A dispepsia funcional (DF) é um dos distúrbios gastroduodenais mais prevalentes na prática clínica, respondendo por mais de 70% dos casos de dispepsia no mundo, com prevalência global estimada entre 11% e 30%. No consultório, pacientes com DF podem representar boa parte das consultas, e o quadro é mais comum no sexo feminino.
Apesar de tão frequente, a DF ainda desafia profissionais de saúde. Sua fisiopatologia é heterogênea, multifatorial, e a resposta às terapias disponíveis costuma ser parcial.
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Um ponto-chave, muitas vezes pouco explorado na prática, é que os sintomas da DF podem refletir diferentes desequilíbrios no processo digestivo. Reconhecer essas diferenças permite construir uma conduta mais racional.
Dispepsia funcional: classificação e fisiopatologia
A DF é classificada em dois subtipos principais, que frequentemente se sobrepõem:
- Síndrome do desconforto pós-prandial: caracterizada por empachamento após refeições habituais, saciedade precoce, distensão do abdome superior;
- Síndrome da dor epigástrica: caracterizada por dor ou queimação epigástrica, em jejum ou associada à alimentação
Cerca de 35% dos pacientes apresentam sobreposição dos dois quadros.
A fisiopatologia envolve múltiplos fatores interligados, incluindo hipersensibilidade visceral, disfunção motora gástrica (esvaziamento acelerado ou retardado), alteração da acomodação do fundo gástrico, dismotilidade gastroduodenal, agressão associada ao H. pylori e fatores psicossociais, como ansiedade e depressão.
Entre esses mecanismos, a deficiência transitória de enzimas digestivas é apontada como um dos fatores contribuintes, ainda que sua real participação na etiopatogenia não esteja totalmente esclarecida.
Insuficiência enzimática e o desequilíbrio intestinal
Quando a produção ou a atividade das enzimas digestivas está reduzida, carboidratos, proteínas e gorduras não são adequadamente fracionados no trato digestivo superior.
Como consequência, temos a chegada de substratos parcialmente digeridos a segmentos mais distais, onde passam a ser fermentados pela microbiota, gerando gases (metano, hidrogênio, dióxido de carbono) e sintomas como distensão, cólicas e desconforto abdominal.
Diversos fatores podem levar à inadequação ou deficiência enzimática:
- Disfunção de órgãos digestivos;
- Doenças de mucosa e cirurgias gastrointestinais;
- Hábitos como mastigação insuficiente e comer com pressa;
- Consumo excessivo de álcool, carboidratos refinados, gorduras e dietas pobres em alimentos crus;
- O próprio envelhecimento, pois a secreção enzimática tende a declinar a partir da terceira e quarta décadas de vida.
O equilíbrio intestinal depende diretamente da relação entre a capacidade digestiva disponível e a carga de substratos a ser processada. Quando essa relação se rompe, os sintomas da dispepsia aparecem.
O que dizem as evidências sobre o suporte enzimático?
Diferentes estudos avaliaram o suporte enzimático em pacientes com DF.
Uma revisão reuniu diversos estudos sobre combinações enzimáticas em pacientes com DF (A). Em um deles, com 100 pacientes, uma combinação de diastase fúngica e papaína reduziu plenitude, eructação, distensão e flatulência já em 14 dias. Outro estudo testou uma combinação de amilase, protease, lipase, lactase e alfa-galactosidase e observou melhora significativa em todos os sintomas abdominais avaliados.
Em um estudo multicêntrico, randomizado e controlado por placebo, uma combinação de extrato enzimático de Aspergillus oryzae (celulase, protease e amilase) e pancreatina (lipase, protease e amilase) reduziu significativamente o índice de gravidade da dispepsia, com taxa de eficácia de 90% versus 22% no grupo placebo.
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido com 40 pacientes, avaliou um complexo multienzimático (protease, amilase, lipase, lactase e celulase, entre outras) por 60 dias e observou melhora significativa em todos os desfechos de eficácia avaliados (questionários de sintomas dispépticos, qualidade de vida, dor e impressão clínica global), sem eventos adversos.
Resultado semelhante foi observado em um ensaio clínico monocêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 120 participantes, que testou uma combinação multienzimática obtida por fermentação fúngica (protease, amilase, lipase, celulase e lactase) por dois meses.
Houve melhora significativa da qualidade de vida e da dor no grupo tratado em comparação ao placebo, além de melhora na qualidade do sono, sugerindo que o alívio dos sintomas digestivos pode repercutir em outros domínios de bem-estar.
Dispepsia funcional: manejo e tomada de decisão clínica
Diante da heterogeneidade da DF, nenhum fármaco isolado costuma ser suficiente para todos os pacientes. Portanto, surge a recomendação de terapias que atuem em mais de um mecanismo simultaneamente.
As medidas gerais permanecem a base do manejo: ajustes de estilo de vida, redução de alimentos gordurosos, frituras, condimentos, café e álcool, além de evitar refeições volumosas e o tabagismo.
Do ponto de vista farmacológico, antissecretores, procinéticos, antiácidos, antiflatulentos, analgésicos viscerais, auxiliares da digestão e antidepressivos fazem parte do arsenal terapêutico, escolhidos conforme o predomínio de sintomas.
Nesse cenário, o suporte enzimático se posiciona como uma estratégia complementar, sobretudo quando há sinais de má digestão associados à queixa dispéptica.
De qualquer forma, tratar a dispepsia funcional é um caminho para condutas pouco assertivas. Investigar o papel da insuficiência digestiva no equilíbrio intestinal do paciente é uma forma de tornar a conduta mais precisa, personalizada e alinhada às evidências disponíveis.
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Referências
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