A nova Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose apresenta evidências atualizadas sobre avaliação, prevenção e manejo das alterações lipídicas em todas as fases da vida e para todos os profissionais da saúde envolvidos nesse cuidado.
O Brasil ainda é um país onde a Doença Cardiovascular Aterosclerótica (DCVA) permanece como causa líder de morbimortalidade e que frequentemente se manifesta ao menos uma década mais cedo do que em países de alta renda. Por isso, compreender o risco ao longo do curso de vida, reconhecer fatores agravantes e aplicar estratégias eficazes para prevenção é indispensável ao profissional da nutrição.
Esse documento é uma ferramenta útil para a aplicação de intervenções de estilo de vida, de alimentação e reforça a necessidade do acompanhamento contínuo como pilar para prevenção, especialmente diante do crescimento de fatores de risco como a obesidade, diabetes e dislipidemias na população brasileira.
Confira a seguir as informações essenciais e condutas nutricionais prioritárias apresentadas nessa nova diretriz:
Fonte: Canva
Dislipidemias nos ciclos de vida
Um importante aspecto dessa diretriz é a recomendação de uma abordagem precoce na investigação de risco cardiovascular. O documento orienta ações de acordo com 3 fases, sendo:
Fase precoce: infância e adolescência
Na infância e adolescência deve-se avaliar dislipidemias genéticas (como a hipercolesterolemia familiar), identificar aquelas em risco alto ou moderado e priorizar condutas de mudança de estilo de vida saudável, oferecendo um tratamento individualizado.
Fase intermediária: jovens adultos à meia-idade
Nessa fase é frequente a presença de aterosclerose subclínica, detectável por métodos de imagem (por exemplo, ultrassonografia de carótidas). Deve-se identificar fatores e agravantes de risco e promover intervenção precoce e intensiva, com mudanças no estilo de vida e, quando necessário, terapia farmacológica para interromper a progressão da doença e reduzir o risco de eventos cardiovasculares maiores ao longo da vida
Fase tardia: idosos e pacientes com doença clínica estabelecida
Nos idosos, o uso de escala de fragilidade, avaliação de comorbidades e interação medicamentosa é fundamental. A presença de doença aterosclerótica, manifesta como
infarto agudo do miocárdio, AVC ou doença arterial periférica, leva a necessidade de tratamento intensivo e metas terapêuticas agressivas, especialmente no controle da
dislipidemia.
Nessa fase, deve-se dar ênfase aos indivíduos com maior risco cardiovascular
dentro do contínuo e na redução da recorrência de eventos cardiovasculares.
Classificação de risco cardiovascular aterosclerótico
O risco cardiovascular é uma variável contínua, contudo, com o objetivo de facilitar a decisão clínica, a diretriz orienta que ele seja categorizado em baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo a partir de alguns fatores, sendo:
| Categoria de risco | Características |
| Baixo |
|
| Intermediário |
|
| Alto |
|
| Muito alto |
|
| Extremo |
|
*Os escores de risco cardiovascular são utilizados para estimar risco de evento cardiovascular em determinado prazo de tempo. Contudo, o Brasil ainda não dispõe de um escore baseado nos dados da nossa população, por isso, a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 recomenda o uso do escore PREVENT desenvolvido nos Estados Unidos e que pode ser acessado aqui.
** História familiar de doença cardiovascular prematura, adiposidade e suas manifestações, condições inflamatórias crônicas, transplante de órgãos, menarca precoce (≤ 12 anos) ou tardia (≥ 17 anos), distúrbios durante a gestação (pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional), parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino, abortos de repetição (≥ 3 perdas gestacionais espontâneas), menopausa precoce (< 40 anos), Lipoproteína(a) ≥ 50 mg/dL e proteína C-reativa ultrassensível ≥ 2,0 mg/L.
O que mudou nas dislipidemias e o que o nutricionista precisa dominar
As dislipidemias são caracterizadas por uma queda nos níveis de colesterol da lipoproteína de alta densidade (HDL-c) e um aumento nos níveis de colesterol não HDL (não-HDL-c) e
altos níveis de triglicérides. Por isso, entre as principais recomendações da nova diretriz está a utilização do colesterol não-HDL (não-HDL-c) para a avaliação do risco cardiovascular.
