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VITAMINAS EM CÂNCER Megadoses de vitaminas podem proteger contra o câncer?

Postado em 9 de abril de 2003

Muitos pacientes portadores de câncer tomam vitaminas em doses maciças por acreditarem que estes nutrientes possam auxiliar o sistema imune a combater a moléstia quando em megadosagem. Outra razão para este tipo de suplementação seriam a capacidade de algumas vitaminas de diminuir a toxicidade da quimio e radioterapia. Este tipo de associação com o tratamento convencional de câncer está se tornando muito popular, principalmente entre pacientes portadoras de câncer de mama. No entanto, não existem trabalhos controlados e bem delineados que tratem desta abordagem terapêutica de maneira independente.

Em um trabalho controlado com mulheres portadoras de câncer de mama tratadas somente com terapia oncológica convencional, pareadas com pacientes que receberam megadoses de polivitamínicos além do tratamento oncológico, o tempo livre de doença e estimativa de vida, curiosamente, foram menores no grupo tratado com vitaminas do que no grupo controle, que não recebeu vitaminas (1). Este resultado é contrastante com os usualmente sugeridos na literatura, mas levanta a hipótese de que megadoses vitamínicas possam interferir com a ação de quimioterápicos de última geração. A conduta de especialistas ortomoleculares, que freqüentemente lançam mão de megadoses de vitaminas deve, portanto, ser revista com cuidado no caso de pacientes portadores de câncer.

No entanto, quando avaliamos a ação de polivitamínicos sobre a carcinogênese, devemos analisar individualmente cada elemento componente. Num outro estudo caso-controle utilizando população de mulheres de Shangai, o risco de câncer de mama entre as que ingeriam grandes quantidades de folato foi menor do que entre as que ingeriam menor quantidade da vitamina. Essa relação inversa tornou-se mais intensa quando, além do folato, também metionina e vitaminas B6 e B12 eram ingeridas (2).

Recente trabalho de um grupo de Atlanta (3), do tipo coorte, analisando a associação de suplementação de vitamina C e E e a mortalidade por câncer de bexiga em mais de 900 mil pacientes mostrou que o uso de vitaminas por curto período (menos que 10 anos) não tem valor protetor. Em contrapartida, a suplementação por mais de 10 anos de vitamina E – e apenas desta vitamina – associou-se a menor risco de morte por esse tipo especifico de câncer.
Como se pode observar, é possível que a suplementação específica de algumas vitaminas atue de maneira protetora para alguns tipos de câncer. Mas certamente isso deve ser avaliado em estudos abrangentes antes de se considerar a prescrição de rotina de megadoses de vitamínicos, principalmente de multivitamínicos, para qualquer paciente portador de qualquer tipo de neoplasia. A recomendação de megadoses de vitaminas para prevenção do câncer, portanto, ainda não tem respaldo da evidência científica.

Angela Logullo Waitzberg
Patologista especialista pela Sociedade Brasileira de Anatomia Patológica, professora adjunta de Patologia da Universidade Federal de São Paulo ― Escola Paulista de Medicina, diretora do Laboratório Classe I de Anatomia Patológica e colaboradora do Nutritotal.

1) Lesperance ML, Olivotto IA, Forde N, Zhao Y, Speers C, Foster H, Tsao M, MacPherson N, Hoffer A. Mega-dose vitamins and minerals in the treatment of non-metastatic breast cancer: an historical cohort study. Breast Cancer Res Treat 2002;76(2):137-43.
Noventa mulheres com câncer de mama receberam megadoses de vitaminas e oligoelementos: beta-caroteno, vitamina C, niacina, selênio, conezima Q10 e zinco, além do tratamento padrão quimio e radioterápico. A sobrevida e a incidência de recorrência nessas pacientes foram comparadas com as de 90 controles pareados, constituídos de mulheres com câncer de mama tratadas da mesma forma, sem receber, contudo, a suplementação. Com um seguimento médio de 68 meses, o intervalo livre de doença e tempo de sobrevida foram menores no grupo que recebeu suplementação vitamínica do que no grupo controle. A razão de riscos (odds ratio) entre os dois grupos para sobrevida livre de doença foi de 1,75. A sobrevida global foi igual nos dois grupos. A suplementação de vitaminas em megadoses não protegeu as pacientes da morte por câncer ou de novas recorrências nem conferiu maior tempo livre de doença.

2) Shrubsole MJ, Jin F, Dai Q, Shu XO, Potter JD, Hebert JR, Gao YT, Zheng W. Dietary folate intake and breast cancer risk: results from the Shanghai Breast Cancer Study. Cancer Res 2001;61(19):7136-41.
Folato está envolvido com a síntese e metilação do DNA e, por isso, têm sido elaboradas hipóteses de que altas doses desta substância poderiam reduzir o risco de câncer em humanos. A maior ingestão de folato na dieta, entre as 1.300 mulheres estudadas neste trabalho, foi inversamente associada ao risco de câncer de mama. Associação inversa mais pronunciada foi encontrada entre as que ingeriam altas doses de co-fatores do folato, como metionina, vitamina B6 e B12. O estudo demonstra a ação protetora do folato contra o câncer de mama e mostra que a ingestão de metionina, vitaminas B6 e B12 pode contribuir para esse papel.

3) Jacobs EJ, Henion AK, Briggs PJ, Connell CJ, McCullough ML, Jonas CR, Rodriguez C, Calle EE, Thun MJ. Vitamin C and vitamin E supplement use and bladder cancer mortality in a large cohort of US men and women. Am J Epidemiol 2002;156(11):1002-10.
Alguns relatos na literatura sugerem que a vitamina C e E poderiam diminuir o risco de câncer de bexiga. Em um trabalho prospectivo, tipo coorte, sobre prevenção de câncer, envolvendo 991.522 adultos americanos, a taxa de mortalidade foi acompanhada de 1982 até 1998. A suplementação de vitaminas C e E por períodos curtos não se mostrou estatisticamente significante. O uso regular de vitamina C em intervalo menor que 10 anos não se associou às variáveis epidemiológicas. O uso de vitamina E regular por mais de 10 anos continuamente se associou com menor risco de morte por câncer de bexiga, sugerindo que este elemento, quando utilizado por longos períodos e regularmente, poderia reduzir o risco de mortalidade por câncer urinário.

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