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Sinergia enzimática: lactase, alfa-galactosidase e protease juntas

sinergia enzimática

Não é incomum o profissional de nutrição atender pacientes que relatam desconforto após refeições mistas: inchaço depois do feijão, gases após o queijo, ou a sensação de estufamento depois de uma refeição rica em proteína. Isoladamente, cada um desses sintomas remete a um substrato diferente: os oligossacarídeos fermentáveis das leguminosas, a lactose dos laticínios e as proteínas de digestão mais lenta.

Diante desse cenário, uma pergunta se torna cada vez mais frequente na prática clínica: faz sentido utilizar uma única enzima, ou a resposta pode estar em combiná-las?

Por que pensar em combinação, e não em enzima isolada?

A utilização de uma enzima isolada é adequada quando a queixa está claramente associada a um único substrato, como na intolerância à lactose. Entretanto, a rotina clínica mostra um cenário frequente: pacientes com sintomas gastrointestinais multifatoriais podem não apresentar resposta completa quando diferentes substratos alimentares contribuem simultaneamente para os sintomas

De fato, estudos apontam que o paciente médio com síndrome do intestino irritável (SII) é sensível, em média, a 2,5 grupos de FODMAPs, e não a apenas um. Isso ajuda a explicar por que intervenções direcionadas a apenas um substrato nem sempre controlam completamente os sintomas.

O que sustenta a combinação lactase + alfa-galactosidase + protease?

Do ponto de vista fisiológico, essas três enzimas cobrem mecanismos distintos de geração de sintomas pós-prandiais:

– A lactase hidrolisa a lactose, evitando sua fermentação colônica e o consequente aumento de conteúdo luminal e distensão;

– A alfa-galactosidase degrada oligossacarídeos fermentáveis presentes em leguminosas e vegetais, reduzindo a produção de gás intestinal;

– E a protease auxilia na digestão de proteínas, contribuindo para menor desconforto epigástrico após refeições proteicas.

Sinergia enzimática: evidências científicas

De modo geral, a evidência clínica dá suporte à formulações multienzimáticas em determinados grupos de pacientes.

Em um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo com 120 participantes com dispepsia funcional, a utilização por 60 dias de um blend multienzimático – contendo protease, lactase, amilase, lipase e celulase – resultou em melhora significativa da qualidade de vida, redução da dor e melhora da qualidade do sono, sem efeitos adversos relatados.

Já um estudo cross-over, randomizado e controlado por placebo, avaliou um blend de 18 enzimas digestivas e fitoterápicos, administrado em dose única antes de uma refeição-teste. Como resultado, 80% dos participantes apresentaram redução da distensão abdominal, com diminuição da circunferência da cintura em comparação ao placebo.

Em um estudo observacional do tipo pré-pós, com 118 adultos com SII, o uso de uma formulação contendo fructana hidrolase, alfa-galactosidase e lactase por 4 semanas resultou em melhora de distensão e flatulência em 78% dos participantes, redução da dor abdominal em 65,3%, além de ganhos em qualidade de vida e bem-estar mental.

Resultados semelhantes foram descritos em outro estudo prospectivo do mundo real, com 96 pacientes com SII, no qual o uso desse tipo de blend enzimático gerou melhorias na dor abdominal, inchaço, diarreia,  constipação e comportamento de esquiva alimentar, sem eventos adversos relatados.

Na prática, quando considerar a associação?

A combinação enzimática tende a fazer mais sentido quando o paciente:

Vale reforçar que, ao avaliar um blend enzimático, o profissional deve considerar a atividade enzimática expressa em unidades reconhecidas, e não apenas o peso em miligramas.

O que podemos concluir?

Assim como dificilmente um paciente consome uma refeição de substrato único, nem sempre a origem dos sintomas digestivos é monoenzimática.

A racionalidade por trás da combinação de lactase, alfa-galactosidase e protease está em cobrir, com uma única conduta, determinados mecanismos geradores de desconforto pós-prandial, sempre com base em anamnese individualizada.

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Referências

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