Consumo de ultraprocessados pode impactar microbiota de bebês: dados de um estudo brasileiro

Postado em 31 de março de 2025

Estudo brasileiro indica que o consumo de alimentos ultraprocessados pode impactar negativamente a microbiota intestinal de bebês, especialmente entre os desmamados.

Os primeiros anos de vida são fundamentais para o estabelecimento da microbiota intestinal. A exposição precoce a fatores ambientais, como a dieta, é especialmente importante. 

Sabe-se que a amamentação apresenta diversos benefícios na modulação da microbiota de bebês. O leite materno apoia a regulação imunológica, aumenta a resiliência ecológica da microbiota intestinal e protege contra doenças associadas à disbiose. 

microbiota de bebês

Fonte: Canva

Por outro lado, não se sabe ao certo quais são os efeitos do consumo de alimentos ultraprocessados (AUP) na microbiota intestinal infantil, particularmente em crianças saudáveis ​​de países de baixa e média renda.

Um recente estudo brasileiro buscou preencher essa lacuna científica. A seguir, confira os principais achados desta investigação.

Metodologia: mais de 700 bebês participaram da pesquisa

A pesquisa utilizou dados do Estudo de Saúde Materno-Infantil e Nutrição no Acre (Estudo MINA–Brasil), uma coorte de nascimentos de base populacional na Amazônia Ocidental Brasileira. 

Ao total, 728 crianças foram incluídas, utilizando amostras fecais para extração de DNA e análise da microbiota intestinal.

Os dados sobre amamentação e alimentação complementar foram coletados nas visitas de acompanhamento de 1 mês, 6 meses e 1 ano. Na visita de 1 ano, um registro alimentar semiestruturado de 24 horas foi aplicado. 

Com base na classificação NOVA, os seguintes alimentos foram considerados ultraprocessados: iogurte saborizado, suco artificial, refrigerantes, achocolatados, balas, biscoitos recheados, biscoitos e bolos industrializados, salgadinhos de pacote, cachorro-quente, hambúrgueres industrializados, presunto, macarrão instantâneo e sopas e sorvetes.

A população do estudo foi classificada em:

  • Amamentação e não consumo de AUP no primeiro ano (n = 56)
  • Amamentação com consumo de AUP no primeiro ano (n = 448)
  • Desmame e não consumo de AUP no primeiro ano (n = 36) 
  • Desmame com consumo de AUP no primeiro ano (n = 188)

Microbiota saudável no grupo “amamentação e não consumo de AUP”

Os pesquisadores constataram que crianças desmamadas que consumiram alimentos ultraprocessados mostraram um aumento significativo na diversidade alfa e beta da microbiota intestinal, em comparação com crianças amamentadas que não consumiram AUP.

Entretanto, os efeitos observados na diversidade podem não ser devidos ao consumo de AUP, mas sim à prática da amamentação.

Crianças amamentadas que não consumiram AUP tiveram uma abundância relativa maior de Bifidobacterium do que crianças desmamadas que consumiram alimentos ultraprocessados ou não. Vale ressaltar que este gênero é considerado o melhor marcador da saúde da microbiota intestinal na infância.

Ademais, bebês amamentados que não consumiram AUP tiveram uma abundância relativa menor de Firmicutes, Blautia, Sellimonas e Finegoldia do que crianças desmamadas que consumiram AUP.

Por outro lado, a microbiota de bebês desmamados e que consumiam AUP apresentou algumas alterações. Confira abaixo.

Firmicutes

Uma maior abundância do filo Firmicutes foi associada aos dois grupos de crianças desmamadas, que consumiram alimentos ultraprocessados ou não.

Um estudo anterior descobriu que Firmicutes era mais abundante em todas as coortes de adultos, sugerindo que esse filo pode servir como um marcador relacionado à idade da microbiota intestinal

Assim, crianças desmamadas que consumiam AUP exibiram uma composição de microbiota intestinal mais semelhante à dos adultos, apesar de terem apenas um ano de idade.

Blautia

O gênero Blautia era significativamente mais abundante em crianças desmamadas que consumiam AUP em comparação às crianças que foram amamentadas e não consumiam AUP. 

Algumas evidências indicam que certas espécies de Blautia podem aumentar o risco de inflamação crônica, desregulação imunológica e distúrbios metabólicos. Porém, evidências robustas estabelecendo uma relação de causa e efeito entre este gênero e resultados de saúde ainda faltam.

Sellimonas

Uma maior abundância do gênero Sellimonas foi associada a crianças desmamadas que consumiram AUP. 

Em termos de resultados de saúde, Sellimonas parece ter efeitos potencialmente prejudiciais, com maior abundância ligada à obesidade infantil e puberdade precoce, bem como sintomas depressivos, ansiedade, medo e dificuldades sociais em adultos.

Finegoldia

O gênero Finegoldia também mostrou uma abundância significativamente maior associada ao desmame e ao consumo de AUP. 

Este gênero contém uma única espécie, Finegoldia magna, que é reconhecida como um patógeno oportunista associado a várias infecções em adultos.

Conclusão

Em resumo, o estudo brasileiro sugere que o consumo de alimentos ultraprocessados pode impactar negativamente a diversidade e abundância da microbiota de bebês, com um efeito mais pronunciado em crianças que já foram desmamadas.

Essas descobertas reforçam o papel protetor da amamentação, ao mesmo tempo em que destacam a necessidade de políticas públicas e orientações nutricionais que desencorajem o consumo precoce de alimentos ultraprocessados.

Para ler a pesquisa completa, clique aqui.

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Referência:

Effect of ultra-processed food consumption on the gut microbiota in the first year of life: Findings from the MINA–Brazil birth cohort study. Faggiani, Lucas D. et al. Clinical Nutrition, Volume 46, 181 – 190.

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