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Existe relação entre alimentação, cefaleia e enxaqueca?

Postado em 19 de maio de 2022

Enquanto alguns alimentos desencadeiam dores de cabeça, algumas estratégias alimentares podem auxiliar no manejo desta condição

A cefaleia, popularmente conhecida como “dor de cabeça”, é uma grande contribuinte para a geração de incapacidade nas populações. A disfunção vascular, a depressão alastrante cortical (DSC), a ativação da via trigeminovascular, e o estado pró-inflamatório e oxidativo são fatores fundamentais na geração da cefaleia.

alimentação cefaleia

Fonte: Shuttestock

Especula-se que a alimentação pode afetar a cefaleia através de uma variedade de mecanismos, em alguns casos benéficos, e, em outros, prejudiciais. Algumas intervenções dietéticas anteriores demonstraram efeitos positivos na prevenção e no tratamento das dores de cabeça.

Assim, eleva-se o interesse em compreender a relação entre a alimentação e a cefaleia, para possíveis aplicações no seu manejo. No presente artigo, trouxemos as principais correlações estabelecidas na literatura científica acerca de padrões alimentares e cefaleia: veja a seguir.

 

Alimentação e cefaleia: Existem alimentos “proibidos”?

Muitas vezes, determinados alimentos podem ser desencadeantes da dor de cabeça. Uma pesquisa transversal relatou que a enxaqueca, um dos principais tipos de cefaleia, foi comumente associada a gatilhos alimentares, com 97.6% dos 123 participantes apresentando suscetibilidade a pelo menos um deles.

Os principais gatilhos alimentares da cefaleia incluem:

  • Queijo e laticínios
  • Chocolate
  • Café/cafeína
  • Bebidas alcoólicas, principalmente vinho
  • Frutas cítricas
  • Carnes processadas
  • Trigo e glúten
  • Ovo
  • Alimentos gordurosos e frituras
  • Glutamato monossódico, Aspartame, Sucralose, Nitritos
  • Histamina, Tiramina, Feniletilamina

Assim, se a cefaleia ocorrer em pelo menos 50% das vezes após o consumo do alimento dentro de um dia, ele é considerado um gatilho alimentar para aquele indivíduo. Foi relatado que uma Dieta de Eliminação (que exclui os gatilhos alimentares do paciente) é eficaz na atenuação dos sintomas e na redução da frequência da cefaleia.

Contudo, em razão do risco de deficiências alimentares proveniente da Dieta de Eliminação, é preciso que uma abordagem individualizada seja adotada.

 

Intervenções dietéticas na cefaleia

Algumas estratégias alimentares vêm sendo propostas na literatura como forma de prevenir ou tratar a cefaleia. Embora necessitem de mais pesquisas, os resultados são animadores. Confira a seguir.

 

1) Dieta Cetogênica

A dieta cetogênica é caracterizada por um alto teor de gordura, e baixo teor de carboidratos. Assim, é projetada para estimular a produção de corpo cetônicos.

Em estudos recentes, a cetose foi associada à prevenção da enxaqueca, através da compensação da disfunção serotoninérgica, inibição da excitabilidade neuronal, diminuição da síntese e liberação de CGRP e depressão alastrante cortical (DSC) e pela melhora da função mitocondrial cerebral.

Em um grupo de 18 pacientes com enxaqueca sob dieta cetogênica, 9 relataram algum alívio na frequência e duração dos ataques.

 

2) Dieta de Atkins Modificada

Com um menor nível de restrição de carboidratos em comparação à Dieta Cetogênica, a Dieta de Atkins Modificada pode desempenhar um importante papel na neuroproteção, melhora na função mitocondrial e metabolismo energético, e supressão da neuroinflamação.

Portanto, também se mostrou eficaz no manejo da cefaleia.

 

3) Dieta de baixo índice glicêmico

Na dieta de baixo índice glicêmico, a ingestão diária de carboidratos é restrita a 40 a 60 g, com um índice glicêmico (IG) inferior a 50 em relação à glicose.

Assim, limita-se o consumo de alimentos como açúcar, chocolate, doces em geral, bebidas adoçadas, pães brancos, entre outros. Os carboidratos são provenientes principalmente de legumes, vegetais, frutas e cereais ricos em fibras.

Essa dieta pode ser útil para diminuir o estado inflamatório na cefaleia. Em uma pesquisa com 175 pacientes sob a dieta de baixo IG, a diminuição na frequência das crises foram relatadas, além de menor intensidade de dor.

 

4) Perda de peso

Indivíduos com obesidade experimentariam dores de cabeça mais frequentes e graves em comparação com indivíduos com peso normal. Além disso, tanto a obesidade abdominal quanto a geral são fatores de risco para o desenvolvimento de cefaleias.

Desse modo, alcançar uma perda de peso significativa pode ajudar na prevenção e no tratamento, a partir da regulação da inflamação e da função hipotalâmica.

 

5) Equilíbrio entre ômega-6 e ômega-3

O equilíbrio entre a ingestão de ácidos graxos ômega-6 e ômega-3 é sugerido para reduzir as respostas inflamatórias, melhorar a função plaquetária e regular o tônus ​​vascular. Portanto, uma estratégia dietética que reduza o ômega-6 e aumente a ingestão de ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA) pode ser benéfica.

Neste contexto, diversos estudos mostram redução notável na frequência, intensidade e necessidade de medicação para dor de cabeça após intervenções com ômega-3.

 

6) Outras intervenções

Outras estratégias menos relatadas, mas também descritas anteriormente para auxiliar o manejo da cefaleia, incluíram:

  1. Dieta DASH;
  2. Ingestão de sódio apropriada;
  3. Padrão alimentar saudável no geral (com alto consumo de frutas, legumes e verduras);
  4. Suplementação de ácido fólico;
  5. Demais nutracêuticos (magnésio, riboflavina, coenzima Q10, matricária, carrapicho).

 

Conclusão

Como visto, a alimentação exerce um importante papel na cefaleia, seja desencadeando-a, seja atuando em sua prevenção e tratamento.

Deste modo, é imprescindível que se conheça os gatilhos alimentares do paciente com cefaleia, de modo a elaborar um plano alimentar condizente e que o beneficie, sempre com um olhar individualizado.

Para aplicação clínica de intervenções dietéticas descritas até aqui, estudos mais robustos ainda são necessários. Por isso, a abordagem primária deve incluir uma alimentação saudável, bem como outros componentes de estilo de vida: hidratação adequada, boas noites de sono, exercícios de relaxamento e respiração, manutenção da vida social, diminuição do estresse, e tratamento do etilismo e tabagismo.

 

Referências:

DI LORENZO, Cherubino et al. Applications of ketogenic diets in patients with headache: clinical recommendations. Nutrients, v. 13, n. 7, p. 2307, 2021.

DI LORENZO, Cherubino et al. Cortical functional correlates of responsiveness to short-lasting preventive intervention with ketogenic diet in migraine: a multimodal evoked potentials study. The journal of headache and pain, v. 17, n. 1, p. 1-10, 2016.

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ROCKETT, Fernanda Camboim et al. Perceived migraine triggers: Do dietary factors play a role? Nutricion Hospitalaria, v. 27, n. 2, p. 483 – 489, 2012.

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