As razões para se tornar um vegetariano

Postado em 25 de novembro de 2011

Em entrevista exclusiva fornecida ao Nutritotal, o nutrólogo Eric Slywitch, revela as razões para se tornar um vegetariano. Confira a entrevista abaixo:

1. Quais são os tipos de vegetarianos que existem?
Vegetarianismo é sinônimo de alimentação sem carne. Dentro deste grupo, há aqueles que optam pelo consumo de laticínios e ovos, seguindo a dieta ovolactovegetariana, que correspondem a 67% dos vegetarianos. Por outro lado, outra parte dos vegetarianos exclui o consumo de qualquer alimento de origem animal, são os chamados vegetarianos estritos, que abrangem 22% dos vegetarianos (1). Ainda temos os lactovegetarianos (que utilizam leite, mas não ovos) e que correspondem a 10% dos vegetarianos e os ovovegetarianos (que utilizam ovos, mas não laticínios) que correspondem a 1% dos vegetarianos.

2. Há influência do convívio com outros vegetarianos para optar pelo vegetarianismo?
Em muitos casos há influência sim, seja de amigos ou familiares, que acabam apresentando as bases do vegetarianismo. Cerca de 3,5% dos vegetarianos estritos optam em não consumir laticínios e ovos por não apreciarem o sabor desses produtos. Dentre os ovolactovegetarianos, 8,8% adotam a dieta por não gostarem do paladar da carne, assim como 6% dos lactovegetarianos e 33,3% dos ovovegetarianos. Cerca de 2,8% dos vegetarianos estritos o fazem por motivos familiares, por terem nascido em uma família vegetariana ou por conviverem com familiares que adotaram essa dieta (1).

3. Por quais motivos os indivíduos tornam-se vegetarianos?
Os motivos para seguir uma alimentação vegetariana são diversos: éticos, por motivo de saúde, religioso ou pela preocupação com o meio-ambiente.

4. Qual a razão mais prevalente entre os vegetarianos?
O motivo ético é o predominante, já que atinge 60,1% dos vegetarianos estritos, 42% dos ovolactovegetarianos, 38,8% dos lactovegetarianos. (1). Neste caso, o indivíduo tem a percepção de que os animais são seres sencientes (capazes de sofrer ou sentir prazer e felicidade) e portanto não querem compartilhar com o abate e com qualquer forma de exploração animal para fins alimentícios. A adoção da dieta vegetariana por este motivo traduz um juízo de valor, fator que não deve sofrer interferência do profissional que acompanha o vegetariano.

5. Quais os benefícios deste tipo de alimentação para a saúde?
O motivo de saúde é o que leva 14% dos vegetarianos estritos, 33% dos ovovegetarianos, 17,9% dos lactovegetarinos e 14,6% dos ovolactovegetarianos a não consumirem laticínios e ovos (1). Nesse ponto, a saúde pode ser entendida sob dois aspectos: a sensação física ao abolir seu consumo e a ideia de que esses alimentos não são benéficos à saúde. No primeiro caso, a retirada desses produtos é justificada pela sensação de bem estar, especialmente digestivo, ou na melhora de casos alérgicos, quando há propensão a ser desencadeado pelo seu consumo. Muitos indivíduos que optam por não utilizar esses produtos referem melhora da flatulência, frequência e consistência das fezes à evacuação e redução dos sintomas da doença do refluxo gastroesofágico. O acompanhamento do indivíduo com essas queixas sugere que há necessidade de melhor investigação para se averiguar se os sintomas referidos são causas ou consequências do mal estar induzido pelo uso desses produtos. No segundo caso, o cuidado com a saúde provém de estudos com a população vegetariana estrita, mostrando maior redução dos níveis de colesterol (2) e alguns tipos de câncer, sobretudo de próstata associado ao consumo de laticínios (3-5). Os estudos mais recentes demonstram impacto positivo da dieta vegetariana estrita no tratamento de indivíduos diabéticos, quando comparados com onívoros sob dieta bem planejada (7,8).

