As terapias com GLP-1 passaram a ocupar um papel central no debate global sobre o tratamento da obesidade, refletindo uma mudança de paradigma no cuidado dessa doença. Mas, a incorporação dessas inovações exige diretrizes claras que evitem o uso inadequado e o aprofundamento de desigualdades no acesso ao tratamento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece esse cenário e difunde que a obesidade não é apenas um fator de risco, mas uma condição clínica que exige acompanhamento contínuo e integrado. Por isso, o Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS desenvolveu uma diretriz inédita voltada ao uso seguro, eficaz e equitativo dessas terapias.
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A publicação enfatiza a centralidade da pessoa no cuidado, a abordagem ao longo do curso da vida, a integração com intervenções de estilo de vida e a importância de políticas públicas que posicionem as terapias com GLP-1 como parte de uma estratégia mais ampla no enfrentamento da obesidade.
Confira as recomendações da diretriz, a seguir.
Declarações e recomendações da OMS para o tratamento da obesidade com terapias com GLP-1
A diretriz da OMS foi desenvolvida com base em evidências científicas e com a participação de pessoas que vivem com obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis. No documento são apresentadas 2 declarações de boas práticas e 2 recomendações condicionais:
Declarações de boas práticas para terapias com GLP-1
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Cuidados ao longo da vida
A diretriz reforça que a obesidade é uma doença crônica complexa que requer cuidados ao longo da vida começando com a avaliação clínica e o diagnóstico precoce.
É preciso:
- Garantir o acesso a programas abrangentes de cuidados crônicos;
- Oferecer intervenções comportamentais e de estilo de vida contínuas;
- Utilizar, quando apropriado, opções farmacológicas, cirúrgicas ou outras terapias para auxiliar no manejo eficaz da doença;
- Abordar nos cuidados a prevenção e o tratamento de complicações e comorbidades relacionadas à obesidade.
Aconselhamento sobre mudanças comportamentais e de estilo de vida
O aconselhamento adequado ao contexto da pessoa com obesidade sobre mudanças comportamentais e de estilo de vida, incluindo, atividade física e práticas alimentares saudáveis, assim como orientações sobre estilo de vida, devem ser a intervenção inicial no cuidado, especialmente para pacientes que recebem prescrição de agonistas do receptor GLP-1 ou agonistas duplos de GIP/GLP-1.
Essa conduta visa ampliar e apoiar os melhores resultados de saúde.
Recomendações condicionais para terapias com GLP-1
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Tratamento farmacológico a longo prazo
A partir de ensaios clínicos randomizados com duração entre 26 e 240 semanas, liraglutida, semaglutida e tirzepatida foram avaliados no tratamento de adultos com obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²) e demonstraram que os agonistas do receptor GLP-1 ou agonistas duais GIP/GLP-1 podem ser utilizados como tratamento de longo prazo da obesidade.
O tratamento a longo prazo refere-se ao uso contínuo de um medicamento por seis meses ou mais, conforme as diretrizes regulamentares vigentes. Contudo, a recomendação é condicional devido a dados limitados de longo prazo (maior certeza da evidência para estudos com seguimento inferior a 24 meses), incertezas sobre interrupção do tratamento e possíveis impactos sobre equidade e sustentabilidade.
Vale destacar que os ensaios clínicos utilizados nessa recomendação não incluíram indivíduos com IMC entre 27 e 29,9 kg/m².
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Terapias comportamentais intensivas como cointervenção
Em adultos com obesidade em uso de agonistas do receptor GLP-1 ou agonistas duais GIP/GLP-1, a terapia comportamental intensiva pode ser oferecida como cointervenção.
As terapias comportamentais intensivas caracterizaram-se nos estudos pela definição de metas para alimentação e atividade física, restrição de ingestão energética, sessões regulares de aconselhamento (geralmente semanais, 30–45 minutos) e avaliação periódica do alcance das metas, sendo observados pequenos a moderados benefícios adicionais sobre a perda de peso em pacientes usando terapias com GLP-1.
Essa recomendação também é condicional porque a evidência ainda é baixa devido à ausência de dados de longo prazo e poucos estudos.
O que podemos concluir?
Alinhando evidências sobre o uso de inovações farmacológicas, como as terapias com GLP-1, e princípios sólidos de cuidado crônico, a OMS desenvolveu uma diretriz responsável que reconhece os benefícios clínicos desses fármacos, sem desconsiderar suas limitações, incertezas e impactos sistêmicos.
Para nutricionistas e demais profissionais da saúde, a mensagem é clara: as terapias com GLP-1 não devem ser compreendidas como soluções isoladas ou substitutas das intervenções de estilo de vida, mas como ferramentas complementares dentro de estratégias multimodais e contínuas de cuidado.
A condicionalidade das recomendações reforça a necessidade de avaliação clínica criteriosa, acompanhamento longitudinal, monitoramento de efeitos adversos e diálogo qualificado com o paciente sobre expectativas, riscos e benefícios do tratamento.
Para ler a diretriz completa, clique aqui.
Manter-se atualizado nas recomendações institucionais é imprescindível na área da saúde! O que acha de conferir esses outros conteúdos?:
- Tratamento farmacológico da obesidade: posicionamento SBEM e Abeso
- Diretriz brasileira para manejo da obesidade e prevenção de doenças cardiovasculares
- Consenso internacional sobre nutrição e terapia com GLP-1
Referência
WHO guideline on the use of glucagon-like peptide-1 (GLP-1) therapies for the treatment of obesity in adults. Geneva: World Health Organization; 2025. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.
