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NUTRIÇÃO ENTERAL X CONTAMINAÇÃO MICROBIANA O sistema de preparo e administração da nutrição enteral tem a ver com a contaminação microbiana?

Postado em 4 de fevereiro de 2002

Hazard analysis and critical control point system approach in the evaluation of environmental and procedural sources of contamination of enteral feeding in three hospitals. Carvalho LRM, Morais TB, Amaral DF, Sigulem DM. JPEN 2000; 24(5): 296-303.

OBJETIVO: determinar a qualidade microbiológica de fórmulas de nutrição enteral e os pontos críticos de controle envolvidos no seu processamento. AMOSTRA: 116 dietas artesanais e em pó. MÉTODOS: avaliação das dietas por meio do sistema Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC). Monitorização da higienização e desinfecção de utensílios e equipamentos, controle de tempo e temperatura e análises microbiológicas em três hospitais de São Paulo – Brasil. Os padrões utilizados para avaliar os resultados das análises foram os estabelecidos pela Food and Drug Administration e British Dietetic Association. RESULTADOS: de acordo com o padrão britânico, 77% das dietas artesanais e 38% das dietas em pó estavam inadequadas para bactérias mesófilas e coliformes, respectivamente, após a preparação. Após 24 horas de refrigeração, os percentuais aumentaram para 83% e 45%, respectivamente. Os pontos críticos de controle identificados foram: limpeza e desinfecção das mãos dos manipuladores, superfícies, utensílios e equipamentos; tempo de preparo; água utilizada para reconstituição; temperatura final da dieta; temperatura de refrigeração; exposição à temperatura ambiente. CONCLUSÃO: dietas enterais com a qualidade microbiológica comprometida representam um potencial risco de infecção para os pacientes que fazem uso desta terapia.

Bacterial Contamination of ready-to-use 1-L feeding bottles and administration sets in severely compromised intensive care patients. Mathus-Vliegen LM, Binnekade JM, de Haan RJ. Crit Care Med 2000; 28(1): 67-73.

OBJETIVO: investigar a taxa de contaminação bacteriana de frascos com alimentação pronta para uso e o tempo de administração da dieta por mais de 24 horas em pacientes de terapia intensiva. TIPO DE ESTUDO: prospectivo, de observação, corte, por quatro dias em pacientes internados consecutivamente em unidade de terapia intensiva. MÉTODO: foram estudados pacientes com nutrição enteral (NE) via sonda nasojejunal por, no mínimo, quatro dias. Culturas foram feitas dos frascos e equipos de administração, aspirado gástrico e traqueobrônquico. RESULTADOS: 4% e 74% dos frascos e equipos de administração apresentaram contagens de colônias bacterianas superiores a 10²UFC/ml, respectivamente. As principais bactérias isoladas foram: E. cloacae, K. oxytoca e Enterococci sp.. Os aspirados gástricos e traqueobrônquico foram positivos para bactérias em 90% e 92%, respectivamente. Um terço de todas as bactérias encontradas em frascos de alimentação, equipos de administração, estômago e pulmão pertencia à família Enterobacteriaceae, a qual foi considerada responsável por infecções nosocomiais na Unidade de Terapia Intensiva. Nenhum dos frascos de alimentação com tempo de administração de 19 a 24 horas estava contaminado, exceto aqueles que foram manuseados. A contaminação dos frascos pode ter sido causada pela transferência de bactérias das mãos das enfermeiras. CONCLUSÃO: apesar do sistema fechado de administração de nutrição enteral ser considerado um sistema ideal, taxa de 4% de contaminação em formulação inicialmente estéril foi encontrada, com bactérias clinicamente relevantes. O fato de o crescimento bacteriano ocorrer somente quando houve manipulação merece preocupação.

Microbiological quality of reconstituted enteral formulations used in hospitals. Oliviera MH, Bonelli R, Aidoo KE, Batista CR. Nutrition 2000; 16(9): 729-33.

OBJETIVO: investigar a qualidade microbiológica de fórmulas enterais reconstituídas, resíduos alimentares de sistemas de administração e a água usada para reconstituir as fórmulas em pó. MÉTODO: análise microbiológica de fórmulas enterais e utensílios utilizados no seu preparo. INTERVENÇÃO: implantação do sistema APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle). RESULTADOS: presença de coliformes e Enterococcus sp. e níveis altos de microorganismos aeróbicos mesófilos (>104UF C/ml) na fórmula enteral. Redução da contagem de microorganismos nas fórmulas enterais (<10¹UFC/ml). CONCLUSÃO: implantação do sistema APPCC melhora a qualidade microbiológica das fórmulas enterais. Os misturadores (liquidificadores) foram considerados, neste caso, a principal fonte de contaminação.

COMENTÁRIOS

A contaminação microbiológica pode prejudicar a aceitação da nutrição enteral, comprometendo a evolução clínica dos pacientes submetidos a esta terapia. O sistema fechado para administração da nutrição enteral tem sido considerado ideal pela literatura no que diz respeito à ausência ou redução do crescimento microbiano. Este resultado deve-se ao fato de a maior fonte de contaminação das dietas enterais, a manipulação, estar ausente durante o seu preparo. Entretanto, Mathus-Vliegen et al. encontraram, recentemente, taxa de 4% de contaminação nas formulações estéreis, em sistema fechado, provavelmente causada pela transferência de microorganismos das mãos das enfermeiras durante a administração da dieta. Este resultado merece atenção, já que o crescimento microbiano ocorreu apenas quando houve manipulação durante a administração.

Apesar de apresentarem baixos níveis de contaminação, dietas enterais em sistema fechado são ainda inviáveis em alguns serviços, sendo o sistema aberto grandemente utilizado. O estudo de Carvalho et al. identificou pontos críticos de controle durante o preparo (manipulação) das dietas enterais em sistema aberto, por meio do sistema APPCC, útil para identificar estes pontos e propor medidas de controle e prevenção para cada um deles. Oliviera et al. comprovaram em seu trabalho que a implantação deste sistema melhora a qualidade das fórmulas enterais por meio da redução da contagem dos microorganismos nestas fórmulas.

A partir da análise destes trabalhos, conclui-se que:

1. o risco de contaminação das dietas enterais em sistema fechado é menor, porém a atenção para com as técnicas higiênicas adequadas durante a administração não pode ser esquecida;
2. sendo necessária a utilização do sistema aberto de nutrição enteral, os pontos críticos de contaminação devem ser identificados, as medidas de controle e prevenção instituídas e a máxima atenção deve ser dada aos manipuladores durante o processo de preparo ou envase da dieta.

Por: Gabriela P. C. Oliveira
Especialista em terapia nutricional parenteral e enteral pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral – SBNPE e nutricionista do Grupo de Nutrição Humana – GANEP

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