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Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025

Dislipidemias

Fonte: Canva

A nova Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose apresenta evidências atualizadas sobre avaliação, prevenção e manejo das alterações lipídicas em todas as fases da vida e para todos os profissionais da saúde envolvidos nesse cuidado.

O Brasil ainda é um país onde a Doença Cardiovascular Aterosclerótica (DCVA) permanece como causa líder de morbimortalidade e que frequentemente se manifesta ao menos uma década mais cedo do que em países de alta renda. Por isso, compreender o risco ao longo do curso de vida, reconhecer fatores agravantes e aplicar estratégias eficazes para prevenção é indispensável ao profissional da nutrição.

Esse documento é uma ferramenta útil para a aplicação de intervenções de estilo de vida, de alimentação e reforça a necessidade do acompanhamento contínuo como pilar para prevenção, especialmente diante do crescimento de fatores de risco como a obesidade, diabetes e dislipidemias na população brasileira.

Confira a seguir as informações essenciais e condutas nutricionais prioritárias apresentadas nessa nova diretriz:

Fonte: Canva

Dislipidemias nos ciclos de vida

Um importante aspecto dessa diretriz é a recomendação de uma abordagem precoce na investigação de risco cardiovascular. O documento orienta ações de acordo com 3 fases, sendo:

Fase precoce: infância e adolescência

Na infância e adolescência deve-se avaliar dislipidemias genéticas (como a hipercolesterolemia familiar), identificar aquelas em risco alto ou moderado e priorizar condutas de mudança de estilo de vida saudável, oferecendo um tratamento individualizado.

Fase intermediária: jovens adultos à meia-idade

Nessa fase é frequente a presença de aterosclerose subclínica, detectável por métodos de imagem (por exemplo, ultrassonografia de carótidas). Deve-se identificar fatores e agravantes de risco e promover intervenção precoce e intensiva, com mudanças no estilo de vida e, quando necessário, terapia farmacológica para interromper a progressão da doença e reduzir o risco de eventos cardiovasculares maiores ao longo da vida

Fase tardia: idosos e pacientes com doença clínica estabelecida

Nos idosos, o uso de escala de fragilidade, avaliação de comorbidades e interação medicamentosa é fundamental. A presença de doença aterosclerótica, manifesta como

infarto agudo do miocárdio, AVC ou doença arterial periférica, leva a necessidade de tratamento intensivo e metas terapêuticas agressivas, especialmente no controle da

dislipidemia. 

Nessa fase, deve-se dar ênfase aos indivíduos com maior risco cardiovascular

dentro do contínuo e na redução da recorrência de eventos cardiovasculares.

Classificação de risco cardiovascular aterosclerótico

O risco cardiovascular é uma variável contínua, contudo, com o objetivo de facilitar a decisão clínica, a diretriz orienta que ele seja categorizado em baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo a partir de alguns fatores, sendo:

Categoria de risco Características
Baixo
  • Escore de risco calculado < 5% em 10 anos*
  • Ausência de agravantes de risco**
  • Ausência de DM2
Intermediário
  • Escore de risco calculado 5 a < 20% em 10 anos, na ausência de agravantes de risco
  • Risco calculado baixo (< 5% em 10 anos) com presença de agravante de risco
  • DM2 com < 50 anos homem, < 56 anos mulher, sem estratificadores de risco
  • LDL-c > 160-189 mg/dL
Alto
  • Escore de risco calculado ≥ 20% em 10 anos
  • Pacientes classificados como risco intermediário, com presença de fator agravante de risco
  • Portadores de aterosclerose subclínica: placa carotídea < 50%; Escore de cálcio coronariano > 100 UA ou percentil > 75; placas ateroscleróticas na angiotomografia de coronárias < 50%; aneurisma de aorta abdominal.
  • LDL-c ≥ 190 mg/dL
  • DM2 homem ≥ 50 anos, mulher ≥ 56 anos, 1 ou 2 EAR, sem estratificadores de muito alto risco
  • Lipoproteína(a) > 180 mg/dL
Muito alto
  • Doença aterosclerótica significativa (coronária, cerebrovascular ou vascular periférica com obstrução ≥ 50%) ou evento aterosclerótico cardiovascular prévio manifesto
  • Escore de cálcio coronariano > 300 UA
  • DM2 com estratificadores de muito alto risco ou 3 ≥ estratificadores de risco
Extremo
  • Histórico de múltiplos eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores ou um evento cardiovascular aterosclerótico maior (síndrome coronária aguda nos últimos 12 meses, histórico de infarto do miocárdio, histórico de AVC isquêmico, doença arterial periférica sintomática)
  • + 2 ou mais condições de alto risco (idade ≥ 65 anos, hipercolesterolemia familiar, histórico de cirurgia de revascularização do miocárdio anterior ou intervenção coronária percutânea fora dos eventos cardiovasculares ateroscleróticos maiores,  DM, hipertensão arterial, doença renal crônica, tabagismo atual, LDL-c persistentemente elevado (≥ 100 mg/dL) mesmo em uso de estatina em dose máxima tolerada e ezetimiba, evento agudo aterosclerótico com menos de 2 anos)

*Os escores de risco cardiovascular são utilizados para estimar risco de evento cardiovascular em determinado prazo de tempo. Contudo, o Brasil ainda não dispõe de um escore baseado nos dados da nossa população, por isso, a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025 recomenda o uso do escore PREVENT desenvolvido nos Estados Unidos e que pode ser acessado aqui.

