Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher – 2025

Postado em 9 de dezembro de 2025

Posicionamento conjunto de sociedades brasileiras abordaram o risco cardiometabólico da mulher em todas as fases da vida, destacando o papel fundamental das intervenções nutricionais e do estilo de vida.

A saúde cardiometabólica é caracterizada por um estado ideal de pressão arterial, lipídios e glicose séricos, associado a baixa adiposidade e a um baixo risco cardiovascular (RCV). Já a má saúde metabólica representa uma carga substancial de morbidade e mortalidade por causas cardiovasculares, neoplásicas e por todas as causas.

Para o público feminino, os dados no Brasil são um alerta: as doenças cardiovasculares (DCVs) são responsáveis por cerca de 28% dos óbitos femininos. Além disso, a prevalência de distúrbios de peso é crítica, com 24,8% das mulheres apresentando obesidade e 38,7% com sobrepeso, totalizando mais de 63% das brasileiras com peso acima do recomendado.

Saúde Cardiometabólica da mulher

Fonte: Canva

Reconhecendo a urgência do tema, recentemente foi lançado o Posicionamento Sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida das Mulheres.

O material é um esforço conjunto do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DCM/SBC), da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), com objetivo de diminuir a lacuna de conhecimento sobre os distúrbios cardiometabólicos nas mulheres.

A seguir, confira os principais highlights do guideline.

A jornada do risco cardiometabólico no ciclo de vida feminino

Em primeiro lugar, a diretriz destaca que o risco cardiometabólico feminino não é estático: ele se transforma conforme as fases hormonais, reprodutivas e metabólicas da vida da mulher. 

Esses marcos modulam inflamação, composição corporal, metabolismo e até a resposta ao tratamento, o que reforça a importância de um cuidado contínuo, atento às particularidades de cada etapa.

Inflamação e risco cardiovascular

Alterações hormonais significativas, como as que ocorrem na menopausa e em complicações da gestação (especialmente pré-eclâmpsia e eclâmpsia), ativam vias inflamatórias que aceleram a aterosclerose, aumentam a rigidez vascular e prejudicam a função endotelial. Também contribuem para a isquemia microvascular, fenômeno particularmente relevante no risco cardiovascular feminino.

Além disso, mulheres com ciclos menstruais irregulares por causas endócrinas mostram níveis mais elevados de marcadores inflamatórios e têm maior probabilidade de desenvolver condições como síndrome metabólica ao longo dos anos.

O impacto da menopausa e do hipoestrogenismo

O declínio estrogênico da transição para a menopausa está associado a uma série de mudanças metabólicas relevantes:

  • Aumento da adiposidade central
  • Piora do metabolismo glicídico
  • Elevação de colesterol total, LDL-c, triglicerídeos e lipoproteína(a)
  • Aumento de marcadores inflamatórios e piora da função endotelial
  • Maior sensibilidade ao sódio e ativação do sistema renina–angiotensina

Essas alterações contribuem para maior prevalência de hipertensão, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e eventos cardiovasculares na pós-menopausa.

Ciclo menstrual, SOP e marcadores reprodutivos 

A avaliação do ciclo menstrual ganha protagonismo na diretriz: idade precoce ou tardia da menarca, irregularidades menstruais e a síndrome dos ovários policísticos (SOP) são reconhecidos como importantes indicadores de risco futuro.

A SOP, em especial, envolve resistência à insulina, dislipidemia e maior acúmulo de gordura visceral, compondo um cenário inflamatório que favorece doença cardiovascular prematura. 

Na fase reprodutiva, outras condições – como endometriose, infertilidade com hiperestimulação ovariana e histórico de trombose – também se associam a risco aumentado.

Gestação como janela de risco

A gravidez é uma condição fisiológica de resistência à insulina, que pode se intensificar em mulheres com obesidade pré-gestacional. A diretriz reforça que:

1) A hiperlipidemia gestacional está associada à pré-eclâmpsia, parto prematuro e diabetes gestacional;

2) O concepto exposto a essas alterações pode desenvolver mais estrias de gordura e maior risco de aterosclerose futura;

3) Mulheres com intolerância à glicose na gestação têm risco elevado de desfechos adversos mesmo sem diagnóstico de DG;

4) O ganho de peso gestacional excessivo e sua retenção no pós-parto aumentam dislipidemia e resistência à insulina;

5) O histórico de diabetes gestacional aumenta o risco cardiometabólico ao longo de toda a vida.

