Recusar uma fatia de bolo na festa de aniversário do filho, declinar o almoço de domingo em família, evitar determinados restaurantes… Para milhares de brasileiros com intolerância à lactose, essas situações fazem parte do cotidiano.
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A intolerância à lactose tem consequências que vão além do intestino. Compreender seu mecanismo com precisão e conhecer as ferramentas terapêuticas disponíveis pode fazer uma diferença significativa na qualidade de vida dos seus pacientes.
Lactase, lactose e o mecanismo da intolerância
A lactose é um dissacarídeo composto por glicose e galactose, presente no leite e seus derivados. Para ser absorvida, precisa ser hidrolisada pela lactase-florizina hidrolase, enzima expressa pelos enterócitos do intestino delgado.
A intolerância à lactose é uma condição clínica caracterizada por sintomas atribuíveis à má absorção da lactose. Isso pode ser causado por uma atividade ou síntese reduzida/ausente da lactase, que leva à fermentação da lactose pelo microbioma colônico e consequente produção de gases.
Os sintomas típicos incluem dor abdominal, inchaço, flatulência, diarreia, náuseas e vômitos. Em média, seu início ocorre cerca de uma hora após a ingestão de alimentos que contêm lactose.
A gravidade dos sintomas é subjetiva e depende de diversos fatores. Estes incluem a concentração de lactase presente na mucosa intestinal, a microbiota intestinal, a quantidade de lactose ingerida, a motilidade gastrointestinal e a sensibilidade individual. Os sintomas geralmente aparecem quando a porcentagem de atividade da lactase é inferior a 50%.
Deficiência de lactase vs. intolerância percebida: uma distinção importante
Um ponto frequentemente negligenciado na prática clínica é que deficiência de lactase e intolerância à lactose não são sinônimos. A deficiência refere-se à redução enzimática objetiva; já a intolerância, ao conjunto de sintomas que ela pode (ou não) provocar.
Em outras palavras, os pacientes podem apresentar má absorção objetiva sem desenvolver sintomas relevantes, assim como relatar sintomas típicos sem apresentar alteração significativa na absorção de lactose.
Estima-se que a má absorção de lactose afete cerca de 70% da população mundial, embora o número de indivíduos diagnosticados com intolerância ainda seja baixo.
Atualmente, o teste respiratório de H2-lactose representa o padrão ouro para o diagnóstico da má absorção de lactose. O teste detecta o pico de excreção de hidrogênio no ar expirado durante um período após a administração oral de uma solução aquosa contendo lactose, indicando a fermentação da lactose mal absorvida pela microbiota colônica.
Um estudo com 580 pacientes demonstrou que a percepção subjetiva de intolerância foi associada a maiores restrições alimentares do que a própria malabsorção objetiva confirmada pelo teste diagnóstico, além de uma pior qualidade de vida.
Nesse estudo, 56% dos participantes se consideravam intolerantes, e essa autopercepção levou 55% deles a evitar completamente laticínios (em comparação com apenas 9% dos que se consideravam tolerantes).
Isso significa que muitos pacientes restringem a dieta desnecessariamente, com consequências nutricionais sérias: menor ingestão de cálcio, vitamina D e proteínas, além do maior risco de osteoporose a longo prazo.
Vale ressaltar que, atualmente, não é mais recomendado adotar uma dieta sem laticínios em pacientes com intolerância à lactose. Os laticínios são uma importante fonte de cálcio, proteínas, minerais, ácidos graxos poli-insaturados e outras substâncias que ajudam a prevenir certas doenças e desempenham diversas funções fisiológicas, como a remodelação óssea.
O impacto real no dia a dia
A intolerância à lactose não é apenas um problema digestivo. Em um estudo italiano com mais de 2.000 pacientes, 68,9% relataram impacto moderado a forte na esfera psicossocial e 59,7% afirmaram que a condição afeta seu desempenho no trabalho ou nos estudos.
O atraso no diagnóstico também é parte do problema. Mais de 40% dos participantes desse mesmo estudo aguardaram mais de dois anos entre o surgimento dos primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo. Nesse período, muitos fazem uso indiscriminado de antidiarreicos, antiácidos e fármacos para dor abdominal, além de adotarem dietas restritivas sem acompanhamento profissional.
Além disso, ansiedade, depressão e fadiga são encontradas em uma alta porcentagem de indivíduos intolerantes. Em alguns casos, um transtorno alimentar pode ser desenvolvido, pois o paciente reduz significativamente a ingestão de alimentos para evitar o sofrimento.
Por fim, situações corriqueiras, como comer fora, participar de eventos e viajar tornam-se fontes de preocupação. Pacientes tendem a evitar contextos sociais nos quais não têm controle sobre os ingredientes.
O papel estratégico da enzima lactase
Diante desse cenário, o uso da lactase exógena representa uma das estratégias terapêuticas mais diretas e bem fundamentadas. O princípio é simples: fornecer a enzima que o organismo não produz em quantidade suficiente, permitindo a digestão adequada da lactose.
A lactase exógena pode ser obtida de leveduras (Kluyveromyces lactis) ou fontes fúngicas (Aspergillus oryzae e Aspergillus niger). Ela é comercializada em formas orais (cápsulas, comprimidos, líquidos), sendo ingerida junto às refeições que contêm lactose.
Ensaios clínicos demonstraram redução da excreção de hidrogênio expirado e melhora dos sintomas gastrointestinais com o uso da enzima. Em um estudo randomizado, o uso da lactase foi superior ao probiótico Lactobacillus reuteri tanto na redução de H₂ expirado quanto na melhora de dor abdominal, flatulência, distensão e diarreia.
Do ponto de vista prático, isso representa um ganho de autonomia considerável. O paciente que conta com suporte enzimático pode consumir laticínios em situações sociais sem planejamento excessivo. No dia a dia, isso se traduz em participação em festas, refeições em restaurantes, viagens e eventos sem a ansiedade de escolher à risca o que comer.
Outras estratégias complementares
A utilização de enzimas pode ser combinada a outras abordagens:
- Ingestão moderada de lactose: muitos pacientes toleram até 12 a 15 g de lactose por dia, especialmente quando ingerida com outros alimentos.
- Queijos maturados: ao contrário dos queijos frescos, os queijos maturados contêm quantidades mínimas de lactose, pois as bactérias consomem o açúcar durante o processo de maturação.
- Produtos sem lactose: oferecem perfil nutricional semelhante aos convencionais e são uma alternativa viável.
- Probióticos e prebióticos: podem modular a microbiota e reduzir sintomas, embora o efeito seja mais variável entre indivíduos.
Implicações para a prática clínica
Na intolerância à lactose, a orientação de simplesmente “cortar laticínios” ainda é frequente. Além de potencialmente desnecessária em muitos casos, essa conduta pode levar a deficiências nutricionais importantes, com repercussões a médio e longo prazo – tal como as alterações na massa óssea e metabolismo mineral.
A abordagem mais precisa inclui confirmar o diagnóstico com testes objetivos, diferenciar malabsorção de intolerância sintomática, e oferecer estratégias individualizadas, entre as quais a utilização da lactase ocupa um lugar central – seja pelo seu mecanismo de ação direto, seja pelo respaldo científico.
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- Intolerância à lactose: condução de caso clínico
- Intolerância à lactose: como diagnosticar?
- Má digestão, má absorção e intolerância à lactose: qual é o tratamento atual e perspectivas futuras?
Referências
Catanzaro R, Sciuto M, Marotta F. Lactose intolerance: An update on its pathogenesis, diagnosis, and treatment. Nutr Res. 2021;89:23–34. doi:10.1016/j.nutres.2021.02.003
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