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Pesquisadores da USP propõem novo índice de qualidade da dieta

Postado em 2 de maio de 2022

O índice associa uma dieta de saúde cardiovascular ideal ao baixo consumo de alimentos ultraprocessados

Em um estudo recente, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um índice inédito para medir a qualidade da dieta dos indivíduos.

Denominado “Cardiovascular Health Diet Index (CHDI)”, a estratégia combina recomendações para uma saúde cardiovascular ideal, com a recomendação de redução dos alimentos ultraprocessados. Conheça os detalhes do método a seguir.

qualidade da dieta

Fonte: Shutterstock

O índice foi baseado em recomendações anteriores

Anteriormente à presente pesquisa, a “American Heart Association (AHA)” havia criado o conceito de “saúde cardiovascular ideal”, que contava com um escore de 4 fatores de estilo de vida (IMC, tabagismo, atividade física e dieta saudável) e 3 fatores de saúde (pressão arterial, glicemia de jejum e colesterol total).

Para desenvolver o novo método “Cardiovascular Health Diet Index” os pesquisadores se basearam no padrão de dieta saudável proposto pelo AHA.

Além disso, por já estar bem estabelecido que a alta ingestão de produtos ultraprocessados se relaciona a doenças cardiovasculares, os autores do índice incluíram esses alimentos como componentes de monitoramento.

Por fim, também foram considerados o consumo de carnes vermelhas, laticínios e a cultura alimentar brasileira.

 

Como funciona o índice de qualidade da dieta “Cardiovascular Health Diet Index”?

O CHDI funciona através de um sistema de pontuação, que varia de 0 a 110. Para avaliar a dieta de um indivíduo, os seguintes grupos alimentares são considerados:

  • Frutas, hortaliças, peixes e frutos do mar, grãos integrais, nozes e sementes, leguminosas e laticínios: separadamente, cada item recebe pontuações de 0 a 10, onde “10” denota consumo igual ou superior ao recomendado.
  • Bebidas adoçadas, carnes vermelhas, carnes processadas e alimentos ultraprocessados: recebem a pontuação de modo inverso, onde “0” denota consumo igual ou superior ao valor recomendado, e “10” representa ausência do consumo.

Desse modo, a cada pontuação adquirida nos 11 componentes descritos acima, soma-se os valores e se chega ao resultado da qualidade dietética.

Vale ressaltar que o consumo de sódio e gordura saturada não são levados em consideração, pois as recomendações atuais para redução do risco cardiovascular estão focadas nos padrões alimentares, e não mais em determinados nutrientes isolados.

 

A validade deste novo índice foi investigada

De modo a testar a validade e confiabilidade do CHDI, foi feita uma análise transversal dos dados basais do ELSA-Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto), que conta com uma coorte de indivíduos entre 35 a 74 anos, provenientes de diferentes cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre e Salvador).

Os dados do ELSA foram coletados entre agosto de 2008 e dezembro de 2010. De 15.105 indivíduos participantes, 14.779 foram selecionados por critérios da pesquisa.

O consumo alimentar dos participantes foi avaliado por meio de um questionário de frequência alimentar (QFA), com 114 itens alimentares, compreendendo a alimentação dos últimos 12 meses.

O consumo alimentar coletado via QFA foi então convertido em ingestão de nutrientes, utilizando os bancos de dados de composição alimentar “USDA” e “TBCA-USP”.

 

Leia também: Questionário de frequência alimentar para pessoas com hipertensão

 

O CHDI se associou positivamente à qualidade dietética

O escore médio da população analisada foi de 57.1 pontos, em uma escala que variou de 0 a 110. Maiores médias foram observadas entre mulheres, idosos, não fumantes e com nível moderado a vigoroso de atividade física.

O escore total de CHDI foi associado a nutrientes relacionados à saúde cardiovascular, apresentando associação positiva com carboidrato, proteína, fonte de proteína vegetal, PUFA e fibras; e associação negativa com gordura total, MUFA, gordura saturada, colesterol, açúcar de adição e sódio.

Desse modo, pode-se dizer que o índice foi significativamente associado à qualidade geral da dieta. Além disso, teve um desempenho satisfatório em termos de validade e confiabilidade. Assim, sugere-se que o CHDI pode ser eficaz para avaliar a qualidade da dieta, em termos de promoção da saúde cardiovascular ideal.

 

Limitações e conclusões do estudo

Apesar dos bons resultados, algumas limitações foram notadas pelos pesquisadores. A primeira delas diz respeito ao questionário alimentar utilizado (QFA), que embora previamente validado e muito utilizado em estudos epidemiológicos, pode apresentar alguns vieses (finitude da lista de alimentos e o método de autorrelato).

Além disso, embora os critérios de validade e confiabilidade apresentados tenham sido satisfatórios, o CHDI não foi avaliado quanto à sua capacidade de predizer mortes e doenças. No entanto, essas análises estão planejadas e serão realizadas em breve, segundo os mesmos.

Dessa maneira, os autores esperam que, no futuro, o uso do CHDI avalie a adesão da população às recomendações dietéticas para promover a saúde cardiovascular ideal e prevenir as doenças cardiovasculares.

 

Referência:

CACAU, Leandro Teixeira et al. The AHA Recommendations for a Healthy Diet and Ultra-Processed Foods: Building a New Diet Quality Index. Frontiers in Nutrition, p. 575.

 

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