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Tragédias intrigam especialistas sobre capacidade do organismo em sobreviver sem alimentação – parte 2

Postado em 2 de junho de 2010

Em entrevista exclusiva, nutricionista comenta as principais variáveis que envolvem o estado nutricional em casos extremos

Vivemos um período marcado por diversas tragédias. Terremotos, tsunamis, enchentes e deslizamentos de terra recheiam as manchetes dos jornais em todo o mundo. Após o primeiro impacto das notícias, chegam as informações sobre os sobreviventes e os mais inacreditáveis resgates, que enchem de esperança todos aqueles que assistem ao sofrimento de familiares e amigos dos desaparecidos.

Em muitos casos, mesmo depois de perdidas as esperanças até mesmo por parte de quem tem experiência no assunto, como os membros das equipes de resgate, um gemido, uma movimentação, um sinal muda completamente o rumo das buscas. Recentemente, no Haiti, após o terrível terremoto que vitimou mais de 200 mil pessoas, médicos e profissionais da saúde ainda se intrigam com raros casos de sobrevivência.

Afinal, por quanto tempo o ser humano consegue sobreviver sem alimentação? O que define esta resistência e como o estado nutricional pode favorecer, não apenas nas grandes catástrofes, mas também em nosso dia-a-dia, tornando-nos mais resistentes às alterações de temperatura, às viroses e até mesmo ao estresse.

Para sanar estas dúvidas, o Nutritotal conversou com a nutricionista Solange de Oliveira Saavedra, gerente técnica do Conselho Regional de Nutrição de São Paulo (CRN-3). Confira!

Qual a influência do estado nutricional para o sistema imunológico?
O nosso organismo está sempre exposto a uma série de ataques de microorganismos que podem causar infecções, viroses e outras complicações. Por isso, o sistema imunológico funciona de forma vigilante para garantir a nossa saúde, exercendo continuamente um papel protetor contra esses agentes externos. Porém, para o funcionamento adequado desse sistema, é extremamente importante que o organismo encontre-se em bom estado nutricional. E, para tal, torna-se vital que os nutrientes necessários sejam provenientes de uma alimentação equilibrada e saudável.

Para um bom estado nutricional, o organismo precisa de macronutrientes (carboidratos, proteínas, lipídeos) e micronutrientes (vitaminas, minerais), além de fibras e água. Vários desses nutrientes são interdependentes e apresentam propriedades moduladoras do sistema imunológico. Portanto, caso ocorra uma ingestão inadequada de calorias e desses nutrientes (macro e micro), o resultado será uma diminuição das funções imunes, aumentando os riscos de se contrair infecções, além do corpo encontrar-se “despreparado” para responder prontamente aos desafios para garantir a nossa saúde.

Por que o organismo bem nutrido suporta melhor as adversidades, inclusive em casos extremos, como terremotos ou situações de guerra e suas consequentes privações de água ou alimentos?
O organismo, quando bem nutrido, encontra-se com suas funções em equilíbrio, fazendo com que sejam produzidas todas as substâncias necessárias para as reações metabólicas que ocorrem visando garantir a nossa sobrevivência, além, ainda, de organizar as nossas reservas energéticas, principalmente de carboidratos e lipídeos. Caso ocorra uma privação temporária de alimentos, o organismo faz uso dessas reservas, sinalizando uma atitude de preservação da vida e possibilitando manter o corpo ativo. Porém, se essa privação de alimentos, e também de água, se estende por longos períodos, a pessoa poderá entrar em colapso orgânico, surgindo quadros de desidratação e desnutrição, por exemplo.

Em casos extremos, como catástrofes naturais (terremotos, soterramentos, inundações, etc.), e até guerras, quando haverá limitações no fornecimento de suprimentos como água e alimentos, o organismo poderá se manter por um curto tempo, usando suas reservas; mas se partirmos do pressuposto de que o organismo já se encontrava com carências nutricionais ou até desnutrido, não haverá quase reserva a ser usada, enquanto se aguarda um fornecimento adequado de água e alimentos. Isso pode levar o indivíduo até à morte. Mas garantir um organismo bem nutrido não acontece da noite para o dia. É preciso que a pessoa mantenha uma alimentação adequada no seu cotidiano, fazendo disso um hábito de vida em prol da saúde e do equilíbrio orgânico.

