Novos pontos de corte de IMC para jovens adultos

Postado em 21 de abril de 2026

Pesquisa brasileira propõe pontos de corte otimizados para detectar excesso de adiposidade em jovens adultos de 18 anos com maior precisão diagnóstica.

A obesidade, caracterizada pelo excesso de gordura corporal, geralmente é identificada por um índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30,0 kg/m².

Contudo, nos últimos anos, este marcador vem colecionando diversas críticas quanto às suas limitações. Por exemplo, um estudo comparando o IMC com a absorciometria de raios X de dupla energia (DXA) mostrou que o IMC classificou erroneamente 25% dos homens e 48% das mulheres.

Novos pontos de corte de IMC

Fonte: Canva

Na intenção de aumentar a sensibilidade e especificidade deste índice, um recente estudo conduzido por pesquisadores brasileiros investigou novos pontos de corte de IMC para homens e mulheres de 18 anos. Confira os detalhes a seguir.

O cenário do IMC na atualidade

Como sabemos, o IMC é calculado com base na altura e no peso corporal de um indivíduo, e seus pontos de corte definem o estado nutricional para diferentes faixas etárias. Em adultos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) define a classificação nutricional a partir do IMC de acordo com a tabela abaixo.

IMC (kg/m²)Classificação
< 18.5Baixo peso
18.5 a 24.9Eutrofia
25 a 29.9Sobrepeso
30 a 34.9Obesidade grau I
35 a 39.9Obesidade grau II
≥ 40Obesidade grau III

Embora simples e de baixo custo, o IMC apresenta limitações bem conhecidas na distinção entre massa magra (MM) e massa gorda (MG), podendo subestimar ou superestimar a adiposidade real. Tal limitação afeta principalmente jovens em fase de crescimento.

Sabendo disso, diretrizes recentes recomendam que, em contextos clínicos, o excesso de adiposidade seja confirmado por medidas diretas de gordura corporal ou pelo menos um critério antropométrico adicional (como circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou relação cintura-estatura), aplicando métodos validados e pontos de corte específicos para idade, sexo e etnia.

Uma exceção é feita apenas para indivíduos com valores de IMC muito altos (>40,0 kg/m²), para os quais o excesso de adiposidade pode ser assumido sem confirmação adicional.

Embora não seja adequado como indicador individual de saúde, o IMC continua sendo um indicador válido de risco à saúde em nível populacional, especialmente em pesquisas epidemiológicas e para triagem.

De qualquer forma, há uma necessidade de pontos de corte mais precisos em populações jovens que passam por transições nutricionais e epidemiológicas. 

Pesquisa brasileira investiga novos pontos de corte de IMC para jovens adultos

Em um estudo conduzido em Pelotas – RS, pesquisadores avaliaram 3.489 indivíduos, acompanhados desde os 3 meses até os 18 anos de idade.

O objetivo foi definir e avaliar a validade de um ponto de corte do IMC, utilizando a gordura corporal estimada por ADP (pletismografia por deslocamento de ar) como método de referência, separadamente para homens e mulheres.

Além disso, outros parâmetros de composição corporal investigados foram:

  • Massa de gordura (MG)
  • Massa livre de gordura (MLG)
  • Percentual de gordura corporal (%GC)

Os indivíduos foram classificados de acordo com pontos de corte para excesso de adiposidade: ≥20% de gordura corporal para homens e ≥33% para mulheres.

Para a análise estatística, curvas ROC e o índice de Youden foram utilizados para identificar o ponto de corte ideal do IMC para detecção de excesso de adiposidade, utilizando a %GC.

Pontos de corte diferentes para homens e mulheres

Para uma maior sensibilidade e especificidade, a análise indicou os seguintes pontos de corte ideal para detectar excesso de gordura corporal em jovens adultos de 18 anos:

  • IMC ≥ 24,0 kg/m² para homens
  • IMC ≥ 23,5 kg/m² para mulheres

O valor preditivo positivo (VPP) dos novos pontos de corte foi de 83,3% para homens e 86,1% para mulheres. A acurácia demonstrou superioridade em relação ao limiar de obesidade (≥30,0 kg/m²). 

Além disso, eles demonstraram precisão comparável ao limiar tradicional para sobrepeso (≥ 25,0 kg/m²) e superior ao usado para definir obesidade (≥ 30,0 kg/m²). 

A sensibilidade foi 2,4 vezes maior entre os homens (75,8% vs. 31,9%) e 2,6 vezes maior entre as mulheres (82,2% vs. 31,0%) em comparação com o limiar ≥ 30,0 kg/m². Esses resultados enfatizam a limitação do limiar ≥30,0 kg/m², que identifica corretamente o excesso de adiposidade em menos de um terço dos homens e das mulheres.

Por que a diferença entre os sexos?

A diferença de 0.5 kg/m² entre os pontos de corte para homens e mulheres provavelmente se deu devido as diferenças metabólicas associadas a cada sexo

As mulheres normalmente acumulam uma quantidade maior de gordura corporal, particularmente nos quadris e coxas, influenciado por hormônios sexuais (como o estrogênio) que promove o armazenamento de gordura subcutânea. Essa característica desempenha uma função evolutiva, fornecendo reservas de energia para a gravidez e a amamentação. 

Já os homens, que normalmente apresentam níveis mais elevados de testosterona, tendem a acumular menos gordura, desenvolver maior massa muscular e exibir uma menor concentração de gordura visceral. Além disso, a maior massa muscular nos homens está associada a uma maior frequência de atividade física, um padrão observado em todas as faixas etárias.

O que podemos concluir?

Os resultados deste estudo confirmam que, embora não seja um indicador perfeito, o IMC pode identificar o excesso de gordura corporal de forma mais eficaz quando são utilizados pontos de corte otimizados.

Segundo os autores, a implementação dos novos pontos de corte de IMC identificados levaria a um aumento de 20% no reconhecimento e na prevalência do excesso de adiposidade. Mais investigações, com diferentes faixas etárias, precisam ser conduzidas em busca deste objetivo.

Aprimorar a capacidade de triagem do IMC poderia facilitar a identificação precoce de indivíduos em risco e permitir intervenções mais personalizadas, em conjunto com avaliações clínicas e metabólicas.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Maria Cristina Gonzalez, Alicia Matijasevich, Gabriela Avila Marques, Ana Paula Oliveira Rosses, Ariane Frey Machado, Camila Corrêa Colvara, Débora Vergara Ferro, Glaucia Treichel Heller, Karisa Roxo Brina, Vanessa Barbosa da Conceição, Steven B. Heymsfield, Luciana Tovo-Rodrigues, Iná S. Santos, Defining BMI cutoff points for detecting excess body fat in young adults, Nutrition, 2026, 113145, ISSN 0899-9007, https://doi.org/10.1016/j.nut.2026.113145.

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