O iodo é um micronutriente essencial para vida humana, sendo o segundo micronutriente reconhecido como…
Da triagem ao tratamento: saiba como identificar, prevenir e manejar a deficiência de iodo em diferentes fases da vida
A deficiência de iodo continua sendo um importante problema de saúde pública em diversas regiões do mundo, afetando grupos como gestantes, lactantes e crianças.

Fonte: Canva
Neste texto, você vai entender como diagnosticar a deficiência de iodo, quais são suas consequências clínicas e quais estratégias podem ser adotadas para prevenção e tratamento.
Quanto de iodo consumir por dia para evitar a deficiência?
As necessidades diárias de iodo variam de acordo com o estágio da vida. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Academia Nacional de Medicina (NAM) estabelecem diferentes faixas, conforme a tabela abaixo.
| Estágio da vida | NAM – EAR (µg/dia) | NAM – AI ou RDA (µg/dia) | NAM – UL (µg/dia) | OMS – Estágio de vida | OMS – INR (µg/dia) |
| 0–12 meses | ND | 110–130ᶜ | ND | – | – |
| 1–8 anos | 65 | 90 | 200–300 | 0–5 anos | 90 |
| 9–13 anos | 73 | 120 | 600 | 6–12 anos | 120 |
| Acima de 14 anos | 95 | 150 | 900–1100 | Acima de 12 anos | 150 |
| Grávidas | 160 | 220 | 900–1100 | Grávidas | 250 |
| Lactantes | 200 | 290 | 900–1100 | Lactantes | 250 |
AI = ingestão adequada; EAR = necessidade média estimada; RDA = ingestão dietética recomendada; UL = limite máximo tolerado de ingestão diária; INR = ingestão de nutriente recomendada; ND = não determinado.
Para mais informações sobre fontes alimentares de iodo, incluindo a política de iodação do sal, consulte o artigo:
Qual a importância do iodo para a saúde? Funções, fontes alimentares e mais!
Como avaliar o estado nutricional do iodo?
A avaliação do estado nutricional do iodo baseia-se em dados clínicos e bioquímicos.
A excreção urinária de iodo é a melhor forma de determinar seu status, pois mais de 90% do iodo ingerido aparece na urina de 24h, conforme a tabela abaixo.
| Grupo | Iodo urinário (mediana, m/L) | Ingestão de iodo | Status |
| Crianças até 2 anos ou mulheres a amamentar | <100 | Insuficiente | — |
| ≥100 | Adequado | — | |
| Acima de 6 anos | <20 | Insuficiente | Deficiência grave |
| 20–49 | Insuficiente | Deficiência moderada | |
| 50–99 | Insuficiente | Deficiência leve | |
| 100–199 | Adequado | Ótimo | |
| 200–299 | Mais do que adequado | Provavelmente fornece uma ingestão adequada para mulheres grávidas/lactantes, mas pode representar um ligeiro risco de ingestão superior à adequada na população em geral. | |
| ≥300 | Excessivo | Risco de consequências adversas para a saúde (hipertireoidismo induzido por iodo, doenças autoimunes da tireoide). | |
| Mulheres grávidas | <150 | Insuficiente | — |
| 150–249 | Adequada | — | |
| 250–499 | Mais do que adequada | — | |
| ≥500 | Excessiva | — |
OMS, 2007
Não recomenda-se avaliar o status nutricional do iodo a partir dos hormônios tireoidianos (T3 e eT4), porque durante uma deficiência leve os níveis desses hormônios permanecerão dentro dos limites normais. Somente em deficiência grave ocorrerá alteração desses parâmetros.
Além da análise bioquímica, também é possível realizar o exame clínico através da palpação da glândula tireoide ou do ultrassom, verificando a presença de bócio. Além disso, a análise oftalmológica permite a observação da exoftalmia (relacionado ao aumento da função da tireoide).
