Saúde cardiometabólica feminina: o papel do cronotipo e do horário das refeições

Postado em 2 de dezembro de 2025

O alinhamento entre cronotipo e horário das refeições pode ser a chave para otimizar a saúde cardiometabólica feminina.

A crononutrição é a ciência que estuda a interação entre o momento da ingestão de alimentos, os ritmos circadianos e o metabolismo. Nos últimos tempos, este campo tem ganhado destaque no cenário da saúde pública. 

Já se sabe que os ritmos biológicos controlam processos fisiológicos, como a absorção e o metabolismo de nutrientes, e que a tolerância à glicose diminui à noite. Entretanto, a relevância do cronotipo individual (a predisposição inata para ser matutino ou vespertino) em conjunto com o horário das refeições ainda é pouco explorada.

horário das refeições

Fonte: Canva

Nesse sentido, compreender como o horário e o consumo energético diário se relacionam com a saúde cardiometabólica em diferentes cronotipos pode fornecer informações valiosas para recomendações dietéticas personalizadas.

Uma recente investigação iraniana veio para preencher essa lacuna, com foco na saúde cardiometabólica feminina. 

Metodologia: grupo matutino, intermediário e vespertino

Foi realizado um estudo transversal com 574 mulheres saudáveis, com idades entre 20 e 60 anos, e IMC entre 18,5 e 39,9 kg/m². 

A amostra final foi classificada em três grupos de cronotipo com base no Questionário Matutino-Vespertino (MEQ):

  • M-type ou matutino (n=268)
  • Intermediário (n=199)
  • E-type ou vespertino (n=107)

A ingestão dietética foi avaliada por meio de três recordatórios alimentares de 24 horas, em dias não consecutivos. 

A definição dos principais horários de refeição foi a seguinte

  1. Café da manhã como a principal refeição consumida entre 5h e 11h; 
  2. Almoço como o que foi consumido entre 11h e 16h; 
  3. Lanches da tarde como o que foi consumido entre 16h e 18h;
  4. Jantar como o que foi consumido após as 18h e se estendeu até o início da manhã.

Além disso, definiu-se como “janela alimentar” o número de horas entre a primeira e a última refeição em um determinado dia.

Os desfechos cardiometabólicos incluíram:

  • Razão TG/HDL e a razão CT/HDL como preditores de risco cardiovascular
  • HOMA-IR (resistência à insulina) e HOMA-IS (sensibilidade à insulina)

Também foram coletados dados de adiposidade, pressão arterial e outros parâmetros bioquímicos.

Grupo vespertino: maior IMC e risco cardiometabólico 

Os resultados revelaram associações distintas entre o horário das refeições e a saúde cardiometabólica, predominantemente no grupo vespertino.

Em comparação com o grupo matutino, as mulheres vespertinas apresentaram uma tendência a ter um IMC e outros índices de adiposidade ligeiramente mais elevados, além de um maior risco cardiometabólico, evidenciado por taxas lipídicas elevadas, tendência a maior resistência à insulina, e maior pressão arterial diastólica nos modelos ajustados.

Nesse sentido, as vespertinas demonstraram maior ingestão energética total, além de consumirem significativamente mais energia no jantar e lanches da tarde. Além disso, o cronotipo vespertino mostrou uma janela alimentar mais longa.

Apenas a ingestão energética no almoço não diferiu significativamente entre os grupos.

A importância do horário das refeições

Café da manhã e pressão arterial

No grupo vespertino, uma maior ingestão de energia no café da manhã foi associada a uma redução na pressão arterial.

No entanto, a relação não foi puramente linear: o estudo encontrou uma associação em forma de “U” entre o consumo de energia no café da manhã e a PAS em mulheres vespertinas. Este achado sugere que tanto a ingestão baixa quanto a muito alta no café da manhã podem estar ligadas a resultados desfavoráveis.

O ponto ideal foi uma ingestão de café da manhã de 23% da ingestão energética total, que foi associada aos níveis mais favoráveis de PAS.

Lanche da tarde, adiposidade e inflamação

A ingestão moderada de energia à tarde revelou-se benéfica. Uma maior ingestão de energia à tarde foi associada a menor IMC no grupo vespertino e menor hs-CRP (marcador inflamatório) no grupo vespertino e intermediário.

Associações indicaram que uma ingestão de lanche da tarde correspondente a 12 a 13% da ingestão energética total esteve relacionada aos menores níveis de IMC e hs-CRP. Esses achados indicam que a ingestão excessiva de energia no período da tarde pode ter efeitos adversos na saúde metabólica.

Jantar e janela alimentar

O consumo de energia no jantar foi linearmente associado a um aumento no IMC tanto em indivíduos no grupo intermediário quanto no vespertino. 

Além disso, uma janela alimentar mais longa foi associada a um aumento da glicemia de jejum no grupo vespertino.

Não foram observadas associações significativas entre o número de refeições e a saúde metabólica.

O que levar para a prática clínica?

Como visto, mulheres com cronotipo vespertino apresentaram maior ingestão total de energia, particularmente durante o jantar, o que foi associado a resultados metabólicos adversos. 

Em contraste, a ingestão moderada de energia no café da manhã e à tarde foi associada a resultados mais favoráveis, incluindo menor IMC e redução da inflamação, especialmente em mulheres vespertinas.

Para nutricionistas, as recomendações dietéticas devem ser personalizadas ao cronotipo do paciente:

  1. Priorizar o início do dia: incentivar o consumo de um café da manhã de energia moderada (cerca de 23% da energia diária), especialmente para vespertinos, como uma estratégia para gerir a pressão arterial.
  2. Valorizar a tarde: promover a ingestão de energia no lanche da tarde, (cerca de 12-13% da energia diária), para melhores indicadores de adiposidade e inflamação.
  3. Reduzir o jantar e a janela alimentar: reduzir a ingestão de energia no jantar e manter uma janela alimentar mais curta pode ser uma estratégia eficaz para melhorar a glicemia de jejum e o IMC no cronotipo vespertino.

Segundo os autores, são necessárias mais pesquisas para validar essas associações em populações maiores e mais diversas, a fim de fortalecer a generalização das descobertas e apoiar o uso mais amplo de abordagens crononutricionais em estratégias de saúde preventiva.

Para ler o artigo científico completo, clique aqui.

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Referência:

Lesani, A., Soveid, N., Clark, C.C.T. et al. Chronotype-specific associations of meal timing patterns with cardiometabolic health in women: a cross-sectional study. Nutr Metab (Lond) 22, 96 (2025). https://doi.org/10.1186/s12986-025-00985-2

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