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Como a dieta pode afetar a cicatrização de feridas

Postado em 19 de junho de 2019 | Autor: Adriano Mehl

O corpo precisa estar hidratado e bem alimentado para poder cicatrizar bem

Adriano Mehl

Adriano Mehl* é médico responsável pelo Núcleo de Pesquisa, Prevenção e Tratamento de Feridas e Pé Diabético

Para que uma ferida cicatrize de forma satisfatória, nosso corpo necessita de vários nutrientes. Carboidratos, gorduras e proteínas fornecem energia para que as células reconstruam os tecidos lesados. As vitaminas A, C e E e os minerais zinco, ferro e selênio também são fundamentais nesse processo.

Mas esteja certo de que na ânsia de tratar o problema, muitas vezes nossos olhos estão voltados somente para as feridas, esquecendo-nos de olhar para as condições dos pacientes. Exemplo disso é a desnutrição, um quadro que acomete grande parte da população brasileira, principalmente os idosos, tanto os que estão em suas casas quanto os que estão em hospitais.

Sabendo que mais de 20% dos nossos idosos são diabéticos, 29% têm pressão alta, 23% são obesos e 83% são sedentários, sendo muitos ainda fumantes ou ex-fumantes, os problemas relacionados com a falta de cicatrização de feridas podem ser muito mais complexos. Vamos a eles.

Há alimentos proibidos na dieta para a cicatrização?

Quando falamos em nutrição, todos têm aquela sugestão sobre alimentos (que ouviram dizer um dia) que pioram a cicatrização. Os termos “remoso” ou “alimento carregado” expressam isso e são muito utilizados no nordeste do Brasil, fazendo parte da cultura popular. Estão relacionados aos alimentos que, inseridos na dieta, podem provocar dificuldade de cicatrização por inflamação na pele por uma reação alérgica.

O que esses alimentos têm em comum? A alta concentração de proteína e gordura animal. Entre eles estão: carne de porco, pato, ovos (especialmente a gema), moluscos, camarão e caranguejo. O chocolate também é mencionado. São, portanto, considerados alimentos alergênicos, isto é, que podem provocar reações alérgicas em determinadas pessoas, como, por exemplo, coceira e diarreia, ocasionadas pela liberação de histamina. E a coceira pode levar ao aparecimento de traumatismos na pele pelas unhas, favorecendo o aparecimento de feridas, ou piorando feridas já existentes porque reativam a inflamação no local.

É interessante que o conceito de “remoso” ainda sobreviva lado a lado ao da alergia alimentar. Mais interessante está no fato de que os alimentos “remosos” seriam prejudiciais somente em determinadas condições, como feridas e infecções.

Mesmo entre profissionais da área da saúde há ainda aqueles que realmente não recomendam os alimentos ditos “carregados” ou “remosos” para pacientes que sofreram cirurgias ou que têm feridas ou úlceras, por exemplo. Isso talvez ocorra pela dúvida sobre quem pode desenvolver alguma possível reação. Um teste de alergia poderia ajudar a todos. Mas informações assim se espalham e acabam transformando-se em crendices.

O que a ciência comprova

Realmente existem estudos mostrando que ratos que ingeriram dieta à base de camarão tiveram algum tipo de alteração na cicatrização de feridas, principalmente nas primeiras semanas após uma cirurgia. Mas então eu pergunto: camarão faz parte do cardápio rotineiro de ratos? Ou então: quem faz um procedimento cirúrgico, ou quem tem uma ferida, costuma comer camarão com frequência? Pense um pouco além: outros animais que se alimentam de camarão, como os humanos, se tiverem feridas também não vão cicatrizar? Isso o estudo não comprova.

Mas o que talvez muitos não saibam é que existem curativos à base de quitosana, um elemento encontrado nas cascas dos crustáceos como o camarão e o caranguejo. Curativos com quitosana são colocados diretamente em feridas e os artigos científicos demonstram excelentes resultados de cicatrização.

Então, o que parece é que certos alimentos provocam uma reação alérgica, que pode levar ao aparecimento do prurido (coceira), e de certa forma, por aumentar a atividade inflamatória no local da ferida, poderia interferir na cicatrização.

O que não podemos esquecer é que os alimentos mencionados anteriormente são importantes fontes de energia cicatricial. Outro exemplo é o abacate, rico em vitaminas e minerais que contribuem para a cicatrização. Porém, existem relatos de que a fruta deve ser evitada por quem tem feridas, pois pode inativar uma enzima chamada colagenase, a qual faz parte do processo cicatricial. Pergunto: quem fica fazendo dieta somente de abacate em um pós-operatório? Então, estamos falando de consumo de determinados alimentos em excesso.

Cuidado com aplicações locais

E quanto aos produtos que são colocados diretamente em feridas, como açúcar e mel ou enzimas extraídas do mamão e do abacaxi? Sim, é verdade que existem estudos sobre o uso do açúcar para esse propósito, mas isso não significa que você pode usá-lo na prática do dia a dia para o tratamento de feridas.

Pare e reflita: você colocaria um produto não preparado para esse fim em um ferimento no seu corpo, sem identificar se o local está infeccionado? Por quanto tempo você acha que deveria ficar aplicado na ferida? E como se retira o resíduo deixado por ele? Como vemos, são várias as dúvidas que ainda não podem ser respondidas.

Já o mel que é utilizado para tal fim  não é o mel comum, que usamos na cozinha. Trata-se de um produto extraído de um arbusto chamado manuka que existe na Nova Zelândia. Esse mel apresenta propriedades cicatriciais internacionalmente reconhecidas e já devidamente publicadas em artigos científicos.

Por fim, não é porque se usam enzimas extraídas do mamão papaia e do abacaxi que devemos colocar essas frutas diretamente em feridas. Nem tampouco comendo mais ou menos delas teremos efeitos ou não nas lesões.

Como fica a dieta para contribuir com a cicatrização

É importante lembrar que, antes de tudo, o corpo precisa estar hidratado e bem alimentado para poder cicatrizar bem. Para os diabéticos, deixar os níveis de glicemia (açúcar no sangue) dentro dos limites recomendados é fundamental. Hipertensos devem controlar a pressão arterial e não ingerir alimentos salgados, pois o acúmulo de sal faz o corpo inchar, fazendo aumentar o edema da pele.

Não deixe também de verificar se você está com anemia e como anda o seu estado nutricional antes de um procedimento cirúrgico. Na dúvida, procure identificar com precocidade quais alimentos não lhe fazem bem e aqueles que reconhecidamente podem lhe causar alergias. Sabendo disso, deve evitar o contato e a ingestão dos mesmos em qualquer momento.

O importante para ajudar na cicatrização de uma ferida e após qualquer tipo de cirurgia é seguir a dieta recomendada por profissionais médicos e da nutrição, pois eles saberão indicar o melhor para você, com respaldo e embasamento científico.

*Adriano Mehl é médico responsável pelo Núcleo de Pesquisa, Prevenção e Tratamento de Feridas e Pé Diabético – Curitiba/PR e pelo Ambulatório de Feridas e Pé Diabético na MEDMandic – Campinas/SP. Diretor Presidente do Núcleo de Apoio em Educação Médica. Continuada | WCTG Wound Care Training Group – Brasil. Professor Coordenador e Preceptor do Programa de Gerenciamento e Tratamento de Feridas na Faculdade São Leopoldo Mandic – Campinas/SP.

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