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NUTRIÇÃO ENTERAL X FIBRAS Qual o papel dos diferentes tipos de fibras na terapia nutricional enteral?

Postado em 10 de maio de 2002

Soluble fiber reduces the incidence of diarrhea in septic patients receiving total enteral nutrition: a prospective, double-blind, randomized, and controlled trial. Spapen H, Diltoer M, Van Malderen C, Opdenacker G, Suys E, Huyghens L. Clin Nutr 2001; 20(4): 301-5.

OBJETIVO: investigar se a dieta enteral contendo goma guar parcialmente hidrolisada pode influenciar na produção de fezes em pacientes com sepse severa, que são uma população de risco para desenvolver diarréia. TIPO DE ESTUDO: prospectivo, duplo-cego, randomizado e controlado. MÉTODO: dos 25 pacientes, 13 receberam dieta enteral suplementada com 22 g/l de goma guar parcialmente hidrolisada e 12 receberam dieta isocalórica, isonitrogenada e sem fibra via sonda nasogástrica por no mínimo seis dias. Os dois grupos foram combinados por sexo, idade, gravidade da doença, causa da sepse, exames laboratoriais, duração da nutrição enteral e tempo para alcançar estado nutricional adequado. Todos os pacientes estavam em ventilação mecânica e em uso de catecolaminas e antibióticos. O volume e a consistência fecal foram usados para avaliar a diarréia. RESULTADOS: freqüência média de diarréia por dia foi significativamente menor no grupo que recebeu dieta enteral com fibras comparada com o grupo que recebeu dieta enteral sem fibras (8,8 +/- 10,0 % contra 32,0 +/- 15,3 %; p = 0,001). Todo o grupo que recebeu dieta enteral com fibras apresentou diarréia por menos dias durante o tempo que recebeu dieta enteral (16/148 dias, ou 10,8%, contra 46/146 dias, ou 31,5%; p < 0,001) e menor escore diarréico (4,8 +/- 6,4 versus 9,4 +/- 10,2; p < 0,001). O tipo de dieta enteral não influenciou na mortalidade relacionada a sepse e tempo de permanência na unidade de terapia intensiva. CONCLUSÃO: nutrição enteral total suplementada com fibras solúveis mostrou ser benéfica, reduzindo a incidência de diarréia em pacientes sépticos em ventilação mecânica e submetidos a terapia de nutrição enteral.

Does the supplementation of the formula with fibre increase the risk of gastro-oesophageal reflux during enteral nutrition? A human study. Bouin M, Savoye G, Herve S, Hellot MF, Denis P, Ducrotte P. Clin Nutr 2001; 20(4): 307-12.

OBJETIVO: avaliar os efeitos fisiológicos da suplementação de diferentes tipos de fibras em dieta enteral no refluxo gastro-esofágico (RGE) e na acidez e esvaziamento gástrico. TIPO DE ESTUDO: clínico e randomizado. MÉTODO: pH foi comparado em 12 voluntários saudáveis que receberam três fórmulas (500 kcal, 250 ml/h-1): sem fibra, com fibra de polissacarídeo da soja e mix de fibra de ervilha e inulina via sonda nasogástrica. O pH esofágico e gástrico foi avaliado juntamente com a ultra-sonografia da área gástrica antral durante a infusão. RESULTADOS: RGE foi observado com maior freqüência no grupo que recebeu dieta sem fibras (média 4, escala 1-10) comparado aos grupos que receberam dieta com fibra de polissacarídeo da soja e mix de fibra (média 1,5, escala 0-5) (p = 0,04). A duração média do RGE foi maior no grupo que recebeu dieta com mix de fibras (média 3,6, escala 1,8-7,2) comparada com o grupo que recebeu dieta sem fibras (média 1,8, escala 1-3,6) (p < 0,05). Os números de episódios de RGE que duraram mais de cinco minutos, o RGE de maior duração e a porcentagem do tempo de RGE com pH maior que quatro não foi significativamente diferente entre as três dietas. O pH intragástrico e a ultra-sonografia da área gástrica antral não foram diferentes entre as três dietas. CONCLUSÃO: suplementação de fibra em dieta enteral reduziu os episódios de RGE, porém aumentou a duração (mais evidente em dieta enteral com fibra solúvel) e não apresentou efeito significativo na acidez e esvaziamento gástrico.

