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Desnutrição afeta negativamente a resposta à vacina contra rotavírus

Postado em 30 de junho de 2017 | Autor: Alweyd Tesser

Um estudo multicêntrico, publicado no Journal of Infectious Diseases, acompanhoucrianças desde o nascimento até os dois anos de idade, em países comprevalência historicamente alta de desnutrição. Foi demonstrado que a proteçãopor vacinação contra rotavírus pode não ser mantida no segundo ano de vida emambientes com altas taxas de transmissão desse patógeno e por baixa resposta àsvacinas orais.

O estudo de coorte de nascimentos foi conduzido entreabril de 2009 e fevereiro de 2014 em Daka (Bangladesh); Fortaleza (Brasil);Velorre (Índia); Bhaktapur (Nepal); Loreto (Peru); Naushero Feroze (Paquistão);Venda (África do Sul) e em Haydom (Tanzânia).

Ao todo 1.737 crianças saudáveis foram recrutadas até o17° dia do nascimento, e acompanhadas até 24 meses de idade. Ao longo dainvestigação os autores coletaram informações demográficas, socioeconômicas,medidas antropométricas, detalhes sobre práticas alimentares e doenças, bemcomo histórico de vacinação. Três dos oito países investigados apresentavamprograma de vacinação nacional para rotavírus: Brasil, Peru e África do Sul. ATanzânia incorporou essa medida após o estudo.

Foram coletadas amostras de fezes mensalmente nosprimeiros 12 meses e aos 15, 18, 21 e 24 meses, e também durante os episódiosde diarreia ao longo de todo o seguimento. A presença de rotavírus foiinvestigada por imunoensaio enzimático. Amostras de sangue coletadas aos sete eaos 15 meses de idade foram usadas para testar anticorpos imunoglobulina G(IgG) e A (IgA) contra rotavírus.

Os resultados demonstraram que 37,9% das crianças foraminfectadas com rotavírus. Este patógeno esteve presente em 5,5% das fezesdiarreicas analisadas, e 19,8% das crianças tiveram gastroenterite associada aesse vírus.

Quanto à vacinação, o Brasil foi o país que apresentoumenor adesão: 88% das crianças receberam pelo menos uma dose, e 71,8% receberamduas doses. Na África do Sul, 96,2% receberam pelo menos uma dose e 85,8%receberam duas doses, enquanto no Peru as taxas de adesão foram as mais altas:98% e 96,9%, respectivamente.

Países que apresentaram esquema vacinal tiveram, emgeral, incidência significativamente menor de infecção. No primeiro ano,Bangladesh apresentou a maior incidência (70,17 por 100 crianças-ano) e oBrasil a menor (3,07 por 100 crianças-ano). A tendência principal foi de umaincidência menor no segundo ano de vida, sendo que o Peru apresentou a maiortaxa (60,30 por 100 crianças-ano) e o Brasil a menor (6,56 por 100crianças-ano).

Quanto à incidência de diarreia por rotavírus, noprimeiro ano, Bangladesh também teve a maior taxa (40,85 por 100 crianças-ano),e o Brasil a menor (0,61 por 100 crianças-ano). No segundo ano, o Peruapresentou a maior incidência (25,77 por 100 crianças-ano) e a África do Sul amenor (1,27 por 100 crianças-ano).

Os dados do Peru chamaram a atenção dos pesquisadores,pois a região, apesar de apresentar a maior cobertura vacinal, revelou altastaxas de incidência da doença e de diarreia, especialmente no segundo ano devida. Esse achado é reforçado pela percepção de que das 16 crianças quedesenvolveram gastroenterite grave por rotavírus, 15 casos ocorreram no Peru,sendo 13 em crianças que receberam duas doses da vacina.

De acordo com os autores, o Peru tem uma taxa dedesnutrição significativa, e esse quadro pode diminuir a resposta vacinal. Osachados sugerem que nesse país a vacina não teve uma boa sustentabilidade deprevenção no segundo ano. Esse resultado pode estar associado também a algumproblema da vacina com relação à duração da proteção.

Por outro lado, o Brasil, que apresentou a menorcobertura vacinal, revelou as melhores taxas com relação à incidência derotavírus. Aparentemente, portanto, a vacina parece estar surtindo um efeitopositivo no Brasil. Além disso, atualmente o Brasil não tem prevalência alta dedesnutrição.

“Este talvez seja um dos primeiros estudos queindica a necessidade de avaliar melhor a duração da vacina após um ano,especialmente em locais onde a desnutrição é um fator importante”,concluem os autores. “O trabalho publicado em 2017 traz os resultados doacompanhamento de dois anos, porém o estudo atualmente já finalizou cinco anosde seguimento. Haverá, portanto, mais resultados acerca dessa investigação”, afirmam.

Referência

Mohan VR,
Ramanujam K, Babji S, McGrath M, Shrestha S, Shrestha J, et al. Rotavirus
infection and disease in a multi-site birth cohort: Results from the MAL-ED
study. J Infect Dis. 2017 [Epub ahead of print]

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