Do pré-escolar até a 2ª série, a prevalência de sobrepeso e obesidade aumenta nas crianças…
Estudo mostrou que a suplementação de inulina, uma fibra solúvel, reduz a subalimentação emocional em crianças com obesidade, um tipo de evitação alimentar que gera padrões disfuncionais de alimentação.
A obesidade infantil é uma crise de saúde global que exige intervenções inovadoras e sustentáveis. Fatores comportamentais, como a alimentação emocional, são barreiras significativas para o sucesso do tratamento a longo prazo.
Fonte: Canva
Nesse sentido, um recente estudo ofereceu uma perspectiva promissora: a suplementação de inulina para modular o apetite e melhorar os comportamentos alimentares em crianças e adolescentes com obesidade, especialmente no gerenciamento das emoções à mesa.
Entendendo o elo entre microbiota, emoções e obesidade
A obesidade na infância e adolescência está intimamente ligada a uma série de comorbidades, incluindo distúrbios psiquiátricos, como ansiedade e depressão.
Crianças com obesidade frequentemente desenvolvem padrões alimentares disfuncionais, tornando-se hipersensíveis a estímulos alimentares externos.
Além disso, podem apresentar o chamado “comer emocional”, seja através da superalimentação (comer em excesso) ou da subalimentação (evitar comer), em resposta a estados emocionais negativos.
Com toda esta carga psicológica, sustentar a perda de peso por meio de dietas e exercícios é desafiador nessa população.
É nesse contexto que os prebióticos, como os frutanos do tipo inulina (ITFs), surgem como um foco de interesse.
A inulina é uma fibra solúvel que, ao ser fermentada pela microbiota intestinal, produz metabólitos como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs). Esses AGCCs estimulam as células L intestinais a secretar hormônios reguladores do apetite, como o peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1) e o peptídeo YY (PYY).
Essa modulação hormonal influencia as vias de sinalização do eixo intestino-cérebro, promovendo maior saciedade e reduzindo o desejo de comer, conforme já demonstrado em estudos com adultos.
Metodologia
Para investigar a hipótese de que a inulina modula o apetite, pesquisadores realizaram um ensaio clínico randomizado de 6 meses com 156 crianças e adolescentes tailandeses com obesidade, com idade média de 10,4 anos.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos:
- Grupo inulina (intervenção): receberam 13 g de inulina extraída de alcachofra de Jerusalém tailandesa, administrada uma vez ao dia antes do jantar.
- Grupo placebo: receberam 11 g de maltodextrina isocalórica.
- Grupo aconselhamento de fibra dietética: receberam apenas aconselhamento padrão sobre aumento da ingestão de fibras, além da orientação dietética e de estilo de vida padrão fornecida a todos os grupos.
O principal instrumento de avaliação do comportamento alimentar foi o Questionário de Comportamento Alimentar Infantil. Este questionário avalia oito subescalas que se enquadram em dois domínios:
- Abordagem alimentar: responsividade alimentar, prazer em comer, superalimentação emocional e desejo de beber.
- Evitação alimentar: responsividade à saciedade, lentidão ao comer, subalimentação emocional e seletividade alimentar.
Além dos questionários comportamentais, os pesquisadores analisaram parâmetros clínicos, a ingestão dietética e amostras fecais para identificar associações entre os comportamentos de apetite e os hormônios intestinais (GLP-1 e PYY) e a composição da microbiota intestinal.
Melhora na subalimentação emocional
O achado mais notável foi que o grupo suplementado com inulina apresentou uma maior redução na subalimentação emocional em comparação com o grupo placebo.
A subalimentação emocional reflete a diminuição da ingestão de alimentos em resposta a emoções negativas (como raiva ou tristeza).
Embora possa parecer uma restrição positiva, frequentemente indica estresse subjacente ou regulação emocional inadequada, podendo levar a padrões alimentares desequilibrados e, em muitos casos, à compensação por meio de superalimentação quando o estado emocional melhora.
Assim, sua redução no grupo inulina sugere uma melhor estabilidade e regulação emocional em relação à alimentação.
Associações hormonais e comportamentais
Os pesquisadores confirmaram a ligação fisiológica entre os comportamentos alimentares e os hormônios de saciedade.
Após a intervenção, a superalimentação emocional mostrou-se inversamente correlacionada com o GLP-1, o hormônio que promove a saciedade.
Isso significa que quanto maior o aumento do GLP-1 após a intervenção, maior foi a diminuição na tendência de comer em excesso em resposta a emoções.
Eixo microbiota-comportamento
O estudo também foi pioneiro ao identificar associações significativas entre os comportamentos alimentares e o perfil da microbiota.
Particularmente, a superalimentação emocional foi negativamente associada à abundância de bactérias produtoras de butirato, como o gênero Agathobacter e Oscillibacter. Esses microrganismos benéficos são conhecidos por se proliferarem em dietas ricas em fibras e prebióticos.
Essa correlação sugere que um microbioma mais saudável, otimizado pela inulina, pode conferir resiliência contra o estresse alimentar.
Outras descobertas relevantes incluíram que a resposta à comida (sensibilidade a estímulos alimentares) foi positivamente correlacionada com a ingestão total de calorias e gordura.
Além disso, uma pontuação mais alta na subescala desejo de beber, que reflete a preferência por bebidas açucaradas, foi associada a uma maior ingestão de colesterol, destacando um padrão alimentar de baixa qualidade.
O que podemos concluir?
O estudo destaca que a suplementação com inulina pode ser uma intervenção potencial para o controle da obesidade infantil, modulando o apetite e melhorando os hábitos alimentares.
Além disso, foi a primeira pesquisa a identificar as relações entre a ingestão alimentar e os hábitos alimentares com a diversidade da microbiota intestinal nessa população.
Segundo os autores, mais pesquisas são necessárias para explorar como os prebióticos influenciam os hormônios intestinais subjacentes aos hábitos alimentares, o que poderia fundamentar intervenções mais eficazes para a obesidade infantil.
Para ler o estudo completo, clique aqui.
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Referência:
Panichsillaphakit, E., Visuthranukul, C., Chongpison, Y. et al. The effects of inulin supplementation on eating behaviours in children and adolescents with obesity: a randomized double-blinded placebo-controlled study. Nutr Metab 22, 97 (2025).
A Redação Nutritotal PRO é formada por nutricionistas, médicos e estudantes de nutrição que têm a preocupação de produzir conteúdos atuais, baseados em evidência científicas, sempre com o objetivo de facilitar a prática clínica de profissionais da área da saúde.
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