Vepsäläinen e sua equipeinvestigaram a semelhança dietética entre pais e filhos, estabelecendo sefatores sociodemográficos ou…
Estudo genético sugere que certos alimentos podem estar associados ao risco de endometriose, mas ainda há muito a investigar.
A endometriose é uma condição inflamatória crônica, dependente de estrogênio, caracterizado pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, principalmente nos tecidos pélvicos. Suas manifestações vão desde dor pélvica intensa até infertilidade, impactando diretamente qualidade de vida, saúde mental e produtividade.
Apesar de avanços em terapias hormonais e cirurgias, o tratamento ainda é sintomático e não resolve a origem da doença. Nesse contexto, cresce a necessidade de identificar fatores de risco modificáveis para prevenção e intervenção precoce.

Fonte: Canva
Nos últimos anos, pesquisas observacionais já haviam apontado correlações entre determinados padrões alimentares e o risco de endometriose. Recentemente, um estudo publicado no periódico Nutrition & Metabolism buscou responder a essa questão com uma abordagem mais robusta: a randomização mendeliana (RM).
O que o novo estudo investigou?
Pesquisadores chineses analisaram dados genéticos de grandes biobancos europeus (UK Biobank e FinnGen), envolvendo mais de 400 mil pessoas.
Foram avaliados 18 fatores dietéticos, que podem ser categorizados em 6 grupos:
- Vegetais (salada, vegetais crus e cozidos)
- Carne (carne processada, aves, carne bovina, peixes não oleosos, peixes oleosos, carne suína e cordeiro/carneiro)
- Alimentos básicos (pão e cereais)
- Bebidas (bebidas alcoólicas por semana, frequência de ingestão de álcool, ingestão de chá e ingestão de café)
- Frutas (frutas secas e frescas)
- Queijo
A metodologia de randomização mendeliana usa variantes genéticas associadas a determinados hábitos alimentares como “instrumentos” para inferir se há relação causal entre dieta e doença. Essa técnica minimiza vieses comuns em estudos observacionais e reflete exposições ao longo da vida.
Alimentos protetores contra endometriose: vegetais e… carnes processadas?
Do total de fatores alimentares analisados, apenas dois apresentaram associação significativa com menor risco de endometriose:
- Consumo de vegetais crus/salada
- Consumo de carnes processadas
Para os demais alimentos (frutas frescas, laticínios, peixes, café, chá, cereais, etc.), não foi encontrada relação causal. Os achados foram consistentes em análises de sensibilidade, sem indícios de heterogeneidade ou pleiotropia genética.
O resultado referente a vegetais crus é biologicamente plausível. Esses alimentos são fontes de fibras, antioxidantes, vitaminas (como C e A), polifenóis e fitoestrógenos, todos compostos capazes de modular o metabolismo do estrogênio, reduzir estresse oxidativo, atenuar inflamação e interferir na proliferação de tecido endometrial ectópico.
Assim, faz sentido considerar o maior consumo de saladas e vegetais crus como uma estratégia protetiva.
Já a associação com carnes processadas gera mais questionamentos. A maior parte dos estudos epidemiológicos anteriores sugeria o oposto: que carnes vermelhas e processadas estariam ligadas a maior risco de endometriose e a piores desfechos em saúde em geral (câncer colorretal, doenças cardiovasculares, diabetes).
Os autores levantam hipóteses para explicar essa discrepância:
- Dados dietéticos auto relatados, o que pode refletir imprecisamente os verdadeiros padrões de consumo;
- Limitações na definição ampla de “carne processada” (que inclui produtos distintos, diferentes métodos de preparação, tamanho das porções);
- Possíveis efeitos de aditivos alimentares sobre microbiota e inflamação;
- Influência de fatores de estilo de vida.
Ou seja, esse resultado deve ser interpretado com cautela.
O que isso significa para a prática nutricional?
Para nutricionistas, especialmente aqueles que atendem mulheres com endometriose ou em risco, algumas mensagens-chave se destacam:
1) Vegetais crus/saladas merecem ser reforçados: o consumo regular pode contribuir para reduzir risco e atenuar processos inflamatórios relacionados à doença.
2) Carnes processadas não devem ser incentivadas: apesar do resultado surpreendente do estudo, o conjunto maior de evidências continua associando esse grupo alimentar a efeitos adversos.
3) Não há evidência causal para frutas frescas, cereais, peixes e bebidas: isso não significa que não tenham benefícios, apenas que sua relação direta com endometriose ainda não foi comprovada geneticamente.
4) Estudos de RM não substituem ensaios clínicos: os achados são úteis para gerar hipóteses, mas não podem ser traduzidos em recomendações clínicas isoladas.
O que podemos concluir?
A pesquisa forneceu evidências sugestivas de que o maior consumo de saladas, vegetais crus e carne processada pode estar correlacionado a um risco reduzido de endometriose.
No entanto, esses achados devem ser interpretados como geradores de hipóteses, enfatizando a necessidade de interpretação com estudos experimentais, epigenéticos e observacionais para conciliar as associações genéticas com os mecanismos biológicos.
Mais pesquisas são necessárias para elucidar a relação causal precisa e os mecanismos subjacentes que ligam padrões alimentares específicos à endometriose.
De forma prática, a recomendação continua sendo promover um padrão alimentar rico em vegetais, fibras, antioxidantes e compostos anti-inflamatórios, sempre com base em evidências consolidadas.
Para ler o artigo científico completo, clique aqui.
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Referência:
Zhang X, Zheng Q, Chen L. Dietary factors and risk for endometriosis: a Mendelian randomization analysis. Nutrition & Metabolism. 2025;22:72.
A Redação Nutritotal PRO é formada por nutricionistas, médicos e estudantes de nutrição que têm a preocupação de produzir conteúdos atuais, baseados em evidência científicas, sempre com o objetivo de facilitar a prática clínica de profissionais da área da saúde.
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