Posicionamento conjunto de sociedades brasileiras abordaram o risco cardiometabólico da mulher em todas as fases da vida, destacando o papel fundamental das intervenções nutricionais e do estilo de vida.
A saúde cardiometabólica é caracterizada por um estado ideal de pressão arterial, lipídios e glicose séricos, associado a baixa adiposidade e a um baixo risco cardiovascular (RCV). Já a má saúde metabólica representa uma carga substancial de morbidade e mortalidade por causas cardiovasculares, neoplásicas e por todas as causas.
Para o público feminino, os dados no Brasil são um alerta: as doenças cardiovasculares (DCVs) são responsáveis por cerca de 28% dos óbitos femininos. Além disso, a prevalência de distúrbios de peso é crítica, com 24,8% das mulheres apresentando obesidade e 38,7% com sobrepeso, totalizando mais de 63% das brasileiras com peso acima do recomendado.

Fonte: Canva
Reconhecendo a urgência do tema, recentemente foi lançado o Posicionamento Sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida das Mulheres.
O material é um esforço conjunto do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DCM/SBC), da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), com objetivo de diminuir a lacuna de conhecimento sobre os distúrbios cardiometabólicos nas mulheres.
A seguir, confira os principais highlights do guideline.
A jornada do risco cardiometabólico no ciclo de vida feminino
Em primeiro lugar, a diretriz destaca que o risco cardiometabólico feminino não é estático: ele se transforma conforme as fases hormonais, reprodutivas e metabólicas da vida da mulher.
Esses marcos modulam inflamação, composição corporal, metabolismo e até a resposta ao tratamento, o que reforça a importância de um cuidado contínuo, atento às particularidades de cada etapa.
Inflamação e risco cardiovascular
Alterações hormonais significativas, como as que ocorrem na menopausa e em complicações da gestação (especialmente pré-eclâmpsia e eclâmpsia), ativam vias inflamatórias que aceleram a aterosclerose, aumentam a rigidez vascular e prejudicam a função endotelial. Também contribuem para a isquemia microvascular, fenômeno particularmente relevante no risco cardiovascular feminino.
Além disso, mulheres com ciclos menstruais irregulares por causas endócrinas mostram níveis mais elevados de marcadores inflamatórios e têm maior probabilidade de desenvolver condições como síndrome metabólica ao longo dos anos.
O impacto da menopausa e do hipoestrogenismo
O declínio estrogênico da transição para a menopausa está associado a uma série de mudanças metabólicas relevantes:
- Aumento da adiposidade central
- Piora do metabolismo glicídico
- Elevação de colesterol total, LDL-c, triglicerídeos e lipoproteína(a)
- Aumento de marcadores inflamatórios e piora da função endotelial
- Maior sensibilidade ao sódio e ativação do sistema renina–angiotensina
Essas alterações contribuem para maior prevalência de hipertensão, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e eventos cardiovasculares na pós-menopausa.
Ciclo menstrual, SOP e marcadores reprodutivos
A avaliação do ciclo menstrual ganha protagonismo na diretriz: idade precoce ou tardia da menarca, irregularidades menstruais e a síndrome dos ovários policísticos (SOP) são reconhecidos como importantes indicadores de risco futuro.
A SOP, em especial, envolve resistência à insulina, dislipidemia e maior acúmulo de gordura visceral, compondo um cenário inflamatório que favorece doença cardiovascular prematura.
Na fase reprodutiva, outras condições – como endometriose, infertilidade com hiperestimulação ovariana e histórico de trombose – também se associam a risco aumentado.
Gestação como janela de risco
A gravidez é uma condição fisiológica de resistência à insulina, que pode se intensificar em mulheres com obesidade pré-gestacional. A diretriz reforça que:
1) A hiperlipidemia gestacional está associada à pré-eclâmpsia, parto prematuro e diabetes gestacional;
2) O concepto exposto a essas alterações pode desenvolver mais estrias de gordura e maior risco de aterosclerose futura;
3) Mulheres com intolerância à glicose na gestação têm risco elevado de desfechos adversos mesmo sem diagnóstico de DG;
4) O ganho de peso gestacional excessivo e sua retenção no pós-parto aumentam dislipidemia e resistência à insulina;
5) O histórico de diabetes gestacional aumenta o risco cardiometabólico ao longo de toda a vida.