6. Porque qual razão o vegetarianismo contribuiria com o meio-ambiente?
A preocupação com o meio-ambiente é um fator cada vez mais comum, mas ainda correspondem a apenas 3,1% dos ovolactovegetarianos, 1,5% dos lactovegetarianos e 1,4% dos vegetarianos estritos (1). Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), de todas as atividades humanas, a pecuária é a maior responsável pela erosão de solos e contaminação de mananciais aquíferos. A pecuária é também responsável por 18% da emissão de todos os gases responsáveis pelo efeito estufa produzidos pela humanidade (9). Já a produção animal, incluindo as áreas de criação física dos animais e a produção de grãos para alimentá-los corresponde a 63% de todas as áreas cultiváveis do planeta. A previsão da FAO é que para 2050 o consumo de carne seja duplicado, portanto esta porcentagem de área cultivável subiria para 126%, caso não haja tecnologia para aumentar a produção em menos espaço. Porém, criar mais animais em menos espaço implicaria em maior exploração animal pelo confinamento, o que tornaria o problema ético, do ponto de vista dos motivos que levam o vegetariano a abolir o consumo da carne e seus subprodutos (9).

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O Dr Eric Slywitch possui uma carreira extensa na área de nutrologia e vegetarianismo, como especificado a seguir:

  • Médico (formado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí) – C.R.M. – 105.231
  • Mestre em Nutrição (pela UNIFESP / EPM)
  • Especialista em Nutrologia (pela ABRAN – Associação Brasileira de Nutrologia)
  • Especialista em Nutrição Parenteral e Enteral (pela SBNPE – Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral)
  • Pós-graduado em Nutrição Clínica (pelo GANEP – Grupo de Apoio de Nutrição Enteral e Parenteral)
  • Docente do curso de especialização (pós-graduação “latu sensu”): GANEP (Grupo de Apoio de Nutrição Enteral e Parenteral)
  • Coordenador do Departamento de Medicina e Nutrição da SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira)
  • Autor dos livros: “Alimentação sem Carne – guia prático” e “Virei Vegetariano. E agora?”.

Referências:

1. Slywitch E. Motivos e características de 664 indivíduos que adotam a dieta vegetariana. Dados não publicados, coletados em consultório particular.

2. Appleby PN, Davey GK, Key TJ. Hypertension and blood pressure among meat eaters, fish eaters, vegetarians and vegans in EPIC-Oxford. Public Health Nutr. 2002;5:645-654.

3. Allen NE, Key T, Appleby PN, Travis RC, Roddam AW, Tjønneland A, et al. Animal foods, protein, calcium and prostate cancer risk: The European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition. Br J Cancer. 2008;98:1574-1581.

4. Chan JM, Stampfer MJ, Ma J, Gann PH, Garziano JM, Giovannucci EL. Dairy products, calcium, and prostate cancer risk in the Physician’s Health Study. Am J Clin Nutr. 2001;74:549-554.

5. Newmark HL, Heaney RP. Dairy products and prostate cancer risk. Nutr Cancer. 2010;62(3):297-9.

6. Tavani A, Gallus S, Franceschi S, La Vecchia C. Calcium, dairy products, and the risk of prostate cancer. Prostate. 2001;48:118-121.

7. Barnard ND, Cohen J, Jenkins DJ, Turner-McGrievy G, Gloede L, Jaster B, et al. A Low-Fat Vegan Diet Improves Glycemic Control and Cardiovascular Risk Factors in a Randomized Clinical Trial in Individuals With Type 2 Diabetes. Diabetes Care. 2006;29(8):1777-1783.

8. Barnard ND, Cohen J, Jenkins DJ, Turner-McGrievy G, Gloede L, Green A, Ferdowsian H. A low-fat vegan diet and a conventional diabetes diet in the treatment of type 2 diabetes: a randomized, controlled, 74-wk clinical trial. Am J Clin Nutr. 2009;89(5):1588S-1596S.

9. Food and Agriculture Organization. Livestock a major threat to environment. Acessado em 30 de setembro de 2011. Disponível em: http://www.fao.org/newsroom/en/news/2006/1000448/index.html