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Como funcionam os dispositivos de monitorização contínua da glicose?

monitorização contínua da glicose

Fonte: Canva

O manejo do diabetes mellitus passou por uma transformação significativa nas últimas décadas, e os dispositivos de monitorização contínua da glicose (MCG) estão no centro dessa revolução. 

Diferentemente das tradicionais medições por punção digital, que fornecem apenas uma leitura pontual, os sistemas de MCG capturam dados em tempo real de forma contínua, permitindo que pacientes e profissionais de saúde visualizem padrões glicêmicos ao longo do dia e da noite.

monitorização contínua da glicose

Fonte: Canva

Por isso, as diretrizes clínicas agora reconhecem a monitorização contínua da glicose como um componente fundamental do cuidado abrangente do diabetes, reconhecendo seu papel na melhoria dos resultados glicêmicos e na redução de complicações.

Mas como o sensor mede a glicose?

Os dispositivos de MCG disponíveis comercialmente funcionam como sistemas minimamente invasivos. 

Um fino filamento sensor é inserido no tecido subcutâneo, onde fica em contato com o fluido intersticial (FI), o líquido que preenche o espaço entre as células e reflete os níveis de glicose no sangue.

O sensor utiliza uma enzima chamada glicose oxidase (GOx), que catalisa a reação entre a glicose e o oxigênio, gerando peróxido de hidrogênio. Esse produto é então oxidado no eletrodo do sensor, gerando uma corrente elétrica proporcional à concentração de glicose presente no FI. Esse sinal elétrico é convertido em uma leitura de glicose e transmitido continuamente para um receptor ou smartphone.

Existe uma defasagem fisiológica de aproximadamente 5 a 15 minutos entre as mudanças na glicemia e as alterações correspondentes no fluido intersticial. Isso explica por que, em situações de variação glicêmica rápida, como durante exercício intenso ou após refeições, a leitura do MCG pode não coincidir exatamente com uma medição simultânea por punção digital.

Para minimizar esse efeito e garantir maior precisão, os dispositivos modernos incorporam algoritmos sofisticados de calibração. Alguns modelos são calibrados de fábrica, eliminando a necessidade de calibração por punção digital. Outros, ainda requerem calibração diária por punção.

Transmissão e alertas em tempo real

Após a conversão do sinal eletroquímico em valor glicêmico, os dados são transmitidos continuamente por radiofrequência ou Bluetooth para um receptor dedicado, smartphone ou bomba de insulina conectada. 

Essa transmissão automática é uma das diferenças entre os sistemas de MCG em tempo real (rtMCG) e os de escaneamento intermitente (isMCG); enquanto o rtMCG transmite os dados automaticamente, o isMCG exige que o usuário aproxime o leitor do sensor para obter a leitura.

Os sistemas de MCG modernos também emitem alertas e alarmes configuráveis para hipoglicemia e hiperglicemia

Os alertas preditivos de hipoglicemia são particularmente relevantes: simulações demonstraram que a ingestão de 15 g de carboidratos em resposta a esses alertas reduziu o tempo abaixo da faixa alvo (<70 mg/dL) em até 92% em comparação a nenhum alerta, e em 47% em comparação a alertas convencionais de limiar de hipoglicemia. 

Da mesma forma, algoritmos de previsão de hipoglicemia noturna reduziram o tempo noturno abaixo da faixa em 37% em relação à linha de base.

Precisão: o que é o MARD?

A acurácia dos dispositivos de MCG é habitualmente expressa pelo MARD (Mean Absolute Relative Difference), que representa a diferença percentual média entre as leituras do sensor e os valores de referência

Para fins de comparação, os métodos laboratoriais clássicos (baseados em glicose oxidase e hexokinase séricos) apresentam correlação praticamente perfeita e viés inferior a 2%.

Os dispositivos de MCG minimamente invasivos mais avançados alcançam correlação de 0,90 a 0,95 com a glicose sérica e MARD de aproximadamente 9 a 10%. Alguns exemplos entre os sistemas disponíveis são apresentados na tabela abaixo:

Sensor MCG (fabricante) Duração (dias) Faixa de glicose (mg/dL) Tempo de aquecimento (min) Armazenamento de memória Calibração necessária MARD (%)
FreeStyle Libre 2 (Abbott) 14 40 – 500 60 8 horas Não 9.2 – 9.7
FreeStyle Libre 3 (Abbott) 14 40 – 500 60 14 dias Não 7.9 – 9.4
Dexcom G7 (Dexcom) 10 (período de tolerância de 12 h) 40 – 400 30 24 horas Não (opcional) 8.2 – 9.1
Medtronic Guardian 4 (Medtronic) 7 40 – 400 120 Não disponível Não 10.1 – 11.2
Caresens Air (i-SENS)/Barozen Fit (Handok) 15 40 -500 120 12 horas Sim (a cada 24 horas) 10.1 – 11.2
Accu-Chek® SmartGuide 14 40 – 400 60  Não disponível Sim (calibração inicial) 9.2

Integração com outros dispositivos e aplicativos

A capacidade de integração dos sistemas de MCG amplia consideravelmente sua utilidade clínica. 

Conectados a bombas de insulina, formam os chamados sistemas de administração automatizada de insulina (ou sistemas de “pâncreas artificial”), que ajustam automaticamente a dose de insulina com base nas leituras contínuas de glicose.

Já as canetas de insulina conectadas representam um grande avanço para pacientes que necessitam de terapia intensiva com insulina, mas preferem injeções em vez de bombas. 

Essas canetas “inteligentes” oferecem conectividade com sistemas de MCG e glicosímetros, memória interna e capacidade de download de dados, permitindo que os usuários monitorem as doses de insulina, recebam lembretes de doses e calculem as doses ideais com base nas configurações individualizadas da terapia com insulina e nos níveis de glicose.

Além disso, os dados do MCG podem ser sincronizados com aplicativos de saúde digital voltados para o gerenciamento de peso, atividade física, nutrição e estresse

Parcerias entre fabricantes de MCG e programas de emagrecimento permitem que os usuários visualizem como suas escolhas alimentares afetam diretamente a curva glicêmica, criando um mecanismo de biofeedback personalizado.

O futuro: sensores sem punção

Embora os dispositivos de MCG atuais já sejam minimamente invasivos, a pesquisa avança em direção à monitorização completamente não invasiva

Tecnologias baseadas em espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) e médio (MIR), espectroscopia Raman, sensores eletromagnéticos de radiofrequência e micro-ondas, e até sensores em fluidos corporais como suor, lágrimas e saliva estão em diferentes estágios de desenvolvimento e validação.

Esses métodos exploram propriedades ópticas, acústicas ou elétricas intrínsecas da glicose para estimá-la sem qualquer penetração cutânea. 

No entanto, ainda enfrentam desafios relevantes de acurácia, interferência de outros componentes biológicos e falta de validação clínica padronizada.

Até o momento, os dispositivos de MCG minimamente invasivos seguem como a opção mais confiável, equilibrando praticidade, precisão e segurança clínica para o manejo do diabetes.

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Referências:

Ajjan RA, et al. Continuous glucose monitoring for the routine care of type 2 diabetes mellitus. Nat Rev Endocrinol. 2024;20:426-440.

Kwon SY, Moon JS. Advances in continuous glucose monitoring: clinical applications. Endocrinol Metab. 2025;40:161-173.

Lee JE, et al. Continuous glucose monitoring: minimally and non-invasive technologies. Clin Chim Acta. 2025;575:120358.

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