Esses achados reforçam a importância do acompanhamento nutricional especializado antes, durante e após a gestação.
Marcadores clínicos e laboratoriais para rastreio
Indicadores antropométricos (como circunferência da cintura), perfil lipídico, glicemia, proteína C-reativa, fibrinogênio, homocisteína e adipocinas fornecem pistas importantes para avaliar composição corporal, distribuição de gordura e grau de inflamação, fundamentais para estimar risco cardiometabólico.
Estratégias para abordar os distúrbios cardiometabólicos nas mulheres
Recomendações nutricionais essenciais
A diretriz enfatiza que as intervenções nutricionais devem visar mudanças sustentadas no estilo de vida, com redução da morbimortalidade por distúrbios cardiometabólicos.
– Qualidade da dieta: o foco deve ser na redução de carboidratos simples e gorduras saturadas, acompanhada do aumento no consumo de fibras. Essa estratégia é vital para melhorar a sensibilidade à insulina e o controle glicêmico.
– Padrão alimentar mediterrâneo: a adoção da dieta mediterrânea é altamente recomendada. Este padrão, rico em frutas, vegetais, grãos integrais, azeite de oliva e leguminosas, tem se mostrado eficaz na redução do RCV.
– Individualização: as estratégias de intervenção nutricional devem ser totalmente personalizadas e adaptadas às necessidades individuais da mulher, considerando seu ciclo de vida e comorbidades.
– Apoio social e políticas públicas: o posicionamento sublinha a necessidade de programas em nível social para incentivar a dieta saudável e a atividade física, melhorando o acesso a políticas públicas voltadas para mulheres com distúrbios cardiometabólicos.
Prática de atividade física
A atividade física é crucial para o tratamento e prevenção de doenças cardiovasculares. A diretriz ressalta que a associação de exercícios aeróbicos com treinamento resistido proporciona melhorias significativas na composição corporal, sensibilidade à insulina e controle glicêmico.
As recomendações mínimas de atividade física incluem:
- Mínimo de 150 minutos por semana de atividade aeróbica de intensidade moderada,
- ou 75 minutos de atividade vigorosa,
- Associados a exercícios de resistência muscular em pelo menos dois dias por semana.
Um achado interessante de um dos estudos que fundamentou o posicionamento é que tanto a atividade física concentrada em 1 ou 2 dias quanto os padrões de atividade mais regulares estão associados a um risco similarmente menor de mais de 200 doenças, em particular as cardiometabólicas.
Abordagem multidisciplinar
A complexidade dos distúrbios cardiometabólicos nas mulheres exige uma abordagem multidisciplinar. Além da nutrição e do exercício, intervenções psicossociais, como a terapia cognitivo-comportamental, e programas integrados de suporte psicológico são essenciais para promover mudanças sustentadas no estilo de vida.
Outros fatores como a cessação do tabagismo e a moderação do álcool também fazem parte das estratégias não farmacológicas.
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O problema da falta de evidências
Apesar da importância do documento, a diretriz alerta para um desafio central na saúde da mulher: a falta de evidências robustas. As mulheres continuam sub-representadas em ensaios clínicos randomizados e controlados sobre doenças cardiovasculares e cardiometabólicas.
Essa limitação faz com que muitas recomendações sejam baseadas em evidências indiretas ou extrapoladas de estudos com maioria masculina, o que pode não refletir a melhor conduta para as mulheres. O posicionamento é um passo crucial para chamar a atenção para essa lacuna e a necessidade de pesquisas específicas.
Leia a diretriz na íntegra
No documento completo, são aprofundados muitos outros temas de grande relevância clínica, como as estratégias de diagnóstico e o manejo em casos mais graves.
Clique aqui para acessar o documento na íntegra.
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Referência:
Oliveira GMM, Almeida MCC, Valério CM, Giuffrida F, La Espíndola LN, Izar MCO, et al. Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250615.
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Nutricionista pela PUC Campinas, Especialização em Docência no Ensino Superior - UNINOVE, Especialista em TN pelas BRASPEN, Especialização em TN e Nutrição Clínica Ganep

