Microbiota intestinal e sua relação com DHGNA/NASH

Postado em 6 de maio de 2019 | Autor: Marcella Gava

Estudo de revisão trás dados da literatura sobre a fisiopatologia da doença, influência da dieta, obesidade e uso de pré e probióticos na progressão da doença

Duarte e colaboradores realizaram revisão de literatura sobre a relação entre microbiota intestinal humana (MI), dieta, obesidade, e desenvolvimento/progressão de Doença Hepática Gordurosa Não Alcoolica (DHGNA), e discutiram o uso de prebióticos e probióticos na modulação da MI.

Os autores lembram que quadros de disbiose estão associados à supercrescimento bacteriano, produção de toxinas e aumento da permeabilidade intestinal, resultando em alterações nas funções metabólicos e imunológicas da MI, e essa disbiose pode ser causada por alimentação não saudável, estress e uso de antibióticos.

Apontamos a seguir os principais itens discutidos:

Microbiota intestinal e obesidade

Sinais microbianos regulam a liberação do fator adiposo de jejum (FAJ) de células epiteliais intestinais, que atua como um inibidor da lipase lipoproteica (LPL) e regula o armazenamento de gordura periférica. Os metabólitos microbianos também regulam função de hormônios e a resposta inflamatória do hospedeiro. Obesidade e composição da dieta não saudável podem alterar a barreira intestinal e resultar no mau funcionamento do eixo intestino-fígado, permitindo a passagem indiscriminada de componentes bacterianos para a circulação. A interação entre os dois órgãos, seja saudável ou não, inclui a transferência da MI e seus potenciais produtos hepato-tóxicos para o fígado. O crescimento excessivo de bactérias Gram-negativas aumenta a produção de produtos hepatotóxicos, como lipopolissacarídeos (LPS), que por sua vez estimulam o receptor Toll-4 e, por fim, o NF-kβ e citocinas proinflamatórias, como IL-6, fator de crescimento transformador-beta e TNF-α.

Microbiota intestinal e DHGNA

O desenvolvimento e a progressão da DHGNA envolvem processos patofisiológicos complexos que são influenciados por fatores de risco tais como polimorfismos genéticos, dieta e a composição da MI. O aumento da permeabilidade intestinal leva a translocação bacteriana. As endotoxinas produzidas por essas bactérias penetram na veia porta e diminuem a secreção de FAJ, aumentando a atividade da LPL, promovendo a síntese de novos ácidos graxos e a produção de triglicérides e ativando receptores Toll-like inflamatórios nos hepatócitos. Dessa forma, a MI aumenta a exposição do fígado a endotoxinas, que desempenham um papel importante na progressão da DHGNA. Estudos mostraram que o crescimento bacteriano exacerbado aumenta a permeabilidade intestinal em pacientes com DHGNA, desregula o processo inflamatório e corrobora com o desenvolvimento da dença. Pacientes obesos com DHGNA apresentam diminuição da concentração de Faecalibacterium, bactérias que possuem efeitos antiinflamatórios, e de Ruminococcus, associados à produção de AGCCs. Também foi observado que a fibrose avançada pode estar associada ao aumento de lactobacilos em pacientes com DHGNA e obesidade: algumas de suas espécies produzem ácido láctico a partir da fermentação de carboidratos na dieta e podem produzir acetato e etanol, o que pode induzir dano hepático, inflamação, e levar à progressão da doença. A disbiose intestinal também pode estar associada a alterações no nível de metabolitos séricos, incluindo aminoácidos de cadeia ramificada e aminoácidos aromáticos.

Prebioticos e probioticos e a microbiota intestinal

A suplementação com probióticos pode melhorar os fatores inflamatórios e os parâmetros metabólicos da DHGNA. Consumo de Bifidobacterium pseudocatenulatum melhorou a tolerância à glicose, estado inflamatório e esteatose hepática. Estudos demonstraram que o uso de probióticos multistraína foi capaz de modular a MI, reduzindo significativamente a atividade da transaminase e reduzindo a expressão de TNF-α e IL6 em pacientes com DHGNA. Também foi mostrado que a suplementação simbiótica melhora a esteatose hepática, os níveis de aspartato aminotransferase, o perfil lipídico e a o modelo de avaliação homeostática nesses pacientes. O uso de simbióticos (Bifidobacterium longum e fructo-sacioligossacarídeo), em combinação com modificação do estilo de vida (dieta e exercício), foi capaz de melhorar as concentrações de aspartato aminotransferase, lipoproteína de baixa densidade e TNF-α, levando à diminuição de endotoxinas e esteatose.

Em conclusão, os autores verificaram a existência de evidencias demonstrando o papel da MI na patogênese da DHGNA/NASH, entretanto ainda não se sabe ao certo a melhor maneira de modular a MI na melhora da progressão dessa doença.

Refêrencia:

Duarte SMB, Stefano JT, Oliveira CP. Microbiota and nonalcoholic fatty liver disease/nonalcoholic steatohepatitis (NAFLD/NASH). Ann Hepatol. 2019 Apr 16.

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