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Da origem histórica japonesa às normas da ANVISA: confira o guia completo sobre alimentos funcionais, seus benefícios e o debate científico atual.
Na atualidade, um dos maiores desafios para a saúde global é o crescente fardo das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). Fatores relacionados ao estilo de vida – principalmente a má nutrição – desempenham um papel fundamental no desenvolvimento dessas condições.
Nesse contexto, o foco da ciência nutricional deixa de ser a mera alimentação, e o olhar se volta para a prevenção de doenças e a otimização da saúde. Assim, o conceito de alimentos funcionais surgiu como uma ponte entre os hábitos alimentares tradicionais e a promoção da saúde direcionada.

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Mas afinal, o que são alimentos funcionais, quais são seus tipos e benefícios? É o que iremos descobrir a seguir.
A origem dos alimentos funcionais
O consumo de alimentos para reduzir os riscos de doenças é conhecido desde a antiguidade. Hipócrates, filósofo grego conhecido como “pai da medicina”, proferiu a famosa frase: “faça com que o seu alimento seja o seu remédio, e o seu remédio, o seu alimento”.
A ideia de alimento funcional surgiu inicialmente em 1920, através da utilização do iodo como meio de prevenção e tratamento para o bócio. No entanto, o conceito de “alimento funcional” foi utilizado pela primeira vez no Japão no final da década de 1980, em virtude do crescimento de doenças crônicas na população idosa japonesa.
Assim, com o auxílio da indústria alimentícia, o governo japonês desenvolveu a nova concepção de alimentos funcionais, regulamentados em 1991 com a denominação de FOSHU (Foods for Special Health Use).
Afinal, o que são alimentos funcionais?
O conceito de alimentos funcionais é altamente variável, e não há uma definição universal.
Contudo, segundo o Ministério da Saúde, alimentos funcionais são alimentos ou ingredientes que produzem efeitos benéficos à saúde, além de suas funções nutricionais básicas, inerente à sua composição química. Assim, eles possuem um papel benéfico na redução do risco de doenças crônicas degenerativas, como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares.
Em outras palavras, são alimentos que contêm substâncias ou moléculas químicas, naturais ou adicionais, que proporcionam otimização dos benefícios à saúde – os chamados “compostos bioativos”.
Os compostos bioativos têm a capacidade de interagir com um ou mais componentes do organismo humano. A partir daí, fornecem uma ampla gama de efeitos potenciais, como efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e antitumoral. Eles podem ser oriundos de plantas, animais ou outras fontes, como microrganismos.
São exemplos: carotenoides, compostos fenólicos, fibras, ácidos graxos, vitaminas, probióticos, prebióticos.
Quais são os tipos de alimentos funcionais?
De maneira geral, os alimentos funcionais podem ser classificados em:
Alimentos funcionais naturais
São alimentos integrais, minimamente processados, que contêm compostos benéficos à saúde. Incluem frutas e vegetais frescos, grãos integrais, nozes, leguminosas e certos produtos lácteos fermentados.
Por exemplo, certas frutas, como as frutas vermelhas, são particularmente ricas em polifenóis, famosos por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Vegetais, como os crucíferos, contêm glucosinolatos e isotiocianatos, que possuem efeitos protetores celulares e potencialmente preventivos contra o câncer.
Grãos integrais (aveia, cevada, quinoa, etc) são ricos em fibras alimentares, vitaminas do complexo B, magnésio e ácido fítico, que, em conjunto, contribuem para a estabilização dos níveis de glicemia, redução do colesterol e a manutenção do equilíbrio da microbiota intestinal.
Exemplos de alimentos funcionais naturais:
- Mirtilos – influência positiva nas funções cardiovasculares e cognitivas
- Brócolis – propriedades anticancerígenas e anti-inflamatórias
- Kefir – equilíbrio da microbiota intestinal e função imunológica por meio de seu conteúdo probiótico
Alimentos funcionais modificados
São aqueles que passam por ajustes industriais em sua composição a fim de aumentar seu potencial bioativo e promover resultados específicos para a saúde.
Essas modificações podem envolver a adição de componentes benéficos (por exemplo, ácidos graxos ômega-3, fitoesteróis ou probióticos) ou a redução de componentes indesejáveis (como gorduras saturadas, açúcares ou sódio).
São exemplos de alimento funcionais modificados:
- Margarina enriquecida com ácidos graxos ômega-3 (para proteção cardiovascular)
- Iogurte com adição de prebióticos (suporte à microbiota intestinal)
- Produtos fortificados com micronutrientes (garantindo a ingestão de nutrientes essenciais)
- Formulações enriquecidas com polifenóis (atividade antioxidante aprimorada)

Quais os benefícios dos alimentos funcionais?
De maneira geral, os alimentos funcionais podem contar com diversos benefícios, dentre eles:
- Prevenção de doenças na gestação
- Desenvolvimentos durante infância e adolescência
- Fortalecimento da função imunológica
- Redução da incidência ou gravidade de infecções gastrointestinais
- Alívio da intolerância à lactose
- Melhora geral da função intestinal
- Melhorias da saúde mental (desempenho cognitivo, humor, vitalidade, memória, vigilância e atenção)
- Saúde e bem-estar no envelhecimento
- Desempenho físico
- Prevenção da obesidade
- Melhora do perfil lipídico e promoção da saúde cardiovascular
- Melhora no metabolismo da glicose e na sensibilidade à insulina, prevenindo o diabetes mellitus
- Promoção da saúde óssea
Logicamente, a obtenção desses benefícios varia de acordo com o alimento, uma vez que cada um deles está atrelado a tipos específicos de nutrientes e compostos na matriz alimentar.
