS: média, no dia 14, foi de 103 ml/kg/dia (0 a 166). O volume no dia 14 aumentou quando se elevaram as porcentagens de resíduo leitoso, enquanto que a média de volume gástrico residual e a cor verde não teve efeito significativo. CONCLUSÕES: nutrição enteral precoce pode ser iniciada em recém-nascidos de muito baixo peso. O volume gástrico residual crítico parece estar acima de 2 a 3 ml, pois não houve correlação negativa significativa entre a média do volume gástrico residual e o volume no dia 14. Resíduo verde não esteve correlacionado negativa e significativamente com o volume no dia 14 e não deve reduzir a velocidade de aumento de volume administrado na ausência de outros sinais ou sintomas.

Early feeding advancement in very low-birth-weight infants with intrauterine growth retardation and increased umbilical artery resistance. Mihatsch WA, Pohlandt F, Franz AR, Flock F. J Pediatr Gastroenterol Nutr 2002 ,35(2):144-8.

OBJETIVO: investigar se o retardo do crescimento intra-uterino (peso ao nascer menor que o décimo percentil), resistência da artéria umbilical aumentada (índice de resistência maior que o percentil 90, medido por Doppler) ou centralização hemodinâmica (resistência da artéria umbilical aumentada e diminuição do índice de resistência da artéria cerebral central ao quinto percentil) foram associados com intolerância alimentar em recém-nascidos de muito baixo peso (peso menor que 1.500 g ao nascer). MÉTODOS: de julho de 1999 a dezembro de 2000, 124 recém-nascidos de muito baixo peso foram incluídos num estudo prospectivo avaliando a nutrição enteral precoce após instituição de um protocolo de alimentação padronizado (aumento da alimentação diária, 16 ml/kg diariamente). Tolerância alimentar foi analisada como a idade na qual completa alimentação enteral (150 ml/kg/dia) foi alcançada. Dados expostos como média, 25o e 75o percentis. RESULTADOS: alimentação completa foi alcançada em 15 dias (12 a 21 dias) em todos os bebês. Retardo do crescimento intra-uterino (alimentação completa atingida em 14 dias, variando de 12 a 21 dias), aumento da resistência da artéria umbilical (14 dias, de 11 a 16 dias) e centralização (15 dias, com variação de 14 a 20 dias) não estiveram associados com intolerância à alimentação enteral precoce. CONCLUSÃO: recém-nascidos de muito baixo peso com retardo do crescimento intra-uterino, aumento da resistência da artéria umbilical e centralização hemodinâmica toleraram a nutrição enteral tanto quanto recém-nascidos com peso adequado para a idade.

Risk factors associated with feed intolerance in very low birthweight infants following initiation of enteral feeds during the first 72 hours of life. Boo NY, Soon CC, Lye MS. J Trop Pediatr 2000; 46(5):272-7

Estudo observacional foi iniciado no Hospital e Maternidade de Kuala Lumpur para determinar os fatores de risco associados com intolerância alimentar em recém-nascidos de muito baixo peso (com peso ao nascer menor que 1.501 g). Os bebês receberam alimentação enteral intermitente a cada três horas. Intolerância alimentar se desenvolveu em 85 (64,4%) dos 132 bebês. Análise de regressão logística mostrou que o único fator de risco associado significativamente com a intolerância alimentar foi a idade de início da alimentação enteral. Para cada hora de atraso no início da alimentação, o odds ratio ajustado de intolerância foi 1,03 (95%, intervalo de confiança de 1,01 a 1,05; o = 0,01). Outros fatores (modo de administração, escore Apgar em um minuto, sexo, etnia, história de ressuscitação ao nascer, peso ao nascer, gestação, gravidez múltipla, asfixia perinatal, tipo de leite, hipotermia e hipotensão antes da primeira alimentação, síndrome da angústia respiratória, ducto arterial permeável, septicemia, terapia com teofilina ou indometacina, suporte ventilatório, pressão aérea positiva contínua, cateterização umbilical e terapia com surfactante) não estiveram associados significativamente com intolerância alimentar. O estudo sugere que, para promover a tolerância a dietas enterais em recém-nascidos de muito baixo peso, deve-se iniciar alimentação orogástrica intermitente o mais cedo possível durante as primeiras 72 horas de vida.

COMENTÁRIOS

Em pacientes idosos, hospitalizados por longo tempo ou em programas de terapia nutricional enteral por longos períodos, a tolerância à dieta enteral tem sido uma preocupação constante dos pesquisadores. Como diminuir a intolerância, reduzindo a freqüência e volume das diarréias, é um tema de interesse para o clínico, pois o sucesso da alimentação enteral se reflete no estado geral do paciente e na recuperação de doenças.

No entanto, a tolerância à alimentação enteral também é uma preocupação dos pediatras, na medida em que seus resultados podem influenciar no crescimento e até na sobrevivência dos recém-nascidos de muito baixo peso e prematuros. Esta população tem uma característica peculiar: sua alimentação deve mimetizar o crescimento intra-uterino, já que o nascimento se deu antes do tempo. Além disso, as primeiras semanas após o nascimento são de grande catabolismo e demanda de substratos. O risco nutricional é maior tanto menor for o peso ao nascer. Portanto, índices de desenvolvimento da criança são estabelecidos para verificar o cumprimento das metas nutricionais.

Os três trabalhos apresentados esta semana abordam justamente a tolerância à nutrição enteral precoce em recém-nascidos de muito baixo peso, ou seja, aqueles nascidos com até 1.500 g. Todos os trabalhos chegam à conclusão de que é benéfica a iniciação precoce da administração da dieta enteral. Como demonstrou o trabalho malasiano, quanto mais tarde se inicia a alimentação enteral, maior o risco de intolerância. Isso é verdade até mesmo quando o recém-nascido apresentava retardo do crescimento intra-uterino ou quando resíduos gástricos são observados, como exposto pelos dois trabalhos dos alemães Mihatsch e colaboradores.

Por: Dr. Dan L. Waitzberg
Professor Associado do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo –
FMUSP e Diretor do Grupo de Nutrição Humana – GANEP

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