Esses achados reforçam a importância do acompanhamento nutricional especializado antes, durante e após a gestação.

Marcadores clínicos e laboratoriais para rastreio

Indicadores antropométricos (como circunferência da cintura), perfil lipídico, glicemia, proteína C-reativa, fibrinogênio, homocisteína e adipocinas fornecem pistas importantes para avaliar composição corporal, distribuição de gordura e grau de inflamação, fundamentais para estimar risco cardiometabólico.

Estratégias para abordar os distúrbios cardiometabólicos nas mulheres

Recomendações nutricionais essenciais

A diretriz enfatiza que as intervenções nutricionais devem visar mudanças sustentadas no estilo de vida, com redução da morbimortalidade por distúrbios cardiometabólicos.

Qualidade da dieta: o foco deve ser na redução de carboidratos simples e gorduras saturadas, acompanhada do aumento no consumo de fibras. Essa estratégia é vital para melhorar a sensibilidade à insulina e o controle glicêmico.

Padrão alimentar mediterrâneo: a adoção da dieta mediterrânea é altamente recomendada. Este padrão, rico em frutas, vegetais, grãos integrais, azeite de oliva e leguminosas, tem se mostrado eficaz na redução do RCV.

Individualização: as estratégias de intervenção nutricional devem ser totalmente personalizadas e adaptadas às necessidades individuais da mulher, considerando seu ciclo de vida e comorbidades.

Apoio social e políticas públicas: o posicionamento sublinha a necessidade de programas em nível social para incentivar a dieta saudável e a atividade física, melhorando o acesso a políticas públicas voltadas para mulheres com distúrbios cardiometabólicos.

Prática de atividade física

A atividade física é crucial para o tratamento e prevenção de doenças cardiovasculares. A diretriz ressalta que a associação de exercícios aeróbicos com treinamento resistido proporciona melhorias significativas na composição corporal, sensibilidade à insulina e controle glicêmico.

As recomendações mínimas de atividade física incluem:

  • Mínimo de 150 minutos por semana de atividade aeróbica de intensidade moderada,
  • ou 75 minutos de atividade vigorosa,
  • Associados a exercícios de resistência muscular em pelo menos dois dias por semana.

Um achado interessante de um dos estudos que fundamentou o posicionamento é que tanto a atividade física concentrada em 1 ou 2 dias quanto os padrões de atividade mais regulares estão associados a um risco similarmente menor de mais de 200 doenças, em particular as cardiometabólicas.

Abordagem multidisciplinar 

A complexidade dos distúrbios cardiometabólicos nas mulheres exige uma abordagem multidisciplinar. Além da nutrição e do exercício, intervenções psicossociais, como a terapia cognitivo-comportamental, e programas integrados de suporte psicológico são essenciais para promover mudanças sustentadas no estilo de vida. 

Outros fatores como a cessação do tabagismo e a moderação do álcool também fazem parte das estratégias não farmacológicas.

Baixe agora o infográfico: Estratégias para abordar os distúrbios cardiometabólicos nas mulheres

O problema da falta de evidências

Apesar da importância do documento, a diretriz alerta para um desafio central na saúde da mulher: a falta de evidências robustas. As mulheres continuam sub-representadas em ensaios clínicos randomizados e controlados sobre doenças cardiovasculares e cardiometabólicas.

Essa limitação faz com que muitas recomendações sejam baseadas em evidências indiretas ou extrapoladas de estudos com maioria masculina, o que pode não refletir a melhor conduta para as mulheres. O posicionamento é um passo crucial para chamar a atenção para essa lacuna e a necessidade de pesquisas específicas.

Leia a diretriz na íntegra

No documento completo, são aprofundados muitos outros temas de grande relevância clínica, como as estratégias de diagnóstico e o manejo em casos mais graves.

Clique aqui para acessar o documento na íntegra.

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Referência:

Oliveira GMM, Almeida MCC, Valério CM, Giuffrida F, La Espíndola LN, Izar MCO, et al. Posicionamento sobre a Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250615.

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