Estudos recentes em populações brasileiras reforçam a importância de avaliar o estado nutricional do iodo de forma contínua, especialmente durante a gestação. Em uma pesquisa transversal com 266 gestantes atendidas na atenção primária no Sudeste do Brasil, 38% apresentaram ingestão insuficiente de iodo e 27,8% mais do que adequada.
O estudo também identificou que fatores como consumo de temperos industrializados, armazenamento inadequado do sal e ingestão alcoólica estiveram associados à deficiência de iodo, destacando a influência dos hábitos alimentares e de conservação doméstica sobre o status nutricional do mineral.
Quais as consequência da deficiência de iodo?
Quando ocorre uma deficiência severa de iodo, a tireoide eleva sua atividade para maximizar a absorção e reciclagem desse nutriente.
Entretanto, como a concentração de iodo é extremamente baixa para permitir a produção dos hormônios tireoidianos, tem-se como consequência o bócio (aumento da glândula tireoide) e hipotireoidismo. Além disso, aumenta-se o risco de desenvolver nódulos tireoidianos autônomos.

Fonte: Canva
O bócio, caracterizado pelo inchaço da tireoide, é uma das principais consequências da deficiência de iodo.
Nesse cenário, tanto o crescimento quanto o desenvolvimento do ser humano é afetado e apresenta consequências negativas, gerando o termo “transtornos de deficiência de iodo” (IDD).
Os efeitos de IDD são:
– Para o feto: aborto, natimortos, anomalias congênitas, aumenta da mortalidade perinatal.
– Para recém-nascidos: hipotireoidismo neonatal, cretinismo endêmico, aumento da susceptibilidade da glândula tireoide a radiação nuclear.
– Para crianças e adolescentes: bócio, hipotireoidismo ou hipertireoidismo, função mental prejudicada, atraso no crescimento e puberdade, aumento da susceptibilidade da glândula tireoide à radiação nuclear.
– Para adulto e idoso: bócio com suas complicações, hipotireoidismo, infertilidade, função mental prejudicada, hipertireoidismo espontâneo em idosos, hipertireoidismo induzido por iodo, aumento da susceptibilidade da glândula tireoide à radiação nuclear.
Como repor o iodo em casos de deficiência?
De qualquer forma, a reposição de iodo deve ser baseada nas recomendações de consumo diário detalhadas anteriormente.
A reposição de iodo pode ser facilmente alcançada solicitando ao paciente que utilize sal iodado no preparo de suas refeições e à mesa.
Estratégias detalhadas para implementar a suplementação de iodo podem ser consideradas para grupos populacionais específicos (como gestantes e lactantes) quando o sal iodado, por si só, for insuficiente para suprir as necessidades adequadas.
E a ingestão excessiva de iodo?
O consumo excessivo de iodo não é comum. Mesmo em ingestões acima do recomendado, a maioria dos indivíduos apresenta resistência aos efeitos do excesso de iodo mantendo a função tireoidiana normal.
No entanto, a ingestão excessiva desse micronutriente pode gerar hipertireoidismo, hipotireoidismo, bócio e/ou autoimunidade da tireoide.
Indivíduos com doença tireoidiana preexistente ou previamente expostos à deficiência de iodo podem estar mais suscetíveis a distúrbios dessa glândula devido a um aumento do consumo alimentar desse micronutriente, mesmo sendo pouco acima das necessidades fisiológicas.
Na toxicidade, ocorrem alguns sinais clínicos como:
- Dor abdominal
- Perda de apetite
- Febre
- Delírio
- Diarreia
- Vômito
A longo prazo, pode ocorrer exoftalmia, diarreia, fraqueza muscular, irregularidades da menstruação, problemas respiratórios, perda de peso e até câncer da tireoide.
Conclusão
A deficiência de iodo pode provocar consequências significativas ao longo de toda a vida, desde prejuízos no desenvolvimento fetal até alterações metabólicas, cognitivas e tireoidianas em adultos e idosos.
