Entenda o mecanismo bioquímico por trás dos sintomas gastrointestinais associados ao consumo de leguminosas e como a utilização de enzimas pode ser uma estratégia terapêutica.
Feijão, grão-de-bico, lentilha, ervilha, soja… As leguminosas são alimentos ricos em proteínas vegetais, fibras, vitaminas e minerais. Entretanto, muitas pessoas as evitam por conta de um efeito colateral comum ao seu consumo: os gases.
Não se trata de mito ou sensibilidade exagerada. Na realidade, existe um mecanismo fisiológico específico que conecta as leguminosas ao aumento na produção de gás intestinal. Compreender esse mecanismo é o primeiro passo para orientar seus pacientes de forma mais precisa e efetiva.

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Hoje, vamos entender porque leguminosas causam gases, e quais estratégias podem mitigar esse efeito.
A presença da rafinose nas leguminosas
As leguminosas são ricas em carboidratos conhecidos como oligossacarídeos da família rafinose (RFOs), sendo que a rafinose, a estaquiose e a verbascose são os principais representantes. Eles estão presentes em abundância em alimentos como soja, grão-de-bico, lentilha, feijão e ervilha, podendo representar mais de 50% dos açúcares solúveis totais em algumas espécies.
Do ponto de vista estrutural, os RFOs são α-D-galactosídeos da sacarose, ou seja, moléculas de sacarose com uma ou mais unidades de galactose ligadas por ligações α-glicosídicas.
Os RFOs possuem potencial prebiótico no organismo humano, promovendo o crescimento de bactérias benéficas e reduzindo bactérias nocivas. Também possuem ação anti-alérgica, anti obesidade, antidiabética e preventiva contra doença hepática.
Por que os RFOs causam gases?
Ao contrário de outros carboidratos, os RFOs não são hidrolisados no intestino delgado, porque o organismo humano simplesmente não produz a enzima α-galactosidase, necessária para clivar essas ligações.
Sem a digestão adequada no intestino delgado, os RFOs chegam intactos ao cólon, onde se tornam substratos disponíveis para a fermentação bacteriana.
Ali, as bactérias do microbioma metabolizam esses oligossacarídeos e produzem os gases finais desse processo: hidrogênio (H₂), metano (CH₄) e dióxido de carbono (CO₂). Esses gases são os principais responsáveis pela flatulência, distensão abdominal, cólicas e desconforto que muitos indivíduos relatam após o consumo de leguminosas.
Esse processo é dose-dependente e altamente individual, já que a composição do microbioma de cada pessoa influencia diretamente o volume e o tipo de gás produzido.
Qual é o impacto clínico dos gases?
Os sintomas relacionados a gases estão entre as queixas gastrointestinais mais prevalentes na população, sendo que mais de 20% da população relatam dor ou desconforto abdominal, e 16% relatam distensão ou flatulência.
Embora frequentemente subestimados, esses sintomas impactam negativamente a qualidade de vida e, em muitos casos, levam à restrição alimentar espontânea.
Isso pode comprometer a ingestão proteica e a diversidade da dieta, especialmente em populações que dependem das leguminosas como fonte proteica principal, como vegetarianos e veganos.
Como a utilização de enzimas pode ajudar?
Como visto, a flatulência é tipicamente causada pela fermentação de alimentos não digeridos. Assim, se o problema é a ausência de uma enzima específica para digerir os RFOs, a solução mais direta é fornecê-la exogenamente.
A enzima alimentar alfa-galactosidase, derivada do fungo Aspergillus niger, atua diretamente no trato gastrointestinal, degradando os oligossacarídeos não digeríveis antes que eles sejam fermentados pelas bactérias colônicas.
Na prática, isso significa interromper o substrato fermentativo na origem: menos RFOs disponíveis para as bactérias colônicas resultam em menos produção de gás e, consequentemente, redução dos sintomas.
Evidências científicas
Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou o efeito de diferentes doses de alfa-galactosidase (300 e 1200 GalU) em voluntários saudáveis após uma refeição rica em carboidratos fermentáveis (420 g de feijão cozido).
A dose de 1200 GalU induziu redução significativa na excreção cumulativa de H₂ no ar expirado, um marcador objetivo de produção intestinal de gás. Além disso, reduziu a flatulência e o escore total de sintomas.
A evidência vai além dos adultos. Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou a eficácia e a tolerabilidade da alfa-galactosidase em 52 crianças e adolescentes (4 a 17 anos) com sintomas gastrointestinais predominantemente relacionados a gases.
Após 2 semanas de tratamento, o grupo que recebeu a enzima apresentou, em relação ao placebo:
- Redução no número de dias com inchaço moderado a grave
- Redução na proporção de pacientes com flatulência significativa em comparação com o placebo
- Taxas de melhora mais elevada
Esses resultados reforçam que a alfa-galactosidase pode reduzir a chegada de substrato fermentável ao cólon, atenuar a produção de gás e os sintomas associados.
Demais tratamentos
Além da utilização de enzimas, existem alternativas para a redução dos gases advindos do consumo de leguminosas. O uso de antibióticos, por exemplo, pode proporcionar alívio significativo dos sintomas gastrointestinais funcionais, inchaço e dor abdominal, mas a necessidade de ciclos repetidos pode ter um impacto importante na microbiota intestinal.
Além disso, os RFOs podem ser reduzidos com técnicas de processamento de alimentos, incluindo:
- Imersão
- Germinação
- Fermentação
- Cozimento
Embora melhorem a digestibilidade das leguminosas, esses métodos podem ser demorados, levar à perda de nutrientes, e apresentar problemas de aceitação pelo consumidor.
Implicações para a prática clínica
A orientação para restringir leguminosas na dieta de pacientes com queixas gastrointestinais pode ser, na maioria dos casos, desnecessária e até contraproducente do ponto de vista nutricional. Sendo assim, a compreensão do mecanismo da rafinose abre espaço para estratégias mais precisas:
- Orientar técnicas culinárias que reduzem parcialmente os RFOs;
- Considerar o uso de alfa-galactosidase como suporte enzimático nas refeições que incluem leguminosas.
Em suma, o uso da alfa-galactosidase é uma intervenção segura, bem tolerada e eficaz para diminuir os gases causados pelo consumo de leguminosas.
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Referências
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Di Stefano, M., Miceli, E., Gotti, S. et al. The Effect of Oral α-Galactosidase on Intestinal Gas Production and Gas-Related Symptoms. Dig Dis Sci 52, 78–83 (2007). https://doi.org/10.1007/s10620-006-9296-9
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