Critérios GLIM: orientações para avaliação de ingestão alimentar

Postado em 14 de julho de 2026

Estudo revisa o critério etiológico de ingestão alimentar reduzida ou má assimilação do GLIM e propõe 15 recomendações práticas.

Em 2019, foi publicada uma ferramenta inédita para diagnosticar a desnutrição: os critérios GLIM, iniciativa da Global Leadership Initiative on Malnutrition. Desde então, diversos estudos e melhorias foram propostas para aperfeiçoar essa estratégia.

ingestão alimentar GLIM

Fonte: Canva

A ingestão alimentar reduzida ou assimilação prejudicada é um dos pilares de diagnóstico do GLIM. Apesar de amplamente adotado na prática clínica, esse critério sempre teve uma aplicação pouco padronizada. Por isso, um novo estudo buscou preencher essa lacuna, propondo novas recomendações para orientar a avaliação da ingestão alimentar dentro do GLIM. Confira os achados a seguir.

Por que a avaliação de ingestão alimentar precisou ser revisada?

Na versão original do GLIM, o critério de ingestão ou assimilação alimentar reduzida/prejudicada era definido como:

  • Consumo igual ou inferior a 50% da necessidade energética por mais de uma semana;
  • Qualquer redução da ingestão por mais de duas semanas;
  • Ou a presença de condição gastrointestinal crônica que prejudicasse a assimilação ou absorção dos alimentos.

Na prática, essa formulação gerava inconsistências. O cálculo da necessidade energética nem sempre é viável para profissionais não especialistas em nutrição, e a literatura mostra grande variação nos métodos usados para determinar ingestão reduzida. Já o componente de assimilação era frequentemente reduzido à presença isolada de um diagnóstico gastrointestinal ou de um único sintoma, como diarreia, sem considerar duração ou gravidade.

Diante desse cenário, dez especialistas do núcleo do GLIM coordenaram um processo Delphi modificado, no qual 30 especialistas internacionais de diferentes países participaram das rodadas de consenso.

Ao final do processo, 15 recomendações atingiram 75% de concordância, divididas entre o componente de ingestão alimentar e o componente de absorção/assimilação.

Critérios GLIM: recomendações sobre ingestão alimentar

Dez das quinze recomendações tratam especificamente de como avaliar a redução da ingestão alimentar. Entre os pontos de maior destaque, os especialistas passaram a recomendar a comparação da ingestão atual com a ingestão habitual do paciente, e não mais com a necessidade energética calculada, considerada de difícil aplicação fora do contexto especializado.

Outros pontos centrais dessas recomendações incluem:

– A quantidade efetivamente consumida deve ser determinada, mesmo que por autorrelato do paciente, desde que a capacidade cognitiva permita essa informação.

– A ingestão deve ser avaliada em mais de um dia, nunca com base em uma única refeição.

– O período de referência (última semana, último mês) deve ser definido conforme o contexto clínico e o julgamento do profissional.

– Como exemplo prático, duas perguntas foram sugeridas para rastrear ingestão reduzida: 

  1. Se o paciente vem comendo menos que o habitual há mais de duas semanas;
  2. Se, na última semana, o paciente consumiu metade ou menos da sua ingestão habitual.

– Diagramas ou fotos de prato, incluindo métodos de estimativa visual com cinco opções de proporção consumida (0%, 25%, 50%, 75%, 100%) ou ferramentas como o SEFI (Simple Evaluation of Food Intake), podem apoiar essa estimativa, desde que usados para representar o consumo ao longo de vários dias, e não de uma única refeição.

– Avaliações qualitativas de ingestão (como classificar em “ruim”, “regular” ou “boa”) e o autorrelato isolado de apetite não são suficientes, isoladamente, para caracterizar ingestão reduzida.

Tanto o cálculo de necessidade energética quanto a adequação de proteína, propostos inicialmente como possíveis parâmetros, não atingiram consenso e foram excluídos da versão final, por serem considerados de difícil aplicação.

Critérios GLIM: recomendações sobre absorção e assimilação

As cinco recomendações restantes tratam do componente de assimilação, historicamente o mais difícil de operacionalizar. 

O consenso definiu que tanto condições gastrointestinais associadas à má absorção (como diarreia) quanto condições que prejudicam a ingestão (como disfagia, dificuldade de mastigação, náusea e vômito) podem ser usadas para identificar esse critério.

Entre os exemplos de condições gastrointestinais citadas estão:

  • Insuficiência intestinal
  • Gastroenterite
  • Doença celíaca
  • Complicações de cirurgia bariátrica ou gastrointestinal
  • Insuficiência pancreática exócrina
  • Síndrome do intestino curto
  • Doenças ileais ou ileocolônicas
  • Crise de doença de Crohn ou retocolite ulcerativa
  • Gastroparesia
  • Obstrução intestinal (ou pseudo-obstrução)
  • Fístulas ou ostomias de alto débito
  • Dismotilidade intestinal aguda ou crônica

Um ponto reforçado pelos especialistas é que a presença isolada de uma condição gastrointestinal no histórico do paciente não basta. Também é necessário avaliar a duração e a gravidade dos sinais e sintomas associados. 

Como sugestão prática, o grupo propôs perguntar se o paciente apresenta disfagia, náusea, diarreia ou vômitos há duas semanas ou mais e, em caso afirmativo, investigar a frequência desses sintomas. Uma frequência de pelo menos duas vezes ao dia, por duas semanas ou mais, foi considerada clinicamente significativa para preencher esse critério.

Em todas as recomendações desse bloco, o julgamento clínico foi apontado como indispensável, já que uma regra fixa de tempo ou frequência não se aplica igualmente a todos os contextos e populações.

O novo critério proposto

Com base nas 15 recomendações, os autores propõem que o critério etiológico de ingestão alimentar ou assimilação do GLIM passe a ser definido, resumidamente, da seguinte forma: 

– Ingestão alimentar igual ou inferior à metade da ingestão habitual na última semana, ou qualquer redução da ingestão por duas semanas ou mais;

– Ou ainda sintomas ou sinais gastrointestinais/de impacto nutricional considerados graves (como disfagia, náusea, vômitos ou diarreia), decorrentes de uma condição aguda, crônica ou de terapia em curso.

Embora a avaliação por um especialista em nutrição continue sendo a abordagem preferencial, o GLIM foi concebido para uso por qualquer profissional de saúde capacitado, mesmo quando uma avaliação nutricional completa não está disponível. As novas recomendações buscam justamente viabilizar essa aplicação.

Como próximos passos, os autores apontam a necessidade de estudos que testem a viabilidade dessas recomendações na prática clínica cotidiana, além de pesquisas que confirmem a validade de critério dessa nova formulação dentro do arcabouço diagnóstico do GLIM.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Blaauw R, Keller H, Mills CM, Bischoff G, Compher C, Schueren MV, Haines K, Kiss N, Lew C, Malone A, Moscoso CM, Stoner N, Barazzoni R, Bell JJ, Coetzee M, Correia MITD, Fukushima R, George E, Gonzalez MC, Gramlich L, Lim YP, Nasser R, Pirlich M, Langius JAE, Scollard T, Wierdsma N, Winkler M, Cederholm T, Jensen GL. Guidance for the assessment of the dietary intake and gastrointestinal or nutrition impact symptoms etiologic criterion of Global Leadership Initiative on Malnutrition: A modified-Delphi study. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2026 Jul;50(5):614-624. doi: 10.1002/jpen.70073. Epub 2026 May 24. PMID: 42178847; PMCID: PMC13350280.

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