Do que é composta a reserva energética? Seria o indivíduo com maior porcentagem de massa gorda, mais resistente, por apresentar maior reserva energética?
A reserva energética é composta basicamente por carboidratos (açúcares) e lipídeos (gorduras). Os carboidratos representam a maior e mais importante fonte de energia para o nosso organismo. Eles fornecem energia rápida para ser usada pelas várias células do nosso corpo e, por isso, 50 a 70% da nossa alimentação é composta por esse macronutriente, que se encontra em maior abundância em alimentos de origem vegetal. O armazenamento de açúcares ocorre no fígado e músculos, sob a forma de glicogênio, e uma parte circula pelo sangue, sob a forma de glicose. Além de ser fonte de energia, a quantidade suficiente de carboidratos na alimentação garante que as proteínas sejam poupadas, não sendo usadas para esse fim (energia), já que primordialmente as proteínas têm outras funções importantes no organismo.

Os lipídeos também são fontes de energia, mas possuem outras atividades no organismo, já que compõem as membranas das células, além de fornecerem ácidos graxos essenciais para diversos processos metabólicos, inclusive aqueles relacionados a atividades imunológicas. Ainda, participam das reações inflamatórias aumentando o fluxo sangüíneo no local da inflamação e agindo como sinalizadores para o recrutamento das células de defesa. Desta forma atuam estimulando as respostas do sistema imune. Porém, quando consumidos além da necessidade diária, tornam-se uma reserva indesejada, já que aumentam o volume das células gordurosas, levando ao excesso de peso.

A ingestão calórica, restritiva ou excessiva, tem uma importante influência na atividade imune. Os indivíduos desnutridos apresentam um elevado risco de contrair infecções e regimes de emagrecimento com baixo valor calórico podem reduzir a resposta imune, o que é uma boa razão para se evitar “dietas milagrosas” e pouco saudáveis. Por outro lado, uma ingestão calórica excessiva também pode comprometer a capacidade do sistema imune de combater as infecções; além disso, indivíduos obesos estão propensos a desenvolver doenças coronarianas, que estão relacionadas com alterações da função imune. Portanto, reduzir a gordura da dieta é importante para controlar o peso corporal, mas também para um bom funcionamento do sistema imunológico. Reduzindo o conteúdo de gordura na dieta pode-se aumentar a atividade imunitária. Mas, não basta somente reduzir a quantidade de gordura, deve-se selecionar a origem e qualidade desta. Em uma alimentação equilibrada a ingestão de gorduras não deve ultrapassar 30% do valor calórico total, sendo que a maior parte dessa gordura deve ser insaturada.

Quais são os aspectos fisiológicos envolvidos quando há restrição de água e alimentos?
Um ser humano possui cerca de 60% do seu peso corporal em água. Essa quantidade encontra-se distribuída em dois espaços principais: o líquido extracelular e o líquido intracelular. Portanto, a água é uma substância essencial para a vida, e no nosso organismo quase todas as reações químicas ocorrem em meio aquoso. Além do que, perdemos água diariamente por diversos mecanismos (suor, respiração, urina, fezes), e ela precisa ser reposta pela hidratação. E, ainda, a água é também importante para a regulação da temperatura corporal. Portanto, quando há restrição de água e de alimentos, entenda-se aqui fornecimento de nutrientes (carboidratos, proteínas, lipídeos, vitaminas, minerais e fibras), em curto espaço de tempo, o organismo lança mão de suas reservas e pode não haver grandes prejuízos, mas se por tempo mais prolongado, todas as atividades fisiológicas ficam comprometidas (circulação sanguínea, respiração, digestão, atividades musculares, neurológicas, etc.). É como se fosse uma “greve de fome”; o organismo pode sucumbir por falta de substrato, sofrendo um processo de desnutrição e até chegar à morte.

Nesta época do ano, com mudanças bruscas de temperatura, como devemos nos proteger por meio de alimentação? Quais alimentos não deveriam faltar? Porque estes alimentos nos protegem contra as adversidades ambientais?
A alimentação, independente das mudanças bruscas de temperatura que estão fora do nosso controle, deve seguir um ritual diário, baseado em disciplina, equilíbrio na escolha de alimentos mais saudáveis, regularidade nas refeições, que devem ser bem distribuídas pelo dia, sem períodos de jejum (só o momento do sono pode ser considerado um período de jejum saudável), dentre outras atitudes.

Uma alimentação saudável é para ser seguida todos os dias do ano, para que o organismo mantenha-se alerta e pronto para agir em períodos de desequilíbrio ambiental, que em geral são passageiros.

