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Cirurgia bariátrica e metabólica – posicionamento SBNPE/BRASPEN

cirurgia bariátrica e metabólica

Fonte: Canva

Diante do crescimento exponencial da obesidade e das limitações frequentemente observadas com outros tratamentos, a cirurgia bariátrica e metabólica consolidou-se como uma estratégia eficaz, ocupando um papel central no manejo da obesidade. Nas últimas décadas, ela se tornou mais segura e acessível, com procedimentos minimamente invasivos e mecanismos que vão além da restrição de espaço no estômago.

Ao mesmo passo que avançam as técnicas cirúrgicas, atualizações recentes nas diretrizes brasileiras ampliaram as indicações da cirurgia bariátrica e metabólica, o que reforça ainda mais o papel terapêutico dela e a necessidade de atualização constante dos profissionais da saúde, não apenas cirurgiões.

Nesse contexto, a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE/BRASPEN) desenvolveu um posicionamento com recomendações baseadas nas melhores evidências disponíveis sobre indicação cirúrgica, acompanhamento nutricional, suplementação e evolução dietética, confira:

Fonte: Canva

Atualização das indicações cirúrgicas no Brasil

Até abril de 2025, o Brasil seguia as indicações cirúrgicas propostas pelo consenso da NIH (Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos) que considerava como critério de seleção cirúrgica a presença de IMC igual ou acima de 40 kg/m² (com ou sem doenças) ou IMC igual ou superior 35 kg/m² (com comorbidades). Contudo, desde a publicação desse consenso em 1.996, a obesidade vem sendo estudada e encarada sob outros espectros que a colocam como uma condição inflamatória que necessita de um tratamento eficaz e seguro, como a cirurgia bariátrica e metabólica.

Sabendo disso, o Conselho Federal de Medicina liberou a resolução n° 2.429 de 25 de abril de 2025 que estabelece, entre outras atualizações, novos pré-requisitos cirúrgicos para adultos e adolescentes:

Pré-requisitos para pacientes adultos para cirurgia bariátrica e metabólica

Pré-requisitos para pacientes adolescentes (idade ≥ 16 anos) para cirurgia bariátrica e metabólica

Mesmos critérios dos adultos e:

O papel do acompanhamento nutricional no pré e pós-operatório

O acompanhamento nutricional antes da cirurgia bariátrica e metabólica visa avaliar o paciente nos quesitos antropométricos e de riscos (cardiovasculares, de apneia do sono, de deficiências nutricionais e de complicações metabólicas) e já orientar mudanças de hábitos que contribuam com o sucesso da cirurgia.

O pós-operatório tem a mesma importância, o propósito do acompanhamento é dar continuidade ao processo de reeducação alimentar e promover a redução de complicações. É nesse período que a dieta é introduzida, evoluindo de acordo com a tolerância individual e as características da técnica cirúrgica realizada.

Condutas práticas

Apesar de cada paciente ter um contexto e uma história, algumas condutas são padronizadas na prática do nutricionista que acompanha um paciente após uma cirurgia bariátrica e metabólica. É o caso da evolução da consistência da dieta e as suplementações.

Evolução da dieta após a cirurgia

Em geral, inicia-se a dieta líquida restrita (líquidos claros e sem adição de açúcar) nas

primeiras 24 h, iniciando-se com 50 ml/h e evoluindo até 200 ml/h em temperatura ambiente, evitando extremos e de acordo com a tolerância do paciente.

Alimentos: água, água de coco, chás de frutas ou ervas sem cafeína.

Duração: até 48 horas do pós-operatório.

Observada tolerância do trato gastrointestinal do paciente, segue-se para a dieta líquida completa, iniciando-se no 2° ou 3° dia (começando com 50 ml/h e evoluindo até 200ml/h, de acordo com a tolerância).

Alimentos e preparações: alimentos peneirados e isentos de açúcar, incluindo água, água de coco, sucos de frutas coados ao meio (50%/50%), iogurtes naturais ou com o mínimo de ingredientes sem polpa de fruta e sem açúcar. Caldos de carne bovina moída desengordurada, caldos de peixe, caldo de frango adicionados de vegetais preparados com temperos naturais, que devem ser liquidificados e peneirados. Evitar bebidas açucaradas, com cafeína ou gaseificadas.

Duração: até o 14º dia pós-cirúrgico

Posteriormente, começa-se a dieta pastosa (100-120 g ou ml, fracionada a cada 2 horas) que tem como objetivo facilitar a transição para dieta semi-sólida, garantindo melhor tolerância digestiva e treinando a mastigação. 

