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Tratamento não-medicamentoso da Hipertensão Arterial em Adultos

Postado em 13 de maio de 2024

Além da terapia farmacológica, mudanças de estilo de vida são fundamentais para os pacientes hipertensos.

Cerca de um terço da população adulta mundial possui hipertensão arterial, popularmente conhecida como “pressão alta”. Embora a terapia farmacológica seja primordial no tratamento da hipertensão arterial, diversas modificações de estilo de vida podem contribuir para a melhora deste quadro.

tratamento de Hipertensão Arterial

Fonte: Canva.com

A seguir, você conhecerá um pouco mais sobre hipertensão arterial, e as principais estratégias não-medicamentosas para o seu controle, com base em estudos científicos e diretrizes médicas.

Qual é a definição de hipertensão?

A hipertensão arterial (HA) é uma doença crônica não transmissível, caracterizada por pressão arterial sistólica (PAS) maior ou igual a 140 mmHg, e/ou PA diastólica (PAD) maior ou igual a 90 mmHg.

Para ser hipertenso, o indivíduo deve apresentar elevação da pressão arterial em pelo menos duas ocasiões diferentes, na ausência de medicação anti-hipertensiva. 

Ademais, a hipertensão é classificada de acordo com o seu grau de elevação da pressão arterial, como mostra o quadro abaixo.

ClassificaçãoPAS (mmHg)PAD (mmHg)
Pré-hipertensão130 a 139 85 a 89
HA estágio 1140 a 15990 a 99
HA estágio 2160 a 179100 a 109
HA estágio 3≥ 180≥ 110

Alguns fatores de risco podem aumentar as chances de hipertensão arterial e suas complicações (AVC, infarto, etc). São eles:

  • Genética
  • Envelhecimento
  • Sobrepeso e obesidade
  • Consumo de álcool e sódio em excesso
  • Sedentarismo
  • Tabagismo
  • Apneia Obstrutiva do Sono (AOS)

O papel da nutrição no tratamento da hipertensão arterial

Todos os pacientes hipertensos devem adotar hábitos de vida saudáveis, principalmente em relação à alimentação. A seguir, conheça as recomendações nutricionais que auxiliam o controle da hipertensão arterial.

Manter um peso saudável

O sobrepeso e obesidade, principalmente acompanhados de obesidade abdominal, são fatores que aumentam o risco da hipertensão arterial. Estima-se que, para cada cinco unidades acima de um IMC>25 kg/m², o risco de morte cardiovascular aumenta em 49%.

Mesmo sem alcançar o peso corporal eutrófico, a perda de peso já traz benefícios na pressão arterial, tanto em indivíduos normotensos quanto em hipertensos. Uma metanálise com 25 estudos concluiu que, para cada 1 kg perdido, a pressão arterial diminui cerca de 1 mmHg

Para apoiar o emagrecimento, a alimentação saudável e a atividade física devem unir forças para promover um déficit calórico diário. Além disso, estratégias comportamentais como treinamentos de conscientização do apetite e identificação dos sinais de saciedade, podem ajudar.

Reduzir a ingestão de sódio

O sódio possui um efeito hipertensor, ao reter água nos vasos sanguíneos e elevar a pressão das paredes arteriais. A recomendação é limitar a ingestão de sódio para até 2 g/dia, equivalente a 5 g de sal de cozinha. 

Para isso, orienta-se:

  1. Evitar alimentos industrializados ricos em sódio (carnes processadas, alimentos enlatados, temperos e molhos prontos, fast-foods, e ultraprocessados em geral);
  2. Utilizar temperos naturais para cozinhar as refeições, como ervas frescas, especiarias e legumes aromáticos (cebola, alho, gengibre, etc);
  3. Optar por sal light, que possui um menor teor de sódio (191 mg de sódio em 1 g, em comparação à 400 mg do sal comum). 

É importante ressaltar que outros tipos de sal (sal rosa, sal negro, sal marinho, etc) podem possuir quantidades semelhantes de sódio quando comparados ao sal refinado. Por isso, a recomendação é sempre o consumo moderado, seja qual for o tipo de sal. 

Aumentar a ingestão de potássio

O consumo de potássio é muito importante para o controle da pressão arterial, ao passo que ele aumenta a excreção de sódio na urina, diminui a secreção de substâncias vasoconstritoras e aumenta a secreção de agentes vasodilatadores.

Em uma revisão científica envolvendo 917 participantes, a suplementação de potássio (entre 75 a 125 mmol por dia) diminuiu a pressão sistólica em cerca de 6,8 mmHg, e a pressão diastólica em 4,6 mmHg. 

