Em 2017, a Associação Americana de Endocrinologia Clínica (AACE) publicou uma declaração de posicionamento que propôs um termo diagnóstico “doença crônica baseada na adiposidade” (DCBA), para identificar explicitamente a obesidade como uma doença crônica.
Segundo os especialistas, a DCBA significa uma doença crônica, progressiva e heterogênea que surge devido ao controle neuroendócrino anormal do balanço energético e da ingestão calórica, levando à adiposidade excessiva ou anormal.
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Nesse sentido, a DCBA pode dar origem a complicações e doenças relacionadas à obesidade que conferem morbidade e mortalidade e/ou prejudicam a qualidade de vida.
Em 2025, a Associação publicou um consenso atualizado, fornecendo orientação baseada em evidências em algoritmos gráficos para auxiliar profissionais de saúde e adultos que lidam com as DCBAs. Confira alguns destaques a seguir.
Inter-relação entre AACE e Comissão Lancet na obesidade
Recentemente, a Comissão Internacional Lancet sobre Obesidade desenvolveu definições de obesidade “pré-clínica” para indicar um estado de excesso de adiposidade sem doenças ou complicações relacionadas à obesidade; e obesidade “clínica” para transmitir a presença de complicações, definidas como alterações na estrutura e/ou função dos órgãos que geralmente produzem sintomas que surgem devido à presença de excesso de adiposidade em si.
A Comissão Lancet considera as doenças relacionadas à obesidade como entidades mais comuns na obesidade e que compartilham processos fisiopatológicos, mas requerem uma contribuição fisiopatológica adicional não relacionada à presença de excesso de adiposidade.
No algoritmo abaixo, são elucidadas as inter-relações entre as definições da AACE e da Comissão Lancet sobre Obesidade.
Triagem e diagnóstico de doença crônica baseada em adiposidade
De acordo com a Associação, o índice de massa corporal (IMC) deve ser utilizado como uma ferramenta de triagem de DCBA, mas o diagnóstico não pode se limitar apenas a esta ferramenta.
O diagnóstico de DCBA deve envolver um componente antropométrico para avaliar a adiposidade e distribuição do tecido adiposo, e um componente clínico para determinar a gravidade da doença e o impacto da adiposidade na saúde e na qualidade de vida.
Em relação à antropometria, as recomendações são:
- Para confirmar a presença de obesidade ou sobrepeso, assegurar através de exame físico que o IMC elevado é indicativo de excesso de gordura, e interpretar usando critérios específicos para cada etnia.
- Medir a circunferência da cintura e a relação cintura-estatura, interpretando a circunferência da cintura conforme critérios étnicos.
- Avaliar a composição corporal (músculo, gordura, osso) se houver necessidade clínica.
Já para componente clínico:
- Investigar histórico médico, histórico de peso, histórico familiar, exame e revisão de sintomas.
- Considerar etiologias específicas: causas monogênicas/sindrômicas, endocrinopatias (doenças hormonais), iatrogenia (efeitos colaterais de medicamentos), etc.
- Realizar testes laboratoriais básicos.
- Avaliar a presença e a gravidade de doenças crônicas relacionadas à obesidade – fatores cardiometabólicos, biomecânicos e psicossociais.
Doença crônica baseada em adiposidade: plano de cuidado individualizado
O desenvolvimento de um plano de cuidado individualizado começa com o estadiamento da DCBA. A modalidade e a intensidade das intervenções devem ser proporcionais ao estágio clínico, refletindo o risco, a presença e a gravidade das doenças crônicas relacionadas à obesidade.
Os objetivos da terapia para cada pessoa com DCBA são alcançar a redução, estabilização e manutenção da perda de peso, ao mesmo tempo em que se previnem, atenuam e tratam as doenças crônicas relacionadas à obesidade, com ênfase nos desfechos globais de saúde e na qualidade de vida.
Para apoiar o desenvolvimento de planos de cuidado individualizados, é importante avaliar:
- História de obesidade na primeira infância (início antes dos 5 anos de idade) e/ou hiperfagia precoce, pois isso deve motivar a realização de testes genéticos, com possibilidade de aconselhamento para etiologias específicas monogênicas ou sindrômicas da obesidade.
- Etiologias secundárias ou contribuições iatrogênicas, como medicamentos que promovem ganho de peso, endocrinopatias, deficiência/incapacidade funcional, imobilidade e outras condições médicas.
