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Glutamina: reduz tempo de internação de pacientes queimados?

Postado em 14 de novembro de 2022 | Autor: Nutritotal Redação

A glutamina parece não ter relação com o tempo de internação dos pacientes

As lesões causadas por queimaduras acarretam em diversos riscos à saúde desses pacientes. O fato de causarem um intenso catabolismo, na tentativa do corpo de promover a regeneração celular, e uma inflamação sistêmica acentuada coloca os pacientes em risco de desenvolvimento de complicações infecciosas, disfunção de diversos órgãos e até de morte.

Glutamina: reduz tempo de internação de pacientes queimados?

Por demandarem um tratamento complexo e custoso, diversas estratégias nutricionais foram testadas nos tratamentos. A partir daí surge um grande interesse na glutamina por sua resposta efetiva aos estresses causados por uma série de doenças. Além disso, alguns estudos indicaram uma rápida diminuição dos níveis de glutamina após queimaduras.

Partindo dessa premissa, alguns trabalhos foram realizados para avaliar o potencial de melhora da glutamina no tratamento dessas lesões. No entanto, não encontrou-se um consenso, enquanto uns sugeriam que a suplementação de glutamina poderia diminuir a mortalidade e o tempo de internação, outros indicavam que era ineficiente ou mesmo prejudicial ao tratamento.

Dessa forma, um novo ensaio clínico randomizado duplo-cego teve de ser realizado para avaliar a efetividade da suplementação de glutamina na diminuição do tempo de internação hospitalar. Além disso, outro objetivo do estudo foi analisar se a suplementação enteral de glutamina pode diminuir a mortalidade dessa condição.

Metodologia do estudo

Os pesquisadores desse estudo reuniram 1209 pacientes que apresentavam queimaduras severas de segundo ou terceiro grau, que atingiram entre 10%  e 33% da superfície corporal. Esses indivíduos foram randomicamente separados em dois grupos, um grupo que receberia suplementação enteral ou oral de glutamina e outro de placebo.

No grupo glutamina, os pacientes recebiam uma dose de 0,5g/Kg de peso corporal de glutamina a cada 4 horas, enquanto no grupo placebo era apenas uma solução isocalórica de maltodextrina. A administração de macro e micronutrientes foi padronizada para todos os participantes.

A suplementação de glutamina esteve presente até uma semana após o último procedimento de enxerto de pele, alta hospitalar ou 3 meses após o início da suplementação. Dessa forma, o objetivo era avaliar o tempo de internação até a alta e a mortalidade dos dois grupos.

E quais foram os principais resultados do estudo?

Tempo de Internação

No estudo em questão, o tempo médio até a alta hospitalar foi de 40 dias no grupo de glutamina e de 38 dias no grupo placebo. Não foram encontradas quaisquer evidências que indicassem diferença significativa entre a duração da internação entre os dois grupos.

De acordo com trabalhos anteriores, esse resultado foi uma surpresa, visto que indicavam forte potencial de melhora do quadro clínico desse tipo de lesões após a suplementação de glutamina.

Isso pode ter acontecido pelo fato de que os estudos anteriores foram realizados com amostras pequenas de 30 a 48 participantes, ou seja, podem ter superestimado os resultados da suplementação de glutamina.

Diversas revisões mostram a maior confiabilidade de estudos multicentralizados e randomizados, com amostras populacionais relativamente extensas, quando comparados a estudos unicentralizados com amostras pequenas. Isso também atesta que os trabalhos anteriores devem ser reexaminados e analisados de outra maneira.

Mortalidade

Dentro do grupo da glutamina, a mortalidade durante um período de 6 meses foi de 17,2%, enquanto no grupo do placebo, essa taxa se manteve em 16,2%. Esses resultados confirmam os dados supracitados, agora demonstrando a falta de evidências da suplementação de glutamina na diminuição da mortalidade de pacientes com queimaduras graves.

Esse resultado também pode ser devido à evolução do tratamento de queimaduras ao longo dos últimos anos, que teve papel essencial no declínio significativo da mortalidade associada a esses tipos de lesões. Sendo assim, seria pouco provável que a mortalidade dos dois grupos se diferenciasse substancialmente.

Segurança

Por mais que o referido estudo tenha encontrado alguns traços de aumento no nível de ureia dos pacientes administrados com glutamina, diferenças significativas no que diz respeito ao dano renal não foram demonstradas quando comparado com o grupo do placebo. Dessa forma, não foram encontrados quaisquer malefícios do uso de glutamina no tratamento de queimaduras.

Conclusão

Apesar do grande interesse na suplementação de glutamina tendo em vista seus efeitos benéficos em outras doenças, essa suplementação não foi eficaz no tratamento de pacientes queimados.  Não obteve sucesso na diminuição do tempo de internação e também na redução da taxa de mortalidade.

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Referência

Daren K. Heyland, MD, Lucy Wibbenmeyer, MD, Jonathan A. 2022. A Randomized Trial of Enteral Glutamine for Treatment of Burn Injuries. N Engl J Med 2022;387:1001-10. DOI: 10.1056/NEJMoa2203364

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