O diagnóstico adequado, baseado principalmente na excreção urinária e na avaliação clínica, é fundamental. Com informação de qualidade e hábitos consistentes, é possível prevenir tanto a deficiência quanto o excesso e promover uma saúde tireoidiana plena.
Se você gostou deste conteúdo, leia também:
- Micronutrientes podem regular a função da tireoide?
- Micronutrientes: como avaliar deficiências e definir intervenções?
- Consenso europeu sobre má absorção
Referências
Lima, Livia Fernandes de Iodo [livro eletrônico] / Livia Fernandes de Lima, Anderson Marliere Navarro. — 3. ed. — São Paulo : International Life Sciences Institute do Brasil – ILSI Brasil, 2024. — (Iodo – Série funções plenamente reconhecidas de nutrientes ; v. 22).
National Institutes of Health (NIH), Office of Dietary Supplements (ODS). Iodine: Fact Sheet for Health Professionals [Internet]. Bethesda (MD): NIH; 2024.
Krela-Kaźmierczak I, Czarnywojtek A, Skoracka K, Rychter AM, Ratajczak AE, Szymczak-Tomczak A, Ruchała M, Dobrowolska A. Is There an Ideal Diet to Protect against Iodine Deficiency? Nutrients. 2021 Feb 4;13(2):513. doi: 10.3390/nu13020513. PMID: 33557336; PMCID: PMC7914421.
Tai Sheng Yeh, Nu Hui Hung, Tzu Chun Lin, Analysis of iodine content in seaweed by GC-ECD and estimation of iodine intake, Journal of Food and Drug Analysis, Volume 22, Issue 2, 2014, Pages 189-196, ISSN 1021-9498, https://doi.org/10.1016/j.jfda.2014.01.014.
Momentti, A.C., de Souza Macedo, M., de Sousa Silva, A.F. et al. Household Salt Storage and Seasoning Consumption Are Predictors of Insufficient Iodine Status Among Pregnant Women in Southeastern Brazil. Biol Trace Elem Res 201, 5529–5539 (2023). https://doi.org/10.1007/s12011-023-03615-1
Momentti AC, de Souza Macedo M, de Sousa Silva AF, de Oliveira Souza VC, Júnior FB, do Carmo Castro Franceschini S, Navarro AM. Household Salt Storage and Seasoning Consumption Are Predictors of Insufficient Iodine Status Among Pregnant Women in Southeastern Brazil. Biol Trace Elem Res. 2023 Dec;201(12):5529-5539. doi: 10.1007/s12011-023-03615-1. Epub 2023 Mar 8. Erratum in: Biol Trace Elem Res. 2024 Jan;202(1):399. doi: 10.1007/s12011-023-03647-7. PMID: 36884126; PMCID: PMC9993368.
Lee SL, Ananthakrishnan S, Pearce EN. Iodine Deficiency: Treatment & Management. eMedicine. Updated December 12 2024.
Lisco G, De Tullio A, Triggiani D, Zupo R, Giagulli VA, De Pergola G, Piazzolla G, Guastamacchia E, Sabbà C, Triggiani V. Iodine Deficiency and Iodine Prophylaxis: An Overview and Update. Nutrients. 2023 Feb 16;15(4):1004. doi: 10.3390/nu15041004. PMID: 36839362; PMCID: PMC9967346.
A Redação Nutritotal PRO é formada por nutricionistas, médicos e estudantes de nutrição que têm a preocupação de produzir conteúdos atuais, baseados em evidência científicas, sempre com o objetivo de facilitar a prática clínica de profissionais da área da saúde.
Leia também
A Redação Nutritotal é formada por nutricionistas, médicos e estudantes de nutrição que têm a preocupação de produzir conteúdos atuais, baseados em evidência científicas, sempre com o objetivo de facilitar a prática clínica de profissionais da área da saúde.