- Uso de medicamentos que promovem ganho de peso utilizados no tratamento de comorbidades e complicações, sempre que possível (por exemplo, insulina, sulfonilureias, determinados antipsicóticos e antidepressivos, corticosteroides).
- Impacto do viés de peso internalizado e da estigmatização na qualidade de vida e em que medida isso pode comprometer o engajamento da pessoa em seu plano terapêutico.
- Presença de transtornos psicológicos, como depressão, ansiedade e comportamento alimentar desordenado, que podem necessitar de intervenção.
- Determinantes sociais da saúde, letramento em saúde e acesso aos serviços de saúde e recursos.
- Motivos da pessoa para buscar cuidado, metas de tratamento e preferências individuais e culturais em relação à alimentação e à atividade física.
Alvos de perda de peso
O tratamento das diferentes doenças crônicas relacionadas à obesidade requer graus distintos de perda de peso.
A porcentagem de redução do peso corporal funciona como um “biomarcador”, que pode ser utilizada como alvo para garantir uma perda de peso suficiente, necessária para promover melhorias previsíveis em várias doenças, conforme monitorado por achados clínicos, dados laboratoriais (como pressão arterial, A1C, lipídios, medidas funcionais etc.) e pela sintomatologia relatada pelo paciente.
Por exemplo, para hipertensão arterial, uma redução percentual de peso que resulta em benefício clinicamente significativo varia de 5% a 15%. Já para prevenção de diabetes tipo 2, este valor varia de 7% a 10%. Valores acima destes demonstram benefícios adicionais.
O grupo de especialistas propõe as seguintes categorias de redução de peso, relacionadas a benefícios clínicos:
- ≤5%: indica resposta incompleta, pois frequentemente é insuficiente para tratar complicações.
- >5% a <15%: indica boa resposta, que pode ou não ser ideal para determinadas complicações.
- ≥15%: indica resposta excelente, pois é suficiente para tratar ou prevenir uma ampla gama de doenças.
Pacientes que atingem uma redução de peso ≥15% (nível produzido, em média, pelos medicamentos de segunda geração para obesidade) apresentam uma resposta terapêutica que previne ou melhora uma ampla gama de doenças.
Tratamento da doença crônica baseada em adiposidade
O tratamento da doença crônica baseada em adiposidade deve envolver diversas áreas da saúde, como elucidado abaixo.
Nutrição
– Adotar padrões alimentares saudáveis (por exemplo, dieta mediterrânea).
– Priorizar alimentos minimamente processados e ricos em nutrientes.
– Limitar alimentos e bebidas de alta densidade energética.
– Garantir ingestão adequada de proteína, fibras, ferro, cálcio e outros micronutrientes, especialmente durante perdas de peso significativas.
Planos energéticos individualizados podem incluir:
- Estratégias baseadas em macronutrientes.
- Substituições de refeições.
- Jejum estratégico.
- Metas calóricas personalizadas.
Indica-se combinar abordagens dietéticas baseadas em evidências, respeitando preferências individuais e culturais.
Atividade física
– Adaptar às preferências do paciente e à sua capacidade funcional.
– Incorporar atividade aeróbica, treinamento de força e redução do comportamento sedentário.
– Aumentar gradualmente a intensidade e o volume, conforme tolerado.
– Encaminhar para especialista em exercício físico, se necessário.
Sono
– Rastrear distúrbios do sono.
– Promover boa higiene do sono.
– Otimizar a qualidade e a duração do sono.
– Encaminhar para polissonografia ou avaliação em medicina do sono, se necessário.
Terapia comportamental
– Rastrear ansiedade, depressão, transtornos alimentares e viés de peso internalizado.
– Apoiar a adesão comportamental com:
- Estabelecimento de metas, automonitoramento e resolução de problemas.
- Terapia cognitivo-comportamental.
- Técnicas de redução do estresse.
– Encaminhar para avaliação psicológica ou suporte em saúde comportamental, conforme necessário.
Leia a diretriz
No material completo da Associação, além de aprofundar os tópicos aqui abordados, os profissionais também discutem sobre cirurgia bariátrica, medicamentos anti-obesidade, entre outros.
Para ler a diretriz completa, clique aqui.
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Referência:
American Association of Clinical Endocrinology Consensus Statement: Algorithm for the Evaluation and Treatment of Adults with Obesity/Adiposity-Based Chronic Disease – 2025 Update. Nadolsky, Karl et al. Endocrine Practice , Volume 31, Issue 11, 1351 – 1394