A dosagem de colesterol não-HDL, assim como a de LDL-c, é particularmente útil na estimativa da quantidade de lipoproteínas aterogênicas circulantes em indivíduos com triglicérides > 150 mg/dL. Inclusive, agora deve-se considerar o encaminhamento médico para a indicação de tratamento farmacológico se LDL-c estiver persistindo ≥ 145 mg/dL, mesmo em indivíduos de baixo risco.
Confira abaixo um resumo das metas terapêuticas lipídicas conforme risco cardiovascular:
| Categoria de Risco Cardiovascular (RCV) | Meta de LDL-c (Colesterol de Baixa Densidade) | Meta de Não-HDL-c (Colesterol Não-HDL) |
| Extremamente Elevado | < 40 mg/dL | < 70 mg/dL |
| Muito Alto | < 50 mg/dL | < 80 mg/dL |
| Alto | < 70 mg/dL | < 100 mg/dL |
| Intermediário | < 100 mg/dL | < 130 mg/dL |
| Baixo | < 115 mg/dL | < 145 mg/dL |
Em todos os indivíduos, especialmente naqueles com níveis de LDL-c ou não-HDL-c acima da meta, recomenda-se a favor de intervenções em medidas de estilo de vida. E em casos de risco cardiovascular alto, muito alto ou extremo, recomenda-se a terapia farmacológica associada a medidas de estilo de vida.
Intervenção: o que cabe ao nutricionista?
A diretriz recomenda que seja feita uma abordagem mais qualitativa e não quantitativa de macronutrientes para a prevenção e tratamento das dislipidemias e aterosclerose. Deve-se priorizar a recomendação de padrões alimentares minimamente processados e ricos em fibras e a redução do consumo de açúcares adicionados e carboidratos refinados.
Resumidamente a diretriz apresenta:
| Recomendações dietéticas para o tratamento das dislipidemias | % do valor calórico total (VCT) |
| Gorduras totais | 20-35% |
| Gorduras saturadas | < 7% |
| Gorduras trans | 0 |
| Ácidos graxos monoinsaturados | 15% |
| Ácidos graxos poli-insaturados | 5-10% |
| Fibras | 25g/dia |
| Carboidratos | 50-55% |
No documento também é orientado o controle de peso para promover a melhora do perfil lipídico. A redução de 5 a 10% de peso em 1 ano foi associada a uma redução de 40 mg/dL de triglicerídeos e a um aumento no HDL-c de 5 mg/dL, enquanto a redução no LDL-c foi modesta e não estatisticamente significativa.
O uso de alimentos funcionais e suplementos se encaixa na diretriz como uma estratégia adicional e de evidência moderada, contudo, a partir de suas experiências clínicas, o nutricionista pode decidir incluir ou não. A diretriz cita:
- Proteína de soja
- Fitoesteróis
- Chá verde
- Probióticos
- Arroz de levedura vermelha
- Óleo de peixe
Para apoiar a redução de índices lipídicos indesejados, além dessas recomendações, a diretriz apresenta orientações quanto às mudanças de estilo de vida para melhorar o perfil lipídico. E, apesar de não ser um papel exclusivo do nutricionista, é de extrema importância que ele considere essas recomendações para uma abordagem holística e eficaz no cuidado do paciente, sendo elas:
- Cessação do tabagismo para reduzir o risco cardiovascular.
- Abordagem de espiritualidade e religiosidade na consulta pelo seu impacto positivo na saúde cardiovascular.
- Atividade física para reduzir o risco cardiovascular e promover melhorias no perfil lipídico, como o aumento de HDL-c e redução dos triglicérides.
- Recomenda-se para todos os adultos pelo menos 150 minutos por semana de atividade física aeróbica de intensidade moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa, podendo-se combinar ambas para maior benefício.
- Não ingestão de álcool com o objetivo de prevenir ou tratar a aterosclerose.
Aplicar essas recomendações no consultório significa atuar diretamente na redução de eventos cardiovasculares, na melhora da qualidade de vida e na construção de uma trajetória de cuidado mais efetiva e personalizada para cada paciente.
Confira a diretriz completa, aqui.
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Referência
Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, Zimerman A, Cesena FHY, Sposito AC., et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640.
