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O impacto da pandemia na nutrição infantil

Postado em 15 de setembro de 2021 | Autor: Colunistas Convidados

Adriana Gandolfo e Patrícia Zamberlan

Adriana Servilha Gandolfo e Patrícia Zamberlan são nutricionistas*

Durante o período de pandemia da Covid-19, houve alterações significativas na rotina de crianças e adolescentes no mundo inteiro. Estudos revelam que houve piora da qualidade da alimentação com o aumento no consumo de salgadinhos, batata frita, carnes vermelhas, fast food e bebidas açucaradas; além de baixa ingestão de verduras, legumes e frutas, aumento das horas de sono e redução das horas de atividade física.

Preocupação antiga

Dados da secretaria municipal de Educação de São Paulo mostram que quase 40% das crianças entre 5 e 9 anos que frequentam a rede municipal paulistana já estavam acima do peso quando a Covid-19 chegou no país. Nessa faixa etária, os dados apontavam para um baixo consumo de fibras e excessiva ingestão de sal, açúcar e gorduras.

Pandemia x nutrição infantil

Após o período de confinamento, nota-se que nas populações mais vulneráveis também houve uma queda importante na qualidade nutricional das refeições das crianças e adolescentes. Até porque muitos deles deixaram de almoçar e lanchar na escola.

O consumo de frutas, verduras, legumes e grãos é benéfico à saúde, pois esses alimentos contêm substâncias antioxidantes e anti-inflamatórias, que são importantes para o funcionamento do sistema imunológico. Sendo assim, o baixo consumo desse grupo de alimentos aumenta a vulnerabilidade do organismo ao vírus.

Também vale destacar que altos níveis de citocinas pró-inflamatórias e baixa ingestão de nutrientes essenciais comprometem o funcionamento de outros órgãos e sistemas como o cardiovascular, o respiratório e o gastrointestinal (microbiota). Isso pode levar a alterações metabólicas indesejáveis como aumento do tecido adiposo, redução da massa muscular, resistência à insulina, dislipidemia e hipertensão.

A principal dificuldade dos pais neste período de pandemia, provavelmente, foi conciliar o trabalho com as atividades domésticas e da escola. A adoção de uma alimentação saudável requer disponibilidade de tempo para a compra e preparo frequente de alimentos in natura como frutas, verduras, legumes e grãos. Além disto, estes alimentos apresentam custo elevado, muitas vezes não é hábito das famílias prepará-los ou neste período de pandemia, devido ao excesso de atividades, possivelmente não tiveram condições de priorizar esta atividade, ofertando às crianças, alimentos ultraprocessados.

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Além da alimentação, a inatividade física durante este período contribuiu para o aumento da obesidade entre crianças e adolescentes, que passaram grande parte do tempo em computadores, tablets e celulares. 

Apesar do cenário preocupante, o período de confinamento em casa também mudou o comportamento alimentar de muitas famílias de maneira positiva: muita gente começou a cozinhar e a planejar o cardápio. As crianças iniciaram participação em atividades culinárias e, em alguns casos, o esquema de home office dos pais permitiu que todos fizessem refeições juntos.

 

*Adriana Servilha Gandolfo é nutricionista pelo Centro Universitário São Camilo. Pós-graduada em Saúde Materno Infantil pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Pós-graduada em Desnutrição e Recuperação nutricional pela Unifesp. Mestre em Ciências pelo departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP. Nutricionista Supervisora do Serviço de Nutrição e Dietética do Instituto da Criança/HCFMUSP. Coordenadora da Câmara Técnica de Nutrição Clínica (CONUCLI) do Comitê Assistencial, Técnico-científico e Administrativo de Nutrição (CANUT)/HCFMUSP.

*Patrícia Zamberlan é nutricionista pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Mestre e Doutora em Ciências pelo Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP. Nutricionista da EMTN do Instituto da Criança, HCFMUSP. Especialista em nutrição parenteral e enteral pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE/BRASPEN).

Referências consultadas:

Pietrobelli A, Pecoraro L, Ferruzzi A, Heo M, Faith M, Zoller T, et al. Effects of COVID-19 lockdown on lifestyle behaviors in children with obesity living in Verona, Italy: a longitudinal study. Obesity (Silver Spring). 2020;28(8):1382-5.

Sidor A, Rzymski P. Dietary choices and habits during COVID-19 lockdown: experience from Poland. Nutrients. 2020;12:1657.

Nogueira-de-Almeida CA, Del Ciampo LA, Ferraz IS, Del Ciampo IRL, Contini AA, Ued FV. COVID-19 and obesity in childhood and adolescence: a clinical review. J Pediatr (Rio J). 2020;96(5):546-58.

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