Alimentos e preparações: frutas maduras, macias, sem cascas ou sementes raspadas e/ou amassadas, leite batido com frutas, mingau de cereais sem açúcar, sopas liquidificadas, frango ou peixe cozidos e desfiados, purês de vegetais, arroz “papa”.

Duração: 10 a 14 dias ou mais.

A penúltima evolução é a dieta branda que visa aumentar a ingestão de alimentos proteicos e líquidos nos intervalos entre as refeições (120-150 g ou ml fracionada a cada 2 horas).

Alimentos e preparações: vegetais cozidos e sem cascas, frutas maduras sem casca, ovos cozidos ou mexidos, queijos macios e desengordurados, carnes e aves.

Duração: 14 dias.

Nos 45 dias depois da cirurgia bariátrica e metabólica, espera-se iniciar a dieta em consistência normal, priorizando as proteínas, pois pode haver ainda dificuldade de consumir o volume indicado e elas são essenciais nesse pós-cirúrgico.

Outras recomendações importantes:

Suplementação pré-operatória

Embora a lista de benefícios da cirurgia seja ampla, a restrição alimentar, a redução de áreas absortivas e as alterações hormonais, elevam o risco de deficiências nutricionais. Por isso, a suplementação do paciente que será ou foi submetido a uma cirurgia bariátrica e metabólica é uma realidade que deve ser apresentada desde o início do acompanhamento nutricional.

Estudos mostram que a suplementação pré-operatória com polivitamínicos especializados reduz significativamente deficiências de ferro, ácido fólico e vitamina D. Logo, na avaliação pré-cirúrgica, deve-se identificar e corrigir individualmente, com protocolos personalizados para cada paciente, as deficiências nutricionais existentes que podem diminuir morbidades e melhorar a recuperação no pós-operatório.

Suplementação pós-operatória

Como falado, a deficiência nutricional já é uma expectativa no pós-operatório de uma cirurgia bariátrica e metabólica. Dessa forma, para um aporte proteico adequado, manutenção da perda de peso, prevenção de deficiências e redução de complicações a médio e longo prazo, a suplementação também deve ser considerada no pós-cirúrgico.

Para cada tipo de cirurgia, já existe uma infinidade de estudos que apontam as principais deficiências nutricionais e como corrigi-las. O posicionamento compila essas orientações em uma tabela como essa:

Suplementação no pós-operatório de cirurgia bariátrica e metabólica, conforme a técnica cirúrgica.
Tipo de cirurgia Principais riscos nutricionais Suplementação recomendada
Bypass gástrico em Y de Roux (BGYR) Deficiência de ferro, vitamina B12, cálcio e vitamina D
  • Multivitamínico: 200% DRI*
  • Ferro: 45–60 mg
  • Cálcio: 1200–1500 mg
  • B12: 350–500 mcg
  • Proteína: 1,2–1,5 g/kg do PI**
Gastrectomia vertical Deficiência de vitamina B12 e ferro
  • Multivitamínico: 100% DRI
  • Ferro: 18–36 mg
  • B12: 350–500 mcg
  • Proteína: 1–1,5 g/kg de PI

Derivação biliopancreática

Deficiências severas de vitaminas lipossolúveis e proteínas, ferro, cálcio, vitamina B12 e D
  • Multivitamínico: 200% DRI
  • Ferro: 45–60 mg
  • Cálcio: 1200–1500 mg
  • B12: 350–500 mcg
  • Suplementação intensiva de vitamina A, D, E e K
  • Proteína: até 2 g/kg de PI

* DRI = Dietary reference intakes (Ingestão dietética de referência)

** PI = peso ideal

Frequência do acompanhamento nutricional

A obesidade é uma doença multifatorial complexa em que a cirurgia é apenas uma parte do tratamento, sendo o acompanhamento nutricional para manutenção do peso perdido alcançado e do novo estilo de vida essencial. Contudo, sabe-se que a adesão ao acompanhamento a longo prazo é um desafio, por isso, a melhor frequência estabelecida será uma decisão conjunta entre o profissional da nutrição e o paciente.

No posicionamento da SBNPE, recomenda-se:

Mensalmente

Trimestralmente

Semestralmente

Anualmente

O posicionamento da SBNPE/BRASPEN reforça que o sucesso da cirurgia não termina no centro cirúrgico e com a ampliação do acesso a esse tratamento, a responsabilidade do nutricionista em identificar riscos, prevenir deficiências nutricionais e conduzir uma evolução alimentar segura e individualizada é ainda maior.

No documento completo você encontrará orientações para a nutrição em situações especiais, como gestantes, dieta vegetariana, nutrição enteral e parenteral. Confira na íntegra aqui.

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Referência

Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE/BRASPEN). Posicionamento científico sobre cirurgia bariátrica e metabólica. BRASPEN J. 2025;40(2):e2025402.

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