Entretanto, o potássio está amplamente presente nas frutas e vegetais, especialmente crus. Exemplos de alimentos ricos em potássio incluem banana, goiaba, mamão, uva, laranja, damasco, uva-passa, tomate, abacate, folhas verdes, feijão e ervilha.

Dieta DASH 

A adoção de um padrão alimentar saudável é crucial no manejo da hipertensão. A literatura científica recomenda a dieta DASH (“Dietary Approaches to Stop Hypertension”), que tem como características:

  • Alto consumo de frutas, hortaliças, laticínios com baixo teor de gorduras e cereais integrais
  • Consumo moderado de oleaginosas
  • Redução no consumo de gorduras, doces e bebidas com açúcar e carnes vermelhas

Sugere-se que o efeito hipotensor desta dieta esteja relacionado ao alto teor de potássio, cálcio, magnésio e fibras, com quantidades reduzidas de colesterol e gorduras totais e saturadas. 

No Estudo ENCORE, a adoção da dieta DASH induziu reduções significativas na pressão arterial (PAS: -11,2 mmHg; PAD: -7,5 mmHg), em comparação à dieta habitual.

Outros padrões alimentares, como dieta mediterrânea e vegetariana, também foram apontados como prováveis redutores da hipertensão arterial. Entretanto, a dieta DASH possui os efeitos mais comprovados nessa população. 

Reduzir bebidas alcóolicas

Há uma relação direta entre o consumo de bebidas alcoólicas e o aumento da pressão arterial, sendo que o consumo abusivo está associado a maior prevalência de hipertensão.

Sendo assim, para aqueles que ingerem álcool, a diretriz brasileira de hipertensão arterial orienta limitar o consumo a 30 g de álcool/dia. Em termos práticos, isso equivale a:

  • Uma garrafa de cerveja (5% de álcool, 600 mL); ou
  • Duas taças de vinho (12% de álcool, 250 mL); ou 
  • Uma dose de destilados (42% de álcool, 60 mL) 

Outras instituições internacionais fazem recomendações ainda mais rígidas, indicando o consumo máximo de 20 g/d de álcool para homens, e 10 g/d para mulheres.

Vale ressaltar que mesmo a baixa ingestão de álcool está associada a uma maior prevalência de doenças cardiovasculares e mortalidade. Em outras palavras, não há limite seguro para o consumo de álcool. Por isso, indivíduos que não bebem não devem começar a beber

Demais recomendações nutricionais

Além das orientações acima, outras estratégias nutricionais que podem auxiliar o tratamento da hipertensão arterial incluem: 

  1. Limitar consumo de carne vermelha
  2. Reduzir consumo de açúcar e bebidas adoçadas
  3. Optar por laticínios com baixo teor de gordura, ao invés de laticínios integrais
  4. Aumentar ingestão de fibras (cerca de 30 g/d)
  5. Consumir alimentos ricos em polifenois (gengibre, cacau, beterraba, etc)
  6. Manter níveis adequados de micronutrientes, como vitamina C e D
  7. Consumir chá preto e/ou chá verde

Tratamento da hipertensão arterial: orientações de estilo de vida

Além da alimentação, diversos outros parâmetros de estilo de vida também precisam de cuidados quando o assunto é hipertensão arterial. Confira-os abaixo.

Para auxiliar em sua prática clínica, baixe o infográfico gratuito e resumido: Tratamento não medicamentoso da hipertensão arterial.

Prática de atividade física

A prática regular de atividade física diminui a incidência de hipertensão arterial e o risco de mortalidade por doenças cardiovasculares. Contudo, em pacientes hipertensos, a atividade deve ser precedida de uma avaliação médica especializada.

Em uma meta-análise com 391 ensaios clínicos, observou-se que o exercício físico foi tão eficaz quanto os medicamentos hipertensivos na redução da pressão arterial sistólica.

Sendo assim, para os pacientes hipertensos, as recomendações de exercícios físico são:

1) Reduzir o período de inatividade, movimentando-se sempre que possível. Levantar-se por 5 minutos a cada 30 minutos sentado.

2) A cada semana, realizar 150 a 350 minutos de treinamento aeróbico moderado, como andar, correr, dançar, nadar, andar de bicicleta, etc (3 a 5 vezes por semana, 30 a 60 minutos por sessão).

3) Como complemento aos exercícios aeróbios, pode-se realizar exercícios de resistência  (fortalecimento muscular) de 2 a 3 vezes por semana, em dias não consecutivos.

4) Aumentar a atividade física incidental (realizada no lar ou trabalho, como varrer o chão).

