Entenda por que a caquexia é uma condição tratável – e não um destino inevitável – e como identificar seus fenótipos para intervir de forma precoce.
A caquexia é uma síndrome metabólica complexa associada a doenças crônicas e agudas. Essa condição ainda é frequentemente subestimada na prática clínica, confundida com emagrecimento comum, ou então encarada como sinal inevitável de terminalidade.
Um novo documento de opinião elaborado pelo Grupo de Interesse Especial (SIG) da ESPEN sobre caquexia-anorexia em doenças crônicas de desgaste desafia essa visão e propõe um olhar mais preciso, dinâmico e orientado ao tratamento.

Fonte: Canva
Caquexia e desnutrição relacionada à doença: dois nomes para uma mesma condição
O documento parte de uma premissa importante: a desnutrição relacionada à doença (DRD) com inflamação crônica e a caquexia podem ser tratados como sinônimos e termos intercambiáveis.
Essa unificação reflete uma compreensão patofisiológica comum, centrada na presença de inflamação sistêmica, catabolismo aumentado, redução da ingestão alimentar e alterações na composição corporal.
Nesse sentido, o diagnóstico de DRD com inflamação se dá conforme estabelecido pelo framework GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition):
- Pelo menos 1 critério etiológico (como redução da ingestão alimentar ou inflamação)
- Pelo menos 1 critério fenotípico (como perda de peso, baixo IMC ou redução de massa muscular)
Um avanço recente é que a presença de doença aguda ou crônica, infecção ou lesão habitualmente associada à atividade inflamatória já é suficiente para preencher o critério de inflamação, sem necessidade de confirmação laboratorial.
Fenótipos da caquexia
Um dos pontos centrais do documento é a necessidade de caracterizar o fenótipo da caquexia para personalizar as intervenções nutricionais e metabólicas. A caquexia não se apresenta da mesma forma em todos os pacientes: a doença de base, a idade, o sexo, a composição corporal basal e o grau de resistência à insulina moldam expressões clínicas distintas.
Os fenótipos da caquexia foram descritos de acordo com a doença de base (figura 1) e de acordo com a composição corporal (figura 2).

Figura 1 – fenótipos de acordo com a doença de base

Figura 2 – fenótipos de acordo com a composição corporal
Os autores destacam que os fenótipos são dinâmicos: podem evoluir ao longo do tempo dentro do mesmo paciente, à medida que a doença progride ou responde ao tratamento.
Na trajetória típica de desnutrição, a perda de tecido adiposo tende a ocorrer nas fases iniciais, seguida pela redução de massa muscular e, posteriormente, pela queda do IMC. Reconhecer em qual estágio o paciente se encontra é essencial para definir a estratégia terapêutica mais adequada.
O papel da inflamação na resposta ao tratamento nutricional
Na caquexia, a inflamação é um dos principais moduladores da eficácia das intervenções nutricionais, embora não seja o único determinante. Estudos mostram que pacientes com concentrações elevadas de proteína C-reativa (PCR) tendem a responder menos favoravelmente à terapia nutricional do que aqueles com inflamação menos intensa.
O SIG, no entanto, não transforma essa relação em uma regra absoluta. Quando a inflamação é controlada ou diminuída, a capacidade anabólica pode ser recuperada. Além disso, mesmo em estados de inflamação aguda, como grandes queimaduras, sepse ou pós-operatório de grande porte, intervenções nutricionais individualizadas podem trazer benefícios relevantes.
Os autores também apontam para novas ferramentas diagnósticas: abordagens metabolômicas, capazes de identificar e caracterizar respostas inflamatórias específicas em pacientes com caquexia, podem ampliar a precisão diagnóstica e orientar tratamentos mais personalizados no futuro.
Caquexia não é sinônimo de terminalidade
Um equívoco ainda frequente é associar caquexia à fase terminal da doença. O SIG contesta essa visão: a caquexia pode ocorrer em qualquer fase de uma doença crônica ou aguda, e é pelo menos parcialmente reversível.
Evidências em pacientes com câncer, doença renal crônica, DPOC e insuficiência cardíaca congestiva demonstram que intervenções nutricionais e metabólicas adequadas podem melhorar o estado nutricional e o prognóstico.
As diretrizes reconhecem que, nos últimos dias e semanas de vida, a terapia nutricional tem indicação limitada, pois raramente resulta em benefício funcional ou de conforto para o paciente. Confundir as duas situações pode levar tanto à omissão de tratamento em quem poderia se beneficiar quanto à intervenção fútil em quem está realmente em fase final de vida.
Barreiras e soluções possíveis
Alguns obstáculos que ainda impedem o diagnóstico e o manejo adequados da caquexia.
Uma pesquisa internacional revelou que mais de 50% dos pacientes relatam que seus médicos não verificaram problemas nutricionais durante o tratamento, e quase metade dos pacientes sentiu que a perda de peso involuntária não era considerada importante por seus médicos.
Entre profissionais de saúde, um levantamento mostrou que 48% esperavam uma perda de peso de 15% para iniciar qualquer intervenção nutricional, um limiar claramente tardio.
Diante disso, o SIG recomenda o desenvolvimento de programas de treinamento em atenção primária, a integração da educação nutricional nos currículos médicos e o fortalecimento dos serviços comunitários de nutrição e dietética.
A proposta de um caminho no qual o manejo nutricional ocorre em paralelo ao tratamento da doença de base é apresentada como uma estratégia eficaz, especialmente na oncologia.
Conclusão
O documento do SIG-ESPEN reforça que a caquexia é uma condição dinâmica, heterogênea e tratável, e não um destino inevitável.
Caracterizar seu fenótipo, quantificar o grau de inflamação e intervir de forma precoce e personalizada são os pilares de uma abordagem clínica que pode mudar desfechos.
Atualmente, o desafio é levar esse conhecimento para além dos especialistas em nutrição clínica, alcançando todos os profissionais que cuidam de pacientes com doenças crônicas.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
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- Guia Nutritotal: Desnutrição no Adulto
Referência:
Molfino A, Imbimbo G, Rothenberg E… Phenotype profiling of disease-related malnutrition with inflammation: Document elaborated by the ESPEN special interest group (SIG) ‘‘cachexia-anorexia in chronic wasting diseases’’. Clinical Nutrition, 2026; 59.
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