Mas como não existe um alimento completo, que sozinho supra todas as necessidades do nosso organismo, torna-se vital a variedade de alimentos na alimentação diária. E para um cardápio saudável se utiliza atualmente a Pirâmide Alimentar para orientação.
Cada nível da pirâmide corresponde a um grupo de alimentos: energéticos (carboidratos), reguladores (vitaminas, minerais e fibras), construtores (proteínas) e energéticos extras (em geral gorduras e doces).

Todas as porções, de acordo com cada grupo de alimentos, devem ser distribuídas durante o dia, compondo refeições como: café da manhã, lanches intermediários (manhã e tarde), almoço e jantar. E a substituição de cada alimento só deve ser feita em função do grupo a que ele pertence (conforme Pirâmide Alimentar), para manter o fornecimento praticamente dos mesmos nutrientes.

De forma mais simplista, chamamos a atenção para o prato colorido, que contempla a variedade de alimentos e do que eles são fontes.

Tem algum alimento que devamos evitar ou consumir moderadamente?
Algumas recomendações seriam para reduzir o consumo de determinados alimentos, por não agregarem um importante valor nutricional ou porque podem contribuir para a instalação de complicações de saúde, que prejudicarão no futuro, inclusive o sistema imune, como limitar a ingestão de calorias, diminuindo as gorduras e eliminando as gorduras TRANS sempre que possível (grande parte dos alimentos industrializados ainda possuem essa gordura na sua composição); limitar o consumo excessivo de produtos industrializados, porque geralmente possuem teores elevados de sal e gordura; limitar a ingestão de açúcares livres; reduzir o consumo de sal (sempre usar sal iodado) ou evitar o consumo de bebidas alcoólicas (calorias vazias).

Qual o papel da hidratação para a defesa do organismo?
A hidratação, como já comentado anteriormente, é vital para a manutenção da vida e para que ocorram as várias reações químicas no nosso organismo. A necessidade de reposição de água para um adulto está relacionada às perdas diárias e considerando variáveis como superfície corporal, idade, sexo, etc. Em média, um adulto necessita de cerca de 1,5 a 3,0 litros de água por dia, que pode ser água propriamente dita, além de sucos, caldos, sopas, chás.

É importante frisar que a hidratação é tão importante quanto a alimentação, para garantir a nossa sobrevivência, e nesse contexto está diretamente relacionado o nosso sistema imunológico.

Há vitaminas específicas para aumentar a imunidade? Quais?
As principais vitaminas para aumentar a imunidade podemos dizer que seriam as vitaminas A, E e C. A vitamina A tem um papel importante para a visão, pele, cabelo, crescimento, desenvolvimento de ossos e dentes, assim como no fortalecimento do sistema imunológico. As principais fontes desta vitamina são o fígado, óleos de peixes, ovos, vegetais folhosos verdes escuros, legumes e frutas amarelos ou verdes escuros como abóbora, batata-doce, cenoura, pimentão vermelho, manga.

A vitamina E é conhecida pela sua ação benéfica relativamente ao sistema reprodutor, assim como pelo bom funcionamento do tecido muscular e por um aumento da resistência às infecções. É conhecida também por ser antioxidante, que atua sobre radicais livres, evitando o envelhecimento. É encontrada principalmente nos óleos vegetais e sementes oleaginosas como nozes e avelãs.

Já a vitamina C traz muitos benefícios ao nosso organismo. Ela promove maior resistência a infecções, aumenta a absorção de ferro dos alimentos de origem vegetal, auxilia na cicatrização de ferimentos, além do poder antioxidante contra os radicais livres (substâncias que promovem o envelhecimento precoce e aumentam o risco de doenças cardíacas e alguns tipos de câncer). É possível encontrá-la em frutas como goiaba, acerola, caju, laranja, limão, tangerina, abacaxi, manga, morango, abacaxi, kiwi, e outras. Além dessas frutas temos os vegetais folhosos verdes, como espinafre, agrião, rúcula, alface, brócoli, além do tomate e pimentão. O mais importante é que o consumo da vitamina C seja diário, muito mais importante do que ingerir megadoses em períodos alternados, pois o organismo não faz estoque dessa vitamina. Ela é muito sensível ao calor e à luz e, por isso, o consumo de alimentos fonte dessa vitamina deve ocorrer logo após o preparo, principalmente frutas e sucos naturais.

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