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NUTRIENTES IMUNOMODULADORES X CÂNCER Como a terapia nutricional pode melhorar as respostas imune e inflamatória em pacientes operados?

Postado em 5 de abril de 2002

Modulation of postoperative immune and inflammatory response by immune-enhancing enteral diet in gastrointestinal cancer patients. Wu GH, Zhang YW, Wu ZH. World J Gastroenterol 2001; 7(3): 357-362.

OBJETIVO: avaliar se a administração de nutrição enteral (NE) suplementada com glutamina, arginina e ácidos graxos ômega-3 modula a resposta inflamatória e imunológica no pós-cirúrgico de pacientes submetidos a cirurgia por câncer gastrointestinal. TIPO DE ESTUDO: prospectivo, randomizado, duplo-cego e clínico. MÉTODO: foram estudados 48 pacientes com câncer gastrointestinal. Um grupo recebeu NE isocalórica e isonitrogenada (grupo controle) e o outro, NE suplementada com glutamina, arginina e ácido graxo ômega-3 (grupo de estudo). A NE foi administrada do segundo ao oitavo dia de pós-operatório. A resposta inflamatória foi determinada pelos níveis plasmáticos de proteína C reativa e de prostaglandinas E2. A resposta imunológica foi determinada pela capacidade fagocítica, capacidade oxidativa respiratória de células polimorfonucleares, subgrupos de linfócitos totais, óxido nítrico e concentração de citoquinas. Todas as variáveis foram mensuradas no pré-operatório e do primeiro ao oitavo dia de pós-operatório. RESULTADOS: ambas dietas foram bem toleradas. No grupo de estudo, a capacidade oxidativa respiratória e fagocítica foram maiores no pós-operatório e os níveis de proteína C reativa menor quando comparados com o grupo controle (p < 0,01). Os níveis de óxido nítrico, linfócitos totais, linfócitos T, células T auxiliares e células natural killer (NK) foram maiores no grupo de estudo. Os níveis de interleucina 6 e fator de necrose tumoral alfa foram menores no pós-operatório do grupo de estudo (p < 0,05). CONCLUSÃO: NE precoce no pós-operatório foi considerada segura e NE suplementada com glutamina, arginina e ácido graxo ômega-3 modulou positivamente a resposta inflamatória e imunológica no pós-operatório de pacientes submetidos a cirurgia por câncer gastrointestinal.

A prospective, randomized clinical trial on perioperative feeding with na arginine, omega-3 fatty acid, and RNA-enriched enteral diet: effect on host response and nutritional status. Gianotti L, Braga M, Fortis C, Soldini L, Vignali A, Colombo S, Radaelli G, Di Carlo V. JPEN J Parenter Enteral Nutr 1999; 23(6): 314-20.

OBJETIVO: avaliar os efeitos da nutrição enteral (NE) peri-operatória suplementada com arginina, ácido graxo ômega-3 e nucleotídeo na liberação de citoquina e variáveis nutricionais. TIPO DE ESTUDO: prospectivo, randomizado, duplo-cego e clínico. MÉTODO: foram estudados pacientes com câncer de estômago e reto. Foi administrado um litro por dia de NE padrão em 25 pacientes (grupo controle) e NE suplementada com arginina, ácido graxo ômega-3 e nucleotídeo em 25 pacientes (grupo de estudo) durante sete dias de pré-operatório. As mesmas dietas foram administradas via jejunostomia após seis horas de intervenção cirúrgica e mantidas por sete dias. Foram avaliados, em tempos diferentes, os níveis séricos de albumina, pré-albumina, transferrina, atividade da colinesterase, proteína carreadora do retinol, receptores alfa de interleucina-2, interleucina-6, interleucina-1 e receptores solúveis. O teste de hipersensibilidade tardia da pele também foi realizado. RESULTADOS: grupo controle apresentou menor concentração de pré-albumina (p < 0,05), proteína carreadora do retinol (p < 0,05) e receptores alfa e interleucina-2 (p < 0,001). O grupo de estudo apresentou menor concentração de interleucina-6 e receptores solúveis (p < 0,05). CONCLUSÃO: NE suplementada com arginina, ácido graxo ômega-3 e nucleotídeo no peri-operatório modulou a produção de citoquinas, imunidade de células mediadoras e síntese de proteínas de meia-vida curta.

COMENTÁRIOS

Novas metas em terapia nutricional incluem a modificação de variáveis clínicas como redução de morbidade e de custo de hospitalização. Dietas enterais contendo nutrientes com propriedades imunomoduladoras têm sido propostas para pacientes em estados de imunossupressão com o objetivo de modificar favoravelmente a morbidade infecciosa em terapia intensiva e após trauma.

Pacientes portadores de câncer gastrointestinal, em particular de estômago, podem apresentar desnutrição pré-operatória e são submetidos a intervenção cirúrgica de grande porte para a remoção de massa tumoral. Existem, pois, duas situações comuns de imunossupressão: aquela decorrente de desnutrição pré-operatória e a em decorrência do próprio ato anestésico/cirúrgico.

O grupo italiano chefiado por Braga e col. tem, há vários anos, estudado o efeito de dietas enterais imunomoduladoras em cirurgia. O trabalho de Gianotti e col. se destaca por ministrar a dieta imunomoduladora já na fase de pré-operatória. Os autores verificaram modulação de citoquinas inflamatórios e síntese de proteínas de fase aguda com a dieta imunomoduladora.

Ainda em câncer gastrointestinal, Wu e col. também estudaram, no pós-operatório, variáveis de resposta imune e inflamatória. Com o uso de dieta imunomoduladora, os autores verificaram maior taxa de defesa imunológica representada pelo maior número de células brancas presentes e também mais capacidade de fagocitose. A resposta inflamatória foi modulada à custa de redução de interleucina-6 e fator de necrose tumoral-alfa.

Ambos trabalhos concordam nos efeitos de redução de resposta inflamatória e estímulo de resposta imune em condição per-operatória. Resta-nos saber quais são os nutrientes de dieta imunomoduladora responsáveis por cada um destes efeitos.

Por: Dr. Dan L. Waitzberg
Professor Associado do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP e Diretor do Grupo de Nutrição Humana – GANEP

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