Alimentos funcionais no contexto brasileiro
Na legislação brasileira, não há uma definição para alimento funcional. Porém, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) traz o conceito de “alegações de propriedade funcional”, que descrevem o papel metabólico ou fisiológico que um nutriente ou outros constituintes possuem no crescimento, desenvolvimento, manutenção e outras funções do organismo humano.
Curiosamente, o Brasil foi o primeiro país da América Latina a possuir uma legislação referente às alegações das propriedades funcionais.
A Resolução nº 18 de 30 de abril de 1999 da ANVISA determina que tais alegações nunca devem ser vinculadas à cura de doenças e tratamentos, mas sim à possível prevenção de desordens fisiológicas.
As alegações de propriedades funcionais que já obtiveram autorização para uso pela ANVISA são expostas na tabela abaixo.
| Composto | Alegações |
| Ácidos graxos – EPA e DHA | Auxílio na manutenção de níveis saudáveis de triglicerídeos *Autoriza-se a alegação somente para uso em suplementos contendo óleos de peixes, óleo de krill ou óleo da microalga Schizochytriumsp |
| Licopeno, luteína e zeaxantina | Ação antioxidante, que protege as células contra os radicais livres *Para o licopeno, autoriza-se a alegação somente para uso em suplementos contendo licopeno extraído do tomate ou licopeno sintético |
| Fibras alimentares | Auxílio no funcionamento do intestino |
| Beta glucana em farelo de aveia, aveia em flocos e farinha de aveia | Redução do colesterol |
| Dextrina resistente | Auxiliam o funcionamento do intestino |
| Frutooligossacarídeos (FOS) | Contribuem para o equilíbrio da flora intestinal |
| Goma guar parcialmente hidrolisada | Auxiliam o funcionamento do intestino |
| Inulina | Contribui para o equilíbrio da flora intestinal |
| Lactulose | Auxilia o funcionamento do intestino |
| Polidextrose | Auxiliam o funcionamento do intestino |
| Psyllium | Auxilia na redução da absorção de gordura |
| Quitosana | Auxilia na redução da absorção de gordura e colesterol |
| Fitoesteróis | Auxiliam na redução da absorção de colesterol |
| Manitol, xilitol e sorbitol | Não produz ácidos que danificam os dentes *Alegação aprovada somente para gomas de mascar sem açúcar. |
| Probióticos | A alegação de propriedade funcional ou de saúde deve ser proposta pela empresa e será avaliada caso a caso |
| Proteína de soja | O consumo diário de no mínimo 25 g de proteína de soja pode ajudar a reduzir o colesterol |
Para todos os compostos, alerta-se que o consumo deve ser aliado a uma alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis.
Além disso, muitas vezes, as alegações são autorizadas somente quando há um valor mínimo da substância na porção do produto pronto para consumo. Para as fibras alimentares, por exemplo, este valor é de 2,5 g.
Para mais detalhes sobre cada alegação de propriedades funcionais, clique aqui.
Desafios e reflexões: o debate científico sobre alimentos funcionais
Embora os benefícios dos alimentos funcionais sejam promissores, é fundamental manter um olhar crítico sobre a sua definição e regulamentação.
Alguns cientistas argumentam que a definição atual – “alimentos que oferecem benefícios além da nutrição básica” – pode ser considerada vaga, gerando confusão tanto para profissionais quanto para consumidores.
O debate acadêmico levanta pontos importantes para o futuro dessa área:
– Precisão do termo: se considerarmos que quase todos os alimentos saudáveis (como frutas e vegetais) oferecem benefícios além do básico, o termo “funcional” pode perder sua especificidade. Propostas sugerem que a categoria seja reservada para alimentos novos ou formulados cuja eficácia tenha sido comprovada, diferenciando-os dos alimentos tradicionais saudáveis.
– Necessidade de evidência robusta: para que um alimento processado ou enriquecido seja considerado funcional, é necessário que seus efeitos sejam sustentados por ensaios clínicos rigorosos em humanos, com concentração do composto suficiente para atingir o benefício pretendido com segurança.
– Marketing x ciência: há uma preocupação crescente em distinguir produtos com alegações de saúde comprovadas daqueles que utilizam o termo apenas como estratégia de marketing sem a devida validação científica.
Portanto, ao indicar alimentos funcionais, o caminho mais seguro é sempre priorizar a matriz alimentar natural e, no caso de produtos industrializados, buscar aqueles cujas alegações estejam devidamente regulamentadas e fundamentadas pela ciência.
Se você gostou deste conteúdo, leia também:
- Como o consumo de frutas influencia a saúde intestinal?
- Quais são os benefícios do consumo de aveia?
- Psyllium: o que é e para que serve? – Nutritotal PRO
Referências
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A Redação Nutritotal PRO é formada por nutricionistas, médicos e estudantes de nutrição que têm a preocupação de produzir conteúdos atuais, baseados em evidência científicas, sempre com o objetivo de facilitar a prática clínica de profissionais da área da saúde.
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