Influence of three different fiber-supplemented enteral diets on bowel function and short-chain fatty acid production. Kapadia AS, Raimundo AH, Grimble GK, Aimer P, Silk DB. JPEN J Parenter Enteral Nutr 1995; 19(1): 63-8.

OBJETIVO: avaliar os efeitos de três dietas enterais suplementadas com distintas fontes de fibras (aveia, oligossacarídeo de soja e polissacarídeo de soja) na função intestinal. TIPO DE ESTUDO: clínico, randomizado e controlado. MÉTODO: função intestinal foi avaliada pelo tempo de trânsito intestinal, peso das fezes e freqüência de evacuações. As características dos diferentes tipos de fibras foram determinadas qualitativamente e quantitativamente pela avaliação dos ácidos graxos de cadeia curta produzidos durante a cultura das fezes in vitro. RESULTADOS: produção de ácidos graxos de cadeia curta e ácido butírico pela fibra de oligossacarídeo de soja foi significativamente maior se comparada com a fibra de polissacarídeo de soja (p < 0,003), fibra de aveia (p < 0,005) e dieta isenta de fibra (controle) (p < 0,003). O tempo de trânsito intestinal e peso das fezes não apresentaram diferença entre as dietas enterais suplementadas com polissacarídeo de soja, aveia e oligossacarídeo de soja. Entretanto, a freqüência de evacuações foi significativamente maior no grupo que consumiu a dieta suplementada com fibra do polissacarídeo de soja quando comparada com as dietas suplementadas com fibra de aveia ou de oligossacarídeo de soja. CONCLUSÃO: em comparação com a dieta polimérica isenta de fibras, a adição de 30 g/dia de fibras pouco fermentáveis (aveia), moderadamente fermentáveis (polissacarídeo de soja) e altamente fermentáveis (oligossacarídeo de soja), isoladamente, apresenta pouco efeito sobre a motilidade intestinal.

COMENTÁRIOS

Fibras alimentares são polissacarídeos vegetais da dieta, como celulose, hemicelulose, gomas, mucilagens e a lignina (não-polissacarídeo), que não são hidrolisadas pelas enzimas do trato digestivo. Os frutooligossacarídeos e inulina são oligossacarídeos com efeitos semelhantes aos das fibras alimentares.

As fibras alimentares aumentam o volume das evacuações, regulam o tempo de trânsito intestinal e diminuem a pressão da luz intestinal. Atuam no metabolismo de carboidratos e no controle da glicemia, na redução de triglicerídeos e colesterol sangüíneo e como substrato para formação de ácidos graxos de cadeia curta. São classificadas em dois tipos, tomando-se por base suas propriedades de solubilidade em água: fibras solúveis e insolúveis.

Em nutrição enteral, estudos têm demonstrado resultados favoráveis no controle da diarréia em pacientes sépticos, refluxo gastro-esofágico e no tempo de trânsito intestinal em pacientes que recebem nutrição enteral. O estudo de Spapen et al. acima mostra que suplementação de fibra solúvel (goma guar) reduz a incidência de diarréia, melhorando a tolerância à nutrição enteral em pacientes sépticos. Bouin et al. mostraram resultados positivos no controle do refluxo gastro-esofágico na vigência de nutrição enteral tanto com dieta suplementada com polissacarídeo da soja quanto com mix de fibras. O estudo de Kapadia et al. verificou que a produção de ácidos graxos de cadeia curta é significativamente maior com oligossacarídeo da soja. O tempo de trânsito intestinal e o peso das fezes não se alteram com nenhum dos suplementos.

A alimentação normal e equilibrada envolve todos os grupos de alimentos (carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas, minerais e fibras alimentares), tanto para pessoas saudáveis como para doentes hospitalizados com ou sem nutrição enteral, por isso as fibras alimentares assumem parte integral na terapia nutricional.

Além de seus múltiplos benefícios já conhecidos, como aumentar o volume fecal, melhorar o tempo de trânsito intestinal e produzir ácidos graxos de cadeia curta, as fibras alimentares também desempenham importante função na prevenção de diversas enfermidades.

É, portanto, de g
rande importância o conhecimento das propriedades fisiológicas que as fibras alimentares desempenham no trato gastrointestinal para melhor indicação nutricional.

Por: Luciana Z. Coppini
Especialista em terapia nutricional parenteral e enteral pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral – SBNPE e nutricionista do Grupo de Nutrição Humana – GANEP

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