** História familiar de doença cardiovascular prematura, adiposidade e suas manifestações, condições inflamatórias crônicas, transplante de órgãos, menarca precoce (≤ 12 anos) ou tardia (≥ 17 anos), distúrbios durante a gestação (pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional), parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino, abortos de repetição (≥ 3 perdas gestacionais espontâneas), menopausa precoce (< 40 anos), Lipoproteína(a) ≥ 50 mg/dL e proteína C-reativa ultrassensível ≥ 2,0 mg/L.

O que mudou nas dislipidemias e o que o nutricionista precisa dominar

As dislipidemias são caracterizadas por uma queda nos níveis de colesterol da lipoproteína de alta densidade (HDL-c) e um aumento nos níveis de colesterol não HDL (não-HDL-c) e

altos níveis de triglicérides. Por isso, entre as principais recomendações da nova diretriz está a utilização do colesterol não-HDL (não-HDL-c) para a avaliação do risco cardiovascular.

A dosagem de colesterol não-HDL, assim como a de LDL-c, é particularmente útil na estimativa da quantidade de lipoproteínas aterogênicas circulantes em indivíduos com triglicérides > 150 mg/dL. Inclusive, agora deve-se considerar o encaminhamento médico para a indicação de tratamento farmacológico se LDL-c estiver persistindo ≥ 145 mg/dL, mesmo em indivíduos de baixo risco.

Confira abaixo um resumo das metas terapêuticas lipídicas conforme risco cardiovascular:

Categoria de Risco Cardiovascular (RCV) Meta de LDL-c (Colesterol de Baixa Densidade) Meta de Não-HDL-c (Colesterol Não-HDL)
Extremamente Elevado < 40 mg/dL < 70 mg/dL
Muito Alto < 50 mg/dL < 80 mg/dL
Alto < 70 mg/dL < 100 mg/dL
Intermediário < 100 mg/dL < 130 mg/dL
Baixo < 115 mg/dL < 145 mg/dL

 

Em todos os indivíduos, especialmente naqueles com níveis de LDL-c ou não-HDL-c acima da meta, recomenda-se a favor de intervenções em medidas de estilo de vida. E em casos de risco cardiovascular alto, muito alto ou extremo, recomenda-se a terapia farmacológica associada a medidas de estilo de vida.

Intervenção: o que cabe ao nutricionista?

A diretriz recomenda que seja feita uma abordagem mais qualitativa e não quantitativa de macronutrientes para a prevenção e tratamento das dislipidemias e aterosclerose. Deve-se priorizar a recomendação de padrões alimentares minimamente processados e ricos em fibras e a redução do consumo de açúcares adicionados e carboidratos refinados.

Resumidamente a diretriz apresenta:

Recomendações dietéticas para o tratamento das dislipidemias % do valor calórico total (VCT) 
Gorduras totais  20-35%
Gorduras saturadas  < 7%
Gorduras trans 0
Ácidos graxos monoinsaturados 15%
Ácidos graxos poli-insaturados 5-10%
Fibras 25g/dia
Carboidratos 50-55%

 

No documento também é orientado o controle de peso para promover a melhora do perfil lipídico. A redução de 5 a 10% de peso em 1 ano foi associada a uma redução de 40 mg/dL de triglicerídeos e a um aumento no HDL-c de 5 mg/dL, enquanto a redução no LDL-c foi modesta e não estatisticamente significativa.

O uso de alimentos funcionais e suplementos se encaixa na diretriz como uma estratégia adicional e de evidência moderada, contudo, a partir de suas experiências clínicas, o nutricionista pode decidir incluir ou não. A diretriz cita:

Para apoiar a redução de índices lipídicos indesejados, além dessas recomendações,  a diretriz apresenta orientações quanto às mudanças de estilo de vida para melhorar o perfil lipídico. E, apesar de não ser um papel exclusivo do nutricionista, é de extrema importância que ele considere essas recomendações para uma abordagem holística e eficaz no cuidado do paciente, sendo elas:

Aplicar essas recomendações no consultório significa atuar diretamente na redução de eventos cardiovasculares, na melhora da qualidade de vida e na construção de uma trajetória de cuidado mais efetiva e personalizada para cada paciente.

Confira a diretriz completa, aqui.

Baixe agora um resumo das metas terapêuticas para dislipidemias e das recomendações dietéticas!

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Referência

Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, Zimerman A, Cesena FHY, Sposito AC., et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640.

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