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NUTRIÇÃO ENTERAL X ERITROMICINA A eritromicina facilita a passagem de sonda enteral em posição pós-pilórica?

Postado em 2 de março de 2002

Efficacy of erythromycin for postpyloric placement of feeding tubes in critically ill children: a randomized, double-blind, placebo controlled study. Gharpure V, Meert KL, Sarnaik AP. JPEN J Parenter Enteral Nutr 2001; 25(3): 160-5.

OBJETIVO: avaliar o efeito da eritromicina na passagem transpilórica e migração distal de sondas enterais em crianças gravemente enfermas. TIPO DE ESTUDO: clínico, randomizado e controlado. MÉTODO: 74 crianças foram randomizadas para receber eritromicina (10 mg/kg) ou mesmo volume de solução salina (placebo), 60 minutos antes da passagem de sonda enteral. Foram realizadas radiografias abdominais após 4 horas da passagem da sonda para avaliar a localização da mesma. Se a sonda estivesse na terceira parte do duodeno, eram administrados duas doses adicionais de eritromicina ou placebo de 6 em 6 horas. Foram realizadas radiografias naqueles que receberam doses adicionais de eritromicina, 14 a 18 horas após a passagem da sonda. RESULTADOS: número de sondas enterais pós-pilóricas foi similar em ambos grupos, 4 horas após a passagem da sonda (p = 0,5). Foi observada migração da sonda para posição pós-pilórica em 14 e 18 horas (p < 0,05) naqueles que a sonda estava em posição pré-pilórica em 4 horas (3 do grupo placebo e nenhum do grupo eritromicina). Aqueles que apresentaram sonda em posição pós-pilórica (terceira parte do duodeno) em 4 horas, doses adicionais de eritromicina não causaram avanço das sondas para o intestino quando comparados com o grupo placebo (p = 0,06). CONCLUSÕES: eritromicina não facilita a passagem transpilórica de sondas enterais em crianças gravemente enfermas. Migração distal de sondas duodenais para o intestino também não foi estimulada pela eritromicina.

Erythromycin facilitates postpyloric placement of nasoduodenal feeding tubes in intensive care unit patients: randomized, double-blinded, placebo-controlled trial. Kalliafas S, Choban PS, Ziegler D, Drago S, Flancbaum L. JPEN J Parenter Enteral Nutr 1996; 20(6): 385-8.

OBJETIVO: determinar se administração de eritromicina facilita a passagem de sonda enteral para posição pós-pilórica. TIPO DE ESTUDO: clínico, randomizado e controlado. MÉTODO: 57 pacientes cirúrgicos em unidade de terapia intensiva (UTI) foram divididos pela presença ou não de diabetes mellito (DM). Pacientes que não apresentavam DM foram subdivididos naqueles com estado mental (EM) normal ou deprimido. Os três grupos foram randomizados para receber eritromicina (E) ou placebo (P). Posição da sonda foi verificada por meio de radiografia abdominal. RESULTADOS: taxa de posicionamento da sonda na região pós-pilórica foi significativamente maior no grupo E (61%) quando comparado com o grupo P (35%). No grupo sem DM e EM normal, taxa de sonda pós-pilórica do grupo E foi significativamente maior (64%) quando comparada com o grupo P (9%). No grupo com DM e EM deprimido, observou-se 50% de taxa de sonda pós-pilórica no grupo E contra 63% do grupo P (não significativo). No grupo DM, 80% dos pacientes apresentaram sonda em posição pós-pilórica com E e 43% com P (não significativo). CONCLUSÕES: eritromicina facilita passagem de sonda enteral para posição pós-pilórica em pacientes cirúrgicos em UTI. Este benefício está claro nos pacientes com EM normal e pode ser usado em pacientes com DM.

COMENTÁRIOS

A complicação mais temida em terapia de nutrição enteral (NE) é a aspiração pulmonar de conteúdo gástrico. Pacientes que tem esvaziamento gástrico retardado, ausência do reflexo da tosse, idade avançada, distúrbios neurológicos, doença do refluxo gástrico esofageano tem indicação de receber NE por meio de sondas nasoenterais dispostas em região pós-pilórica. Neste sentido são de interesse os procedimentos que facilitam o posicionamento de sondas nasoenterais nesta região.

Existem vários procedimentos descritos como o uso de agentes estimuladores do esvaziamento gástrico do tipo pró-cinéticos como, por exemplo, a metoclopramida, donperidon e mesmo a cisaprida. São descritas também manobras como a mudança de decúbito do paciente para o lateral direito isolada ou em combinação com o uso de medicamentos pró-cinéticos. Existem também sondas nasoenterais dotadas de particularidades de tamanho maior e ogivas diferenciadas que favorecem potencialmente a passagem pós-pilórica.

A eritromicina é um antibiótico que possui a propriedade de favorecer o esvaziamento gástrico. Nesta edição observamos dois estudos clínicos aleatórios e controlados com número razoável de pacientes realizados em adultos e crianças com a finalidade de verificar a eficiência da eritromicina em favorecer o posicionamento pós-pilórico da sonda nasoenteral. Os autores observaram efeitos positivos de uso da eritromicina em pacientes críticos adultos internados em UTI, que não se repetem em crianças gravemente doentes.

Mesmo após a confirmação radiológica ou por phmetria da posição jejunal da sonda nasoenteral é importante realizar testes de refluxo e radiografias periódicas por que é sabido que “sondas não migram, mas correm”. Isto significa que sondas originalmente colocadas em posição jejunal poderão migrar para o estômago ao longo do tempo, obrigando à verificação constante de seu posicionamento.

Por: Dr. Dan L. Waitzberg
Professor Associado do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP e Diretor do Grupo de Nutrição Humana – GANEP

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