Deficiência de iodo: diagnóstico, consequências, prevenção e tratamento

Postado em 25 de novembro de 2025

Da triagem ao tratamento: saiba como identificar, prevenir e manejar a deficiência de iodo em diferentes fases da vida

A deficiência de iodo continua sendo um importante problema de saúde pública em diversas regiões do mundo, afetando grupos como gestantes, lactantes e crianças. 

deficiência de iodo

Fonte: Canva

Neste texto, você vai entender como diagnosticar a deficiência de iodo, quais são suas consequências clínicas e quais estratégias podem ser adotadas para prevenção e tratamento.

Quanto de iodo consumir por dia para evitar a deficiência?

As necessidades diárias de iodo variam de acordo com o estágio da vida. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Academia Nacional de Medicina (NAM) estabelecem diferentes faixas, conforme a tabela abaixo.

Estágio da vidaNAM – EAR (µg/dia)NAM – AI ou RDA (µg/dia)NAM – UL (µg/dia)OMS – Estágio de vidaOMS – INR (µg/dia)
0–12 mesesND110–130ᶜND
1–8 anos6590200–3000–5 anos90
9–13 anos731206006–12 anos120
Acima de 14 anos95150900–1100Acima de 12 anos150
Grávidas160220900–1100Grávidas250
Lactantes200290900–1100Lactantes250

AI = ingestão adequada; EAR = necessidade média estimada; RDA = ingestão dietética recomendada; UL = limite máximo tolerado de ingestão diária; INR = ingestão de nutriente recomendada; ND = não determinado.

Para mais informações sobre fontes alimentares de iodo, incluindo a política de iodação do sal, consulte o artigo:

Qual a importância do iodo para a saúde? Funções, fontes alimentares e mais!

Como avaliar o estado nutricional do iodo?

A avaliação do estado nutricional do iodo baseia-se em dados clínicos e bioquímicos.

A excreção urinária de iodo é a melhor forma de determinar seu status, pois mais de 90% do iodo ingerido aparece na urina de 24h, conforme a tabela abaixo.

GrupoIodo urinário (mediana, m/L)Ingestão de iodoStatus
Crianças até 2 anos ou mulheres a amamentar<100Insuficiente
≥100Adequado
Acima de 6 anos<20InsuficienteDeficiência grave
20–49InsuficienteDeficiência moderada
50–99InsuficienteDeficiência leve
100–199AdequadoÓtimo
200–299Mais do que adequadoProvavelmente fornece uma ingestão adequada para mulheres grávidas/lactantes, mas pode representar um ligeiro risco de ingestão superior à adequada na população em geral.
≥300ExcessivoRisco de consequências adversas para a saúde (hipertireoidismo induzido por iodo, doenças autoimunes da tireoide).
Mulheres grávidas<150Insuficiente
150–249Adequada
250–499Mais do que adequada
≥500Excessiva

OMS, 2007

Não recomenda-se avaliar o status nutricional do iodo a partir dos hormônios tireoidianos (T3 e eT4), porque durante uma deficiência leve os níveis desses hormônios permanecerão dentro dos limites normais. Somente em deficiência grave ocorrerá alteração desses parâmetros.

Além da análise bioquímica, também é possível realizar o exame clínico através da palpação da glândula tireoide ou do ultrassom, verificando a presença de bócio. Além disso, a análise oftalmológica permite a observação da exoftalmia (relacionado ao aumento da função da tireoide).

Estudos recentes em populações brasileiras reforçam a importância de avaliar o estado nutricional do iodo de forma contínua, especialmente durante a gestação. Em uma pesquisa transversal com 266 gestantes atendidas na atenção primária no Sudeste do Brasil, 38% apresentaram ingestão insuficiente de iodo e 27,8% mais do que adequada. 

O estudo também identificou que fatores como consumo de temperos industrializados, armazenamento inadequado do sal e ingestão alcoólica estiveram associados à deficiência de iodo, destacando a influência dos hábitos alimentares e de conservação doméstica sobre o status nutricional do mineral.

Quais as consequência da deficiência de iodo?

Quando ocorre uma deficiência severa de iodo, a tireoide eleva sua atividade para maximizar a absorção e reciclagem desse nutriente. 

Entretanto, como a concentração de iodo é extremamente baixa para permitir a produção dos hormônios tireoidianos, tem-se como consequência o bócio (aumento da glândula tireoide) e hipotireoidismo. Além disso, aumenta-se o risco de desenvolver nódulos tireoidianos autônomos.

bócio

Fonte: Canva

O bócio, caracterizado pelo inchaço da tireoide, é uma das principais consequências da deficiência de iodo.

Nesse cenário, tanto o crescimento quanto o desenvolvimento do ser humano é afetado e apresenta consequências negativas, gerando o termo “transtornos de deficiência de iodo” (IDD).

Os efeitos de IDD são:

– Para o feto: aborto, natimortos, anomalias congênitas, aumenta da mortalidade perinatal.

– Para recém-nascidos: hipotireoidismo neonatal, cretinismo endêmico, aumento da susceptibilidade da glândula tireoide a radiação nuclear.

– Para crianças e adolescentes: bócio, hipotireoidismo ou hipertireoidismo, função mental prejudicada, atraso no crescimento e puberdade, aumento da susceptibilidade da glândula tireoide à radiação nuclear.

– Para adulto e idoso: bócio com suas complicações, hipotireoidismo, infertilidade, função mental prejudicada, hipertireoidismo espontâneo em idosos, hipertireoidismo induzido por iodo, aumento da susceptibilidade da glândula tireoide à radiação nuclear.

Como repor o iodo em casos de deficiência?

De qualquer forma, a reposição de iodo deve ser baseada nas recomendações de consumo diário detalhadas anteriormente.

A reposição de iodo pode ser facilmente alcançada solicitando ao paciente que utilize sal iodado no preparo de suas refeições e à mesa. 

Estratégias detalhadas para implementar a suplementação de iodo podem ser consideradas para grupos populacionais específicos (como gestantes e lactantes) quando o sal iodado, por si só, for insuficiente para suprir as necessidades adequadas.

E a ingestão excessiva de iodo?

O consumo excessivo de iodo não é comum. Mesmo em ingestões acima do recomendado, a maioria dos indivíduos apresenta resistência aos efeitos do excesso de iodo mantendo a função tireoidiana normal. 

No entanto, a ingestão excessiva desse micronutriente pode gerar hipertireoidismo, hipotireoidismo, bócio e/ou autoimunidade da tireoide

Indivíduos com doença tireoidiana preexistente ou previamente expostos à deficiência de iodo podem estar mais suscetíveis a distúrbios dessa glândula devido a um aumento do consumo alimentar desse micronutriente, mesmo sendo pouco acima das necessidades fisiológicas.

Na toxicidade, ocorrem alguns sinais clínicos como:

  • Dor abdominal
  • Perda de apetite
  • Febre
  • Delírio
  • Diarreia 
  • Vômito

A longo prazo, pode ocorrer exoftalmia, diarreia, fraqueza muscular, irregularidades da menstruação, problemas respiratórios, perda de peso e até câncer da tireoide.

Conclusão

A deficiência de iodo pode provocar consequências significativas ao longo de toda a vida, desde prejuízos no desenvolvimento fetal até alterações metabólicas, cognitivas e tireoidianas em adultos e idosos. 

O diagnóstico adequado, baseado principalmente na excreção urinária e na avaliação clínica, é fundamental. Com informação de qualidade e hábitos consistentes, é possível prevenir tanto a deficiência quanto o excesso e promover uma saúde tireoidiana plena.

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Referências

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