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NUTRIÇÃO ENTERAL X PÓS-OPERATÓRIO DE CÂNCER A nutrição enteral traz benefícios no pós-operatório de pacientes com câncer?

Postado em 2 de maio de 2002

Postoperative enteral versus parenteral nutrition in malnourished patients with gastrointestinal cancer: a randomized multicentre trial. Bozzetti F, Braga M, Gianotti L, Gavazzi C, Mariani L. Lancet 2001; 358(9292): 1487-92.

OBJETIVO: avaliar se a nutrição enteral (NE) apresenta menos complicações pós-operatórias comparada com a nutrição parenteral (NP). MÉTODO: pacientes desnutridos submetidos a cirurgia eletiva por câncer gastrintestinal foram randomizados para receber NE (159 pacientes) ou NP (158 pacientes) no pós-operatório. RESULTADOS: complicações pós-operatórias ocorreram em 34% do grupo com NE contra 49% do grupo com NP com a mesma quantidade de calorias e nitrogênio (p < 0,0001). O tempo de internação hospitalar pós-operatória foi de 13,4 dias no grupo com NE e 15 dias no grupo com NP (p < 0,009). Os efeitos adversos ocorreram em 35% do grupo com NE contra 14% do grupo com NP (p < 0,0001). CONCLUSÃO: terapia nutricional enteral precoce reduziu significativamente a taxa de complicações e tempo de internação pós-operatória quando comparada com terapia nutricional parenteral, apesar da nutrição parenteral ser melhor tolerada do que a nutrição enteral.

Beneficial effects of immediate enteral nutrition after esophageal cancer surgery. Aiko S, Yoshizumi Y, Sugiura Y, Matsuyama T, Naito Y, Matsuzaki J, Maehara TSurg Today 2001; 31(11): 971-8.

OBJETIVO: determinar os efeitos da nutrição enteral (NE) precoce no estado nutricional, competência imunológica e resposta inflamatória de pacientes submetidos à cirurgia por câncer de esôfago. MÉTODO: foram estudados 24 pacientes submetidos a cirurgia eletiva por carcinoma esofágico que receberam (NE) ou nutrição parenteral (NP) no pós-operatório imediato. Ambos grupos receberam quantidade semelhante de volume e calorias no mesmo dia de pós-operatório. Os exames laboratoriais foram realizados no pré-operatório e do primeiro ao sétimo dia de pós-operatório. A avaliação nutricional e imunológica foi realizada do primeiro ao sétimo dia de pós-operatório. A concentração plasmática de nitrato e nitrito também foi mensurada. RESULTADOS: grupo que recebeu NE tolerou bem a dieta, mostrou aumento significativo da contagem total de linfócitos e atenuou os níveis séricos de bilirrubina e proteína C reativa. Não houve diferença significativa no estado nutricional, função linfocitária ou níveis plasmáticos de nitrato e nitrito entre os dois grupos. CONCLUSÃO: NE pós-operatória imediata pode ter efeitos benéficos na competência imunológica e na resposta inflamatória de pacientes submetidos a esofagectomia.

Usefulness of postoperative support by enteral nutrition of patients with epidermoid carcinoma of the larynx. de Luis DA, Cabezas G, Aller R, Izaola O. Nutr Hosp 2000; 15(5): 175-80.

OBJETIVO: analisar a utilidade da nutrição enteral (NE) pós-operatória em pacientes com tumor de laringe. MÉTODO: foram estudados 38 pacientes com idade média de 63,2 +/-10,2 anos. NE polimérica suplementada com fibras solúveis e insolúveis foi administrada, em média, por 10,6 +/- 4,9 dias até a indicação da nutrição oral no período pós-operatório. Avaliação antropométrica e bioquímica foi realizada no dia da admissão e do sétimo ao décimo dia do acompanhamento nutricional. A velocidade de infusão da NE contínua aumentou gradualmente nas primeiras 24 horas pós-operatório até que as necessidades teóricas pré-estabelecidas foram alcançadas. RESULTADOS: no período pós-operatório, não houve alteração nas medidas antropométricas, no entanto, houve melhora significativa dos níveis de pré-albumina e transferrina. Nenhum paciente apresentou efeitos adversos da NE como aspiração, porém 13% apresentaram diarréia. Todos os pacientes toleraram a nutrição oral quando indicada. A média do custo direto da NE foi de 24,61 +/- 8,34 dólares por dia. CONCLUSÃO: NE é efetiva no pós-operatório de pacientes com tumor de laringe, melhora os parâmetros bioquímicos e facilita a transição para a nutrição oral com poucos efeitos adversos e baixo custo.

COMENTÁRIOS

A implementação da terapia nutricional no tratamento de pacientes com câncer pode ter efeitos benéficos sobre o estado nutricional. No entanto, não apenas a condição nutricional deve ser considerada, mas também o prognóstico da doença, evitando-se que a terapia nutricional possa prolongar o sofrimento do doente. Nos casos em que há perspectivas de cura, por meio do tratamento clínico ou cirúrgico, a terapia nutricional pode ser indicada.

Os benefícios na nutrição enteral (NE) em pacientes com câncer submetidos à cirurgia estão descritos na literatura. Quando a nutrição enteral é instituída precocemente, estes benefícios podem ser ainda mais evidentes, como demonstrado por Aiko et al.: melhora da competência imunológica e efeitos benéficos sobre a resposta inflamatória de pacientes com câncer de esôfago, submetidos a cirurgia.

O estado nutricional também pode sofrer alterações positivas, de acordo com de Luis et al.: pacientes com tumor de laringe que receberam nutrição enteral no pós-operatório apresentaram melhora dos parâmetros bioquímicos de avaliação nutricional (pré-albumina e transferrina).

Quando comparada com a nutrição parenteral (Bozzetti et al.), a NE mostrou ser capaz de reduzir significativamente a taxa de complicações e o tempo de permanência hospitalar dos pacientes.

A nutrição enteral deve ser a terapia de escolha, sempre que o trato gastrintestinal puder ser utilizado. Porém, um conceito mais abrangente tem sido estabelecido pela literatura nos últimos anos: implementação da terapia nutricional no perioperatório e não apenas no pós-operatório. Os resultados, desta forma, serão ainda mais satisfatórios.

Por: Gabriela P. C. Oliveira
Especialista em terapia nutricional parenteral e enteral pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral – SBNPE e nutricionista do Grupo de Nutrição Humana – GANEP

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