Sono adequado

Diversas condições do mundo moderno podem prejudicar o sono: trabalho por turnos, alta exposição às telas, luzes artificiais… Como consequência, muitos adultos acabam tendo horários de sono irregulares, má qualidade e privação do sono, resultando em maior risco de hipertensão arterial. 

Em uma meta-análise com mais de 1 milhão de indivíduos, descobriu-se que tanto a duração curta (≤5 h) ou longa (≥9 h) do sono podem aumentar os níveis da PA.

Além de perturbar o ciclo circadiano, o sono inadequado também aumenta os fatores de risco à hipertensão. Por exemplo, a privação de sono está positivamente associada a níveis desregulados de leptina, aumento da fome e incidência da obesidade. 

Nesse cenários, abordagens para melhorar a qualidade do sono incluem:

  • Dormir 7 a 9 horas por dia;
  • Ter horários regulares para dormir, acordar, comer e se exercitar;
  • Restringir os cochilos diurnos à 30 minutos, no máximo;
  • Dormir em um ambiente totalmente escuro;
  • Evitar a ingestão de alimentos, cafeína, álcool e cigarros perto da hora de dormir;
  • Evitar a exposição às telas de 1 a 2 horas antes de dormir.

Cessação do tabagismo

Estima-se que o tabagismo eleve a pressão arterial em cerca de 5 a 10 mmHg. Embora não haja estudos conclusivos sobre os benefícios da cessação, parar de fumar deve ser uma prioridade para pacientes hipertensos, devido ao risco cardiovascular e de neoplasias.

O risco deste hábito não se restringe aos cigarros: charutos, cachimbos, narguilé e cigarros eletrônicos. Todos os tipos devem ser excluídos. 

Além do apoio psicológico, a prescrição de medicamentos são eficazes para ajudar os fumantes a parar de fumar. Estes incluem as gomas, pastilhas e adesivos de nicotina.

Controle do estresse

Situações de estresse ocasionam uma maior liberação adrenérgica, o que pode elevar os níveis pressóricos e até dificultar o efeito de medicações hipotensoras.

Por outro lado, técnicas de manejo de estresse vêm sendo estudadas para redução da PA. Terapia comportamental, meditação, yoga, musicoterapia, atenção plena, acupuntura, e exercícios de respiração profunda são alguns dos principais exemplos.

Uma meta-análise relatou que 45 minutos de ioga por dia, durante 12 semanas, foi capaz de reduzir a PAS em 6,5 mmHg, e a PAD em 2,8 mmHg.

Para o controle do estresse em hipertensos, a International Society of Hypertension indica:

  • Técnicas de redução do estresse por pelo menos 3 horas/semana;
  • Ioga, meditação ou tai chi por pelo menos 45 minutos/semana;
  • Ouvir música pelo menos 3 vezes na semana ou todos os dias (exp: música clássica).

No geral, a melhor intervenção para reduzir o estresse será aquela da preferência de cada indivíduo e que se encaixe em sua rotina, para ser sustentável ao longo do tempo.

Conclusão

A hipertensão é uma das principais causas mundiais de morte prematura. Embora o tratamento farmacológico seja fundamental, estratégias não medicamentosas também são essenciais no manejo adequado da doença. Portanto, essas ferramentas devem ser combinadas e incentivadas pelos profissionais da saúde.

Ter um padrão alimentar saudável, praticar atividades físicas, dormir bem e controlar o estresse são alguns exemplos de mudanças simples e acessíveis a serem incentivadas por profissionais de saúde que tratam a hipertensão. Com uma abordagem integrada, essa enfermidade há de ser combatida. 

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Referências:

Barroso, W. K. S., Rodrigues, C. I. S., Bortolotto, L. A., Mota-Gomes, M. A., Brandão, A. A., Feitosa, A. D. D. M., … & Nadruz, W. (2021). Diretrizes brasileiras de hipertensão arterial–2020. Arquivos brasileiros de cardiologia, 116, 516-658.

Charchar FJ et al. Lifestyle management of hypertension: International Society of Hypertension position paper endorsed by the World Hypertension League and European Society of Hypertension. J Hypertens. 2024 Jan 1;42(1):23-49. doi: 10.1097/HJH.0000000000003563. Epub 2023 Sep 12. PMID: 37712135; PMCID: PMC10713007.

Diretriz brasileira de hipertensão arterial (material resumido). Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

Valenzuela, P.L., Carrera-Bastos, P., Gálvez, B.G. et al. Lifestyle interventions for the prevention and treatment of hypertension. Nat Rev Cardiol 18, 251–275 (2021). https://doi.org/10.1038/